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Umas notas sobre o desemprego

por Luís Naves, em 05.08.15

A divulgação de números sobre o emprego tem motivado uma surpreendente vaga de afirmações demagógicas e de interpretações hipócritas. Ninguém escapa à tentação de enganar os eleitores. O governo diz que baixou o desemprego e que criou emprego, e isso é apenas meia verdade, pois na totalidade do mandato foram destruídos 300 mil postos de trabalho (o que não pode surpreender ninguém, já que o PIB caiu 6% e levará anos a recuperar os valores anteriores ao programa de ajustamento).

A demagogia dos partidos da oposição insiste em dois pontos, o primeiro de profunda hipocrisia, o segundo baseando-se numa mentira mil vezes repetida. Partidos que sempre foram a favor de políticas activas de emprego ficam zangados pelo facto deste governo ter usado políticas activas de emprego. Há dinheiro europeu disponível, fazem-se programas de estágios, onde é que a esquerda encontra um problema? Também é falso que todos os empregos novos resultem destes programas, já que a ainda tímida criação de novos empregos está igualmente distribuída por contratos a termo e sem termo, beneficiando trabalhadores mais velhos, que são também os mais afectados pelo fenómeno do desemprego. Como é que as pessoas pouco qualificadas regressam ao mercado de trabalho? Programas activos de emprego, com o governo a ser criticado se estes não resultarem.

Mas há outros dados interessantes nas estatísticas do INE. Em quatro anos, a população activa reduziu-se em 367 mil pessoas, mas a estimativa de população só se reduziu em 300 mil. Isto indica que a imigração é menor do que se diz. Já ouvi números absurdos, mas na verdade 300 mil é o número máximo, em quatro anos, o que daria uma média anual de 75 mil. A ser verdade, é muita gente, mas a oposição usa habitualmente a bandeira dos 150 mil por ano. O valor real deve ser de metade daquele que é mais citado, pois muitos emigrantes portugueses são contabilizados em cada ano nos países para onde vão e o próprio governo, de maneira ingénua, recolhe metodicamente os dados e soma colunas que não pode somar. O mesmo imigrante, com contratos precários no país de destino, é contado três, quatro vezes.

Podemos usar outra via para obter uma ideia mais precisa: entre o segundo semestre de 2014 e o segundo semestre deste ano, o desemprego reduziu-se em cerca de cem mil pessoas, com o aumento do emprego a rondar 60 mil. Ou seja, neste caso, a imigração não poderá ser superior a 40 mil. A vaga de imigração nunca foi tão grande como se dizia ou está a abrandar.

Nas estatísticas de emprego deve olhar-se sobretudo para a estimativa de quantas pessoas trabalham e devem ser comparados os trimestres homólogos. A queda deste indicador foi abrupta até 2013, com a destruição de quase 400 mil postos de trabalho em apenas dois anos. Nos dois anos seguintes, o valor subiu de forma lenta, com ligeira aceleração no segundo ano. O desemprego está em queda? Sim, como está em queda a população activa e como está em queda a própria população total. O emprego está a recuperar? Sim, mas devagar e ainda longe de ter recuperado o que perdeu nos primeiros dois anos do ajustamento. No último ano foram criados 60 mil empregos, o que dá cerca de 5 mil por mês. É suficiente? Não. 

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11 comentários

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De Miguel a 05.08.2015 às 19:14

Julgo que está a estimar a emigração.
por exemplo: "entre o segundo semestre de 2014 e o segundo semestre deste ano, o desemprego reduziu-se em cerca de cem mil pessoas, com o aumento do emprego a rondar 60 mil. Ou seja, neste caso, a imigração não poderá ser superior a 40 mil."

A este numero tem de somar os novos entrantes no mercado de trabalho.
Se, por ex., no ultimo ano tiverem existido 100 mil pessoas novas no mercado de trabalho, a emigração não poderia ser superior a 140 mil.
Não sei qual o número oficial de "novos entrantes".

miguel
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De Luís Naves a 05.08.2015 às 19:27

não me expliquei com clareza: o desemprego baixou cem mil num ano, o emprego aumentou 60 mil, logo há 40 mil pessoas que deixaram de estar no mercado laboral, por reforma, emigração ou morte. Se atribuirmos tudo à emigração, então temos o valor máximo de 40 mil. Estas estatísticas são estimativas e a sua interpretação não pode ter valores precisos. O que vale aqui é a conclusão de não existir nada que se pareça com 150 mil imigrantes ou, então, o desemprego devia ter baixado pelo menos (150 mais 60) 210 mil; há ainda a hipótese de todos os imigrantes terem emprego antes da imigração, mas então a população activa teria caído muito mais do que 40 mil.
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De Diogo Moreira a 05.08.2015 às 20:37

São duas coisas diferentes: o desemprego é medido contando os inscritos nos centros de emprego e que reúnem algumas condições, a mais importante das quais é a procura activa de trabalho.

