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Uma ocupação

por João André, em 20.03.20

Ao contrário da maioria das pessoas, não vejo a presente crise como uma guerra. Numa guerra existe um conflito em uma ou mais frentes de combate e onde a sociedade se mobiliza para ajudar no conflito através de, por exemplo, um aumento nos seus meios de produção. Neste momento não temos verdadeiramente isso. À parte o esforço para produzir máscaras, desinfectantes e ventiladores, a maioria dos meios de produção estão ou parados ou a funcionar como de costume.

Para mim estamos a viver uma ocupação. O inimigo já se instalou, após a blitzkrieg que encetou contra a nossa sociedade, nos nossos espaços e já determina a nova forma de viver. É uma ocupação que viremos a repelir, mas para o presente vivemos ocupados.

Que importa isso se o resultado é o mesmo? A verdade é que as ocupações não se terminam ficando em casa. A sociedade definha e morre se isso suceder. Neste momento é essencial cumprir estas regras de isolamento, mas um dia em breve virá onde as sociedades decidirão que a long prazo essa solução apenas servirá para as destruir.

Mesmo que dentro de 4 a 12 semanas cheguemos a um ponto onde terminam as infecções e os casos param de aumentar e estamos na situação que a China vive presentemente, é muito provável que isso seja só temporário. Seja por causa do tempo ou por causa do aumento das interacções sociais, o vírus voltará e com a mesma força que anteriormente. A solução passará, novamente, por estas medidas de isolamento.

Que sucede então com a sociedade? Pára. A saúde mental dos indivíduos piorará. Chegaremos aos limites do que a população estará disposta a tolerar. Talvez sejamos capazes de continuar até se desenvolver e produzir em massa uma vacina eficaz, mas até lá aguentaremos a sociedade? A produção industrial da China caiu cerca de 20% no período de lockdown que foi imposto. E as medidas mais sérias foram apenas na provícia de Hubei (apesar de terem sido bastante fortes em toda a China). Imaginemos o mesmo a passar-se na Europa e por um período mais alargado. As liberdades na Europa são mais latas e a cultura é também diferente do que teríamos na Coreia do Sul ou Taiwan. É provável que demore mais tempo até estas medidas funcionarem.

Isso significa que os mercados se afundarão (ou continuarão a afundar), as empresas fecharão e enormes quantidades de pessoas ficarão desempregadas, o que agravará o problema. A certa altura, o risco será o de vermos a sociedade a colapsar.

Não sei a solução, mas acredito que o paradigma mude em breve, para uma situação onde se tentará promover ao máximo uma mudança de comportamentos mas onde as empresas retomarão as suas actividades de forma (quase) regular. Esta é uma situação em que o número de pessoas que poderão morrer aumentará, mas penso que haverá um momento em que as sociedades optarão por essa alternativa.

Não digo que é o que se deve fazer, antes que é provável que cheguemos ao momento de ter de fazer essa escolha (ou semelhante). A verdade é que até haver uma vacina ou a doença se tornar endémica, não teremos segurança. E ficar em casa será em breve incomportável. A ver vamos no que termina esta ocupação.


10 comentários

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De Vento a 20.03.2020 às 21:38

A natureza humana não pode ser domesticada ou domiciliada. O seu texto fez-me regressar as memórias de pessoas que conheci e que andaram por diversos continentes.
Os bandeirantes são o exemplo de quem enfrentou ambientes hostis para os quais o seu sistema imunitário ainda não esteva preparado. África, Ásia e Américas são os pontos de contacto de toda esta narrativa, onde sobreviviam aqueles cujo organismo lhes permitia contrariar as causas, mas também saiam dela com mazelas que se evidenciavam futuramente. Porém sempre conscientes que esse era o preço por viverem.

Significa isto que o homem tem consciência de sua natureza e limitações, mas ainda mais que o seu papel em viver comporta riscos. Não se esperou pela ciência para que se fizesse da vida uma aventura, mesmo sem esta, e até mesmo com esta, a vida foi e será sempre uma aventura com inúmeros riscos. Foi a ciência que acompanhou a vida e não o contrário.

