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Ungido pela ortodoxia de Berlim

por Pedro Correia, em 05.12.17

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 Mário Centeno e Jeroen Dijsselbloem

 

A memória colectiva anda cada vez mais fragmentada e diluída em mil peripécias nascidas e enterradas no efémero fragor das redes sociais. Só isto explica que o Eurogrupo tenha passado em tão pouco tempo, cá na terra, de órgão desprezível por ser apenas câmara de eco da "austeridade alemã" a instituição digna e respeitável.

 

Convém lembrar que há menos de nove meses, nos idos de Março, estalou em Portugal um clamor de indignação patriótica contra o Eurogrupo, a associação informal dos 19 ministros das Finanças da eurozona. Motivo: o titular holandês desta pasta, e por inerência presidente do Eurogrupo, insurgira-se contra os países do sul da Europa por só pensarem em "vinho e mulheres".

Rebentou o escândalo. António Costa, com o sentido de oportunidade que todos lhe reconhecem, apressou-se a fazer voz grossa: "Numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem já estava demitido neste momento."

O que Jeroen Dijsselbloem - socialista, tal como Costa - dissera, literalmente, em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung foi isto: "Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em copos e mulheres e depois ir ter consigo a pedir-lhe ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu." O Bloco de Esquerda destacou-se dos demais a rasgar as vestes, apresentando um voto de protesto contra o ministro holandês na Assembleia da República. E durante uns dias os editorialistas de turno exibiram uma imaculada folha de serviços: todos picaram o ponto na abordagem ao tema, pouco antes de a questão mergulhar no esquecimento.

 

Indiferente à voz grossa de Costa, o planeta continuou a girar no seu eixo e as instituições europeias prosseguiram na sua modorrenta rotina. Agora, por involuntária ironia, a mesma Europa que em Março o primeiro-ministro português acusou de não ser séria designa Mário Centeno para presidir ao Eurogrupo - e é o próprio Dijsselbloem a anunciar em primeira mão a escolha, que aliás contou com o voto expresso do holandês.

Acto contínuo, muitos daqueles que então arderam de fúria contra um "grupo informal, pouco transparente e nada representativo" da vontade dos povos saltam agora de júbilo com a entronização do "Ronaldo do Ecofin", como o baptizou o ministro alemão cessante das Finanças, Wolfgang Schäuble, numa evidente demonstração de que até um austero monetarista germânico possui sentido de humor.

 

O destino prega destas partidas a certa rebeldia de etiqueta: aquele que alguns propagandistas domésticos apontavam há dois anos como principal contestatário das regras financeiras da União Europeia emerge hoje como líder dos ministros das Finanças da moeda única, ungido pela ortodoxia de Berlim.

A 14 de Janeiro, receberá o testemunho de Dijsselbloem. Numa reedição ao vivo da feliz parábola evocada por Lucas no Evangelho: "Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão."


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