A população activa é o número de trabalhadores que têm um vínculo profissional, mesmo que auto-empregadas.

Entre uma coisa e outra existe o conceito de população não-activa. São aqueles que, não tendo emprego, "não estão activamente à sua procura". Inclui os jovens que estudam, os velhos que estão reformados e todos os que desistiram de procurar emprego ou, simplesmente, foram apagados da lista de inscritos dos centros de emprego.

Para ter uma comparação válida, deveria-se medir os empregados e desempregados face ao número de pessoas em idade de trabalhar (tipicamente, dos 16 aos 65 anos, mas estes limites podem ser ajustados).

A conclusão dos 40 mil é, por isso, errada.
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De Luís Naves a 05.08.2015 às 23:53

Agradeço o seu comentário. O cálculo proposto é mais correcto e da um valor superior, de 78 mil pessoas, o tecto máximo para um ano de imigração. É consistente com a ideia do post de haver uma saída de trabalhadores muito inferior à que se refere habitualmente. Convém não esquecer que muitos imigrantes tem contratos por alguns meses lá fora e quando regressam podem ir para o desemprego durante os meses em que cá estão, inflacionando ainda mais o resultado aqui proposto.
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De Miguel a 06.08.2015 às 01:25

Caro Luis Naves,

Como está a usar variações em numero absoluto em relação a um ano base, necessita de acrescentar os novos entrantes ao seu total de potenciais emigrantes.

Para explicar melhor imagine que no periodo de 1 ano:
1) Variação absoluta do emprego: +100mil
2) Variação absoluta do desemprego: -100 mil

Ou seja, em relação ao numero de activos do ANO ANTERIOR o aumento de emprego e a redução do desemprego saõ iguais. Portanto o potencial para nova emigração seria zero, de acordo com a sua análise.

Mas onde foram parar os activos produzidos após o fim do ano anterior (durante o periodo)? Não arranjaram emprego, nem estão desempregados... portanto adicionam ao "numero potencial" de emigrantes.

Julgo que este efeito é bastante superior ao indicado no comentário sobre o universo, embora esse tb seja relevante.

Miguel
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De IsabelPS a 05.08.2015 às 22:05

Está a falar de emigração e emigrantes e não de imigração e imigrantes, não é?
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De Costa a 05.08.2015 às 22:35

"No último ano foram criados 60 mil empregos, o que dá cerca de 5 mil por mês. É suficiente? Não."

Não é, de facto, e qualquer que seja a posição política de cada um perante o actual governo e as actuais oposições, outro factor há que não pode ser ignorado: o que significam esses novos empregos? Como se comparam perante aqueles que foram destruídos? Não posso prová-lo com dados objectivos, mas estou firmemente convicto de que a generalidade, a vasta generalidade, das pessoas que, atingidas pelo desemprego, regressaram ao mercado de trabalho o fizeram com uma bem severa (meço e atenuo as palavras que uso) redução da remuneração auferida pelo trabalho prestado. Com todo o cortejo de graves problemas, que me dispenso de elencar, que isso acarretará.

Seja porque foram levadas a aceitar trabalhos para os quais se apresentam, sem outra escolha, sobre-qualificadas ; seja porque, tendo conseguido reconquistar um lugar na actividade e no grau (ou comparáveis) em que laboravam até perder o emprego, essas mesma funções ou equiparadas valem hoje bem menos do que há uns, poucos, anos. Do que valiam quando com base nelas se assumiram responsabilidades que não foram atenuadas, nem remotamente, em semelhante proporção.

Há ainda o caso das pessoas levadas, seja pelo "encanto" próprio da perspectiva em causa, seja pelo intenso incitamento nesse sentido promovido pelo estado, seja pelo desespero (pela ausência demonstrada de outra possibilidade), a ingressar na categoria de empresários - ou empreendedores, como por estes dias parece ser politicamente correcto chamar-lhes -, sem preparação, sem vocação, enterrando tudo o que lhes resta em negócios afinal inviáveis. Meses depois, como se sabe, nem uma camisa podem ter em seu nome, o seu nome está irreversivelmente na lama e provavelmente arrastaram nessa sorte familiares e amigos de quem obtiveram ajuda (a segurança social encarregar-se-á, implacavelmente, de reaver o subsídio pago de uma só vez, por exemplo).

