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Delito de Opinião

Uma questão de carácter?

Cristina Torrão, 16.01.26

Vivendo no estrangeiro, tinha vindo a acompanhar a campanha eleitoral para a Presidência da República com pouco interesse. Nenhum dos candidatos me entusiasma. E as sondagens indicam que Ventura perderá a provável segunda volta. Para quê incomodar-me?

Nos últimos dias, porém, tornou-se impossível, para qualquer pessoa, ficar indiferente. Mesmo assim, não tencionava escrever sobre o assunto, aqui no blogue. Um suposto assédio sexual, palavra contra palavra... enfim.

Mas ia lendo, aqui e ali, certas coisas que me começaram a incomodar. E dou com este comentário, na publicação do Pedro Correia:

"Sabe o que é grave: é o Cotrim ter dito que apoiaria Ventura na segunda volta e depois confrontado mais tarde com os jornalistas ter dito que estes perceberam mal e depois ainda mais tarde ter dito que não sabe onde tinha cabeça para ter dito o que disse no apoio a Ventura. Isto sim, demonstra a instabilidade de Cotrim e até da sua própria seriedade. O que devia ser debatido é quem é afinal Cotrim e não esta alegada estória da Inês Bichão e Cotrim Figueiredo".

Concordo com o comentador Miguel Santos: Cotrim de Figueiredo revela uma certa instabilidade. E falta de seriedade (eu diria, muita). É que, alguns dias atrás, dei com estas palavras deste mesmo candidato:

"Parece-me irrazoável numa sociedade democrática que se possa tomar uma decisão sem o conhecimento do pai desse ser cuja vida vai ser interrompida".

Acompanhei alguns casos de IVG, ainda no tempo em que era ilegal. E soube de outros casos, por me terem contado. E só posso dizer uma coisa: estas palavras de Cotrim de Figueiredo caíram-me muito mal. São profundamente hipócritas. Mesmo surreais.

Se quer ser Presidente da República, Cotrim de Figueiredo devia ter-se informado. Ele não saberá que a maioria desses "pais" não querem ser tidos nem achados nessa questão? Que querem apenas desaparecer e que, se confrontados, logo negam? Não saberá que a maior parte das mulheres toma uma decisão dessas, ou porque o "pai" nega sê-lo, ou porque o "pai" se recusa a assumir qualquer responsabilidade? Que é o próprio "pai", em inúmeros casos, quem força a grávida a abortar (principalmente, homens casados que primam pela infidelidade)? Que muitas das IVG se fazem precisamente para evitar o escândalo na vida dos "pais"? E que muito poucas mulheres, acompanhadas pelo "pai", nessa situação, recorrem à IVG? 

Reparem: Cotrim de Figueiredo inverte os papéis. A mulher que aborta é egoísta, prepotente; o pai, coitadinho, não é tido, nem achado, uma vítima. Não digo que não existam casos destes, porque os há. Mas arrisco dizer que são uma ínfima minoria.

A inversão dos papéis (fazer do agressor a vítima e vice-versa) é uma conhecida técnica machista e misógina. Acho até uma pena que esta coisa do assédio tenha vindo abafar estas "instabilidades" do dito candidato. O carácter devia pesar muito na balança, quando se trata de votar em alguém para Presidente da República.

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