Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
A contabilidade das rivalidades, fobias, invejas, choques e altercações entre escritores é tão longa que daria, ela própria, um romance grande ou até, eventualmente, um grande romance. Poucos terão atingido, é certo, os patamares de violência verbal de Mark Twain. Sobre Jane Austen, só para dar um exemplo, Twain afirmou que, depois de ler Orgulho e Preconceito, era tomado por uma indomável vontade de "desenterrar a autora e de a golpear no crânio com a sua (dela) própria tíbia". Uma bela metáfora. Esperemos... Mas, para além do prolífico Twain, não faltam casos de mimos entre escritores. Sobre Hemingway disse Faulkner que "nunca foi conhecido por utilizar palavras que obrigassem o leitor a usar um dicionário". E, no uso de direito de resposta, Hemingway não evitou um contido "pobre Faulkner que acredita que os grandes sentimentos vêm das grandes palavras". Virginia Woolf também não foi meiga com Joyce: "Ulisses é o trabalho de um universitário entediado enquanto espreme as suas borbulhas". Ou algo do género. Como meigos não foram Vargas Llosa e Garcia Márquez quando decidiram discutir o mérito das suas obras, literárias ou mais prosaicas, não se sabe, ao murro e à estalada. Pois bem. Se tudo isto é normal, se os escritores, grandes ou menores, não deixam por isso ou por causa disso de serem humanos, sujeitos às misérias das invejas que nos roem, dos odiozinhos que nos assolam, das dores de cotovelo que nos comem as articulações e a lucidez, é natural que os escritores portugueses também não tenham escapado. E aí tivemos Saramago e Lobo Antunes a prová-lo. Todavia, se os autores portugeses, nesta coisa da ciumeira e do picanço, não fogem da comezinha normalidade, apresentam todavia uma nota de originalidade que me intriga. A literatura faz-se dos escritores, das obras, das ideias, do estilo. Mas também se faz das personagens. E aí estão, quantas absolutamente inesquecíveis, Quixote, Daedalus, Madame Bovary, Sherlock Holmes, Harry Potter, Tom Sawyer, Raskolnikov, Josef K, Alice, Leopold Bloom, Ana Karenina, Miguel Strogoff e tantas, tantas, que se fizeram muitas vezes maiores do que os autores, maiores do que a obra. Ora, como se sofresse de uma anomalia genética, a literatura portuguesa, tendo produzido grandes obras e escritores, nunca foi capaz de dar ao mundo extraordinárias personagens. Às personangens portuguesas falta invariavelmente espessura, golpe de asa, coragem e liberdade para se soltarem das páginas dos livros em que nasceram, abraçando a universalidade. Temos uma literatura de escritores, de livros, de estilos, de pensamento, mas não uma literatura de personagens. Como se os autores, para além das corriqueiras rivalidades com outros escritores, agissem deliberadamente com o objectivo de abafar as pessoas fictícas que dão à luz, não lhes permitindo superar em fama e proveito o próprio criador.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.