Acredito que só estamos a dar tempo para nos refazermos do choque e podermos voltar à vida com a esperança que sobrevive contra toda a esperança para enfrentar de novo a aventura que é a vida. Chama-se a isto fazer acontecer o milagre. E Deus protege os aventureiros, por isto lhes chama filhos. Somos filhos da Aventura da Vida e do Sonho que nos sonhou.
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De João Lopes a 20.03.2020 às 21:46

Finalmente um postal com pés e cabeça. Parabéns pela sua (rara) lucidez. A Inglaterra começou por tentar lidar com a situação da forma mais coerente (proteger os grupos de elevado risco e deixar que se criasse imunidade de grupo) mas as pressões foram tantas que parece já ter arrepiado caminho. No resto da Europa assiste-se à paragem forçada da economia, pensando apenas no imediato e hipotecando o futuro.
Ai querem estado de emergência? Já agora peçam o estado de sítio mas depois não se queixem!
Mais uma vez obrigado pela sua tomada de posição.
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De João André a 22.03.2020 às 18:47

Não é exactamente uma tomada de posição, antes uma análise fria do que provavelmente se passará. Os governos optarão certamente por reforçar certas medidas. Irão fornecer mais respiradores, criar espaços nos hospitais, ter mais máscaras e gel à disposição, etc. Mas irão provavelmente levantar as restrições. Uma sociedade destroçada matará mais por razões secundárias (fome, por exemplo) que pela razão primária (o vírus).
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De J. L. a 20.03.2020 às 22:57

"não vejo a presente crise como uma guerra" De facto não é uma guerra. Os que lhe chamam guerra nunca viram imagens da Síria. Olho pela minha janela todos os dias e ainda não vi nenhum prédio destruído. Nem ocupação é. Trata-se de um grave problema de saúde pública que tem de mobilizar médicos, enfermeiros, etc. e não o exército.
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De João André a 22.03.2020 às 18:49

Não faço comprarações dessas porque são descabidas. Por essa lógica os europeus que se lembrem da destruição das suas aldeias e cidades durante a II Guerra Mundial diriam que o Iraque é uma brincadeira e que a Síria ainda não viu o pior que pode acontecer. Não afirmo o que lá esta acima por comparação de números, antes pela natureza das crises.
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De Anónimo a 20.03.2020 às 23:25

Então haverá uma mudança de comportamentos e as empresas retomarão de uma forma regular, quase? Mesmo com a mudança de comportamentos?
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De João André a 22.03.2020 às 18:52

Mudanças de comportamento serão ao nível de manter o máximo de distanciamento social mesmo quando se trabalha. Reduzir as reuniões presenciais, promover o trabalho a partir de casa, aumentar os transportes públicos para reduzir a sua lotação, implementar horários mais alargados para permitir o começo e fim do trabalho em períodos mais afastados, colocar gel em vários locais nos postos de trabalho, etc. Os governos podem também aumentar fortemente o número de respiradores, de camas dedicadas a estes doentes, o número de máscaras e escalar o pessoal de saúde para apoiar a resposta aos casos que surjam.

E depois dizer: vão trabalhar. A sociedade precisa que produzam.
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De xico a 21.03.2020 às 13:27

Na guerra, para salvar a economia e o status quo, mandam-se jovens matar e morrer. Depois chamam-lhes heróis porque salvaram a comunidade Isto, de facto, não é uma guerra.
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De João André a 22.03.2020 às 18:53

Não se pediará aos jovens que "matem", mas poderá ser-lhes pedido que voltem ao trabalho sabendo que poderão infectar outros e que esses outros infectados poderão morrer. E esse esforço será louvado. Mas não é por isso que não é uma guerra. É uma epidemia.
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De marina a 23.03.2020 às 19:07

Muito bem . É a única solução sensata. Não se vai por toda a sociedade em risco , crianças e jovens com a vida toda pela frente , para salvar pessoas que estavam já "armazenadas" em lares É horrível dizer isto , eu sei , mas há que ser realista.

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