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Uma lição de vida

por Pedro Correia, em 30.06.20

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Por vezes, no mais inesperado dos lugares, despertam inimagináveis vocações. Aconteceu com José Saramago, o que é um - entre tantos outros - aspecto memorável da sua biografia. Impossibilitado de prosseguir os estudos para além do curso profissional de serralharia mecânica na escola industrial Afonso Domingues, o jovem Saramago passava os tempos livres recolhido na biblioteca municipal de Lisboa, no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno. Enquanto os seus parceiros de geração optavam por folguedos, bailaricos e comezainas, ele cultivava-se com esmero, persistência e determinação naquelas salas austeras que lhe propiciaram o equivalente à formação universitária que formalmente nunca chegou a ter.

O Nobel de 1998 recorda esse período num admirável prefácio escrito para o livro De Volcanas Llena: Biblioteca y Compromiso Social (Gijón, Trea, 2007). «Era um lugar em que o tempo parecia ter parado, com estantes que cobriam as paredes do chão até quase ao tecto, as mesas à espera dos leitores, que nunca eram muitos (...). Não posso recordar com exactidão quanto durou esta aventura, mas o que sei, sem sombra de dúvida, é que se não fosse aquela biblioteca antiga, escura, quase triste, eu não seria o escritor que sou. Ali começaram a escrever-se os meus livros», anotou Saramago, lembrando os dias, meses e anos ali passados.

Uma lição de vida.


31 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 30.06.2020 às 10:48

E deu-lhe toda a inspiração necessária, como diria Cícero, se temos uma biblioteca e um jardim temos tudo.
Saramago, o escritor, é para mim um exemplo de que a sina, o destino, o fado, não existem na realidade, o se existem nada têm de definitivo, porque nada está escrito que se não possa reescrever se houver vontade e se fizerem as escolhas certas. Como fez Saramago.



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De Vorph "ги́ря" Valknut a 30.06.2020 às 13:10

Só contradições. Se existe fado, existe um inexorável destino não dependendo, este, das escolhas individuais.

Depois remata com o costumeiro julgamento moral da "Reaça de Sacristia" . A culpa de se ser pobre, de se ter falhado (pessoalmente, profissionalmente, empresarialmente, na escola, etc), deve-se há pouca vontade ou há falta de discernimento. Enfim, há gente que na sua compaixão não vê vítimas, derrotados, fracassados, inocentes. Há tão só gente que finge bem, e gente que se vitimiza melhor. A malta que jorra sentenças simplistas, porque incapazes de um pensamento aturado, encanitam-me


PS: Não, a culpa também não é sempre da comunidade, dos pais, do país ou do indivíduo. É de tudo isso, umas vezes, de algumas delas, outras tantas, e de nenhumas, numa ínfima proporção.
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De Pedro Correia a 30.06.2020 às 14:29

Lamento, Vorph, mas é uma grande verdade: nada está escrito.

Se estivesse, Lincoln não teria sido Lincoln. Saramago não teria sido Nobel. Cristiano Ronaldo não seria o melhor jogador do mundo.

O livre-arbítrio não é um conceito oco e vão.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 30.06.2020 às 14:46

Pedro, há sempre possibilidades que furam todas as probabilidades. Quando escolhemos seguindo o nosso livre arbítrio não o fazemos livremente. Há um caldo histórico (país, pais, bairro onde se nasceu, escola frequentada, genes herdados, educação aprendida, grupo de amigos, alimentação...) que deixa marcas indeléveis em cada um de nós. Há predisposições inatas que se cultivadas em solos férteis se manifestam forçosamente e não por acaso.

O Pedro, por acaso, acha provável que com pais diferentes, outros amigos etc, seria o mesmo Pedro de hoje? Uma possibilidade muito pouco provável.

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De Anónimo a 30.06.2020 às 16:15

Não tenha tenha tantas certezas!!!
Pois tudo pode estar previamente escrito...
E o livre-arbítrio pode ser apenas uma pequena ilusão da liberdade de escolha.

Existe uma estória verdadeira de dois grande jogadores de Xadrez que eu já não me lembro dos nomes.

Em que numa derradeira partida, um deles bloqueia no pensamento e fica indeciso na peça que deveria jogar, e então começa a divagar na sua introspecção, pensava,num elefante a afundar-se num pântano e as formas de o salvar, pessoas a puxar com cordas, atado e puxado por um helicóptero,.....etc
Até que resolveu jogar uma peça que o levou a vitoria no jogo.

No dia seguinte os jornais elogiaram o jogo e a grande jogada do vencedor, que tinha pensado em tudo...
Para espanto de muitos ele contou que tinha bloqueado e fez aquela jogada por fazer pois a outra solução teria o levado a derrota.

Os caminhos que trilhamos,podem já estar lá no subconsciente, nós apenas o percorremos pensