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Uma vergonha na Vila de Sintra

por Alexandre Guerra, em 17.12.18

Aquilo que estava inicialmente previsto há uns anos ser um projecto relativamente contido de reabilitação da histórica Casa da Gandarinha, bem no coração da Vila de Sintra, transformou-se num atentando ambiental e cultural de proporções criminosas, com a construção de um novo hotel com 100 quartos, 500 metros quadrados de sala de conferências e 137 lugares de estacionamento com três pisos, tudo envolto em betão, numa zona classificada como Património da UNESCO. O projecto, que assistiu a um desenvolvimento substancial nas últimas semanas, com a edificação de novas estruturas a rasgarem a paisagem verdejante da encosta do Castelo dos Mouros na Serra de Sintra, extravasa, em muito, o edifício da antiga Casa da Gandarinha.

 

Esta obra, que resulta de um processo com muitos anos e polémicas, à semelhança de tantos outros projectos desta natureza em Portugal, e que nunca têm finais felizes, está a nascer numa zona que, por si só, está sobrecarregada de tráfego e turismo, com milhares de veículos particulares e autocarros a circularem por ali. Uma área que há muito devia estar interditada ao trânsito e devia ser protegida a todo o custo contra os excessos do betão e do turismo.

 

Infelizmente, continua-se a ver os responsáveis do poder local a cometerem as maiores barbaridades, indo contra aquilo que são as melhores práticas de gestão urbanística e ambiental de áreas particularmente sensíveis em termos de património natural e cultural. Por vezes, falamos de questões de mero bom senso, onde nem sequer são precisos grandes conhecimentos técnicos para se evitarem aberrações. Como compreender que, numa zona em que se impõe afastar o trânsito do centro histórico da Vila (seguindo, aliás, em linha com aquilo que está a ser feito em muitas cidades e vilas portuguesas), seja a própria edilidade a promover empreendimentos que vão em sentido contrário, ao trazerem mais tráfego e turismo massificado para uma área sensível?

 

A resposta não é fácil e pode ser encontrada num leque alargado de razões, que podem ir dos famigerados “interesses” escondidos a uma manifesta impreparação dos dirigentes técnicos e políticos para fazerem face aos desafios das sociedades actuais. Independentemente das razões, uma coisa é certa: muito do nosso poder local continua a maltratar o património ambiental e cultural. 

 

Em Maio último, o jornal Público dava conta, precisamente, das questões relativas ao impacto ambiental da obra da Casa da Gandarinha e das atrocidades que já estavam ali a ser cometidas, com a conivência de técnicos e poderes políticos. O mesmo jornal, em Fevereiro, já tinha recuperado todo o histórico em torno da reabilitação da Casa da Gandarinha e nesse trabalho fica evidente que tudo poderia ter seguido um rumo diferente, caso tivesse havido coragem e visão do poder político à frente do Município sintrense.

 

Do que se lê (e nem seria preciso isso, porque basta ir ao local), constata-se uma manifesta (ir)responsabilidade da Câmara de Sintra que, a determinado momento, exerceu o seu direito de preferência face à empresa Parques de Sintra-Monte da Lua, uma sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos, nomeadamente municipais. “No final de 2013, a Parques de Sintra-Monte da Lua, empresa de capitais públicos da qual a autarquia é accionista e é responsável pela gestão dos parques e monumentos de Sintra, quis comprar, por 600 mil euros, o hotel em ruínas à empresa Tivoli Hotels & Resorts, que o detinha. A ideia era a adaptação do antigo hotel a uma 'residência jovem/hostel, de modo a viabilizar a sua recuperação e vitalizar o centro histórico de Sintra'. No entanto, a autarquia decidiu exercer o direito de preferência, impedindo a aquisição da Parques de Sintra - Monte da Lua […] Na altura, Basílio Horta, dizia à agência Lusa que a aquisição do Hotel Netto revelava que a câmara ia 'assumir as suas responsabilidades na requalificação do centro histórico da vila de Sintra e em todo o concelho'. Porém, a autarquia nunca avançou com as obras e acabou por decidir-se pela venda, perante o elevado custo de manutenção da fachada”, lê-se na notícia do Público de Fevereiro deste ano. A partir daquela altura, o processo descamba até culminar naquilo que hoje já é visível de forma gritante.

 

Mais uma vez, a mentalidade técnico-política desprovida de qualquer noção de sustentabilidade e a falta de visão de quem lidera os desígnios do poder local, confundido “camas” de hotel e auditórios, com progresso saudável das sociedades, reflecte-se de forma muito nefasta no que de mais valioso temos. Neste aspecto em concreto, a Vila de Sintra, e toda a sua envolvente, tem sido um triste exemplo da ausência concreta de verdadeiros paradigmas de gestão sustentável, quando se permite que atentados destes ocorram em nome da tal economia e do “turismo”, quando se permite que tuk tuks terceiro mundistas altamente poluentes circulem em plena mancha verde, que milhares de automóveis e autocarros entupam a única artéria da Serra que vai da Vila ao Castelo dos Mouros e ao Palácio da Pena, ou que hordas de turistas encham jipes para se passearem no meio dos estradões e árvores da Serra. E por aí fora... Uma lamentável e triste história que se repete vezes de mais….

 

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Nas últimas semanas, o betão rasgou de forma gritante a encosta do Castelo dos Mouros/Sintra

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A construção estravasa claramente o edifício original (direita) 

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Zona de construção nova do parque de estacionamento com três pisos e que se prolonga até muito próximo de uma das fontes mais procuradas em Sintra

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A fachada original, actualmente tapada, começa a ficar rodeada de betão.

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O arvoredo ainda tenta esconder o que é uma vergonha inaceitável nos tempos que correm.

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Betão é aquilo que se vê agora quando se inicia um dos caminhos pedestres mais bonitos para o Castelo dos Mouros.

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A zona do novo parque de estacionamento veio ocupar um espaço outrora amplo e livre.

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Uma perspectiva que dá uma ideia da dimensão escandalosa da obra. 

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Muito betão rodeado de casas típicas de Sintra e muito verde.

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Betão e mais betão muito para lá do edifício original.

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Uma fotografia do que restava do edifício na sua dimensão original, sem estruturas à sua direita ou esquerda.

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