Ou seja: haverá uma recuperação e ainda bem; admissivelmente o caminho não poderia ser outro e o empobrecimento geral uma inevitabilidade (pena que tantas e tantas vezes implicando a perda da honra, do bom nome, às mãos da máquina do próprio estado). Mas isto custa e custou terrivelmente a milhares e milhares de cidadãos honestos, cumpridores, moderados, prudentes.

Quanto à oposição, não guardo ilusões; nem enquanto tal nem se o destino lhes devolver ou conceder o poder. Do governo gostava de constatar uma atitude mais humilde; a de quem tendo feito o que havia inevitavelmente a fazer - a ser essa, de boa fé, a sua firme convicção - se apresenta perante o soberano (o povo, enfim), sob cujo mandato administra, a prestar contas do que parece ser o fim do princípio. Mas não mais do que isso. Um tempo melhor, talvez, mas não tanto assim, ainda; construído na devastação do valor do trabalho (e do próprio trabalho), o mais evidente sucesso do "reajustamento", e à custa de baixas terríveis.

Já se terá feito muito, mas muito faltará ainda fazer - num esforço de décadas - e os custos são já pesadíssimos em inocentes desonrados e/ou profundamente empobrecidos. É sobre os despojos destes (e não acho a linguagem excessiva) que a recuperação se produz e esta nunca compensará os danos sofridos. Respeito, uma palavra de respeito por esses, e contenção, humildade - porque a recuperação só o é perante a devastação a partir da qual se produziu - deveriam ser mais praticados perante os cidadãos. O tempo não é de festivos anúncios de vitória.

Se o governo está a fazer bem o seu trabalho, este é - deveria ser - o momento de interiorizar que ninguém poderá ufanar-se de fazer bem esse seu trabalho. É por estes dias um elementar dever, muito longe de completo e que muito já custou a tantos.

O exemplo daquele senhor inglês que fumava e (consta) bebia copiosamente, e foi primeiro-ministro em tempos de outra bem pior devastação, anda muito esquecido. Suponho que a noção de "homem de Estado" o anda...

Costa
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De lucklucky a 05.08.2015 às 23:44

Parte dos empregos passados eram falsos, só existiam pelo endividamento.

Muitos outros inuteís que só existem pelos altíssimos impostos continuam.

Infelizmente este Governo não destruiu mais emprego.
E só destruíndo mais emprego fundados pelos impostos novos empregos não fundados pelos impostos podem aparecer.
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De Antonio Tomé a 06.08.2015 às 07:55

Não diria melhor. Excelente texto!
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De Tiro ao Alvo a 06.08.2015 às 08:05

Costa, saiba que concordo consigo: humildade precisa-se, tanto da parte do governo como das oposições, mas não vai acontecer assim - a sede de poder é muita.
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De AntónioF a 06.08.2015 às 14:22

Caro Luís,

a propósito deste assunto: os números do desemprego, cuja redução da respectiva taxa é sempre de salutar, estou em crer que até Outubro estejamos a viver uma siuação de pleno emprego, permita-me que lhe deixe um pequeno texto de Hannah Arendt:

«Uma anedota medieval ilustra a dificuldade que pode haver em mentir aos outros sem o fazer a si próprio. É a história do que aconteceu uma noite numa cidade: uma sentinela estava postada na guarida noite e dia para prevenir as pessoas da aproximação do inimigo. A sentinela era um homem dado às brincadeiras de mau gosto e naquela noite tocou o alarme apenas para causar algum medo às pessoas cidade. Teve um sucesso espantoso: toda a gente se lançou para as muralhas e a nossa sentinela acabou por fazer o mesmo. Por outras palavras, quanto mais um mentiroso tem êxito, mais verosímil é que seja vítima das suas próprias invenções. De resto, o brincalhão preso na sua própria mentira, que embarca no mesmo navio que as suas vítimas, parecerá infinitamente mais digno de confiança que o mentiroso de sangue frio que permite saborear a sua farsa do exterior.»

In: ARENDT, Hannah - Verdade e política. Lisboa : Relógio d'Água, 1995. p. 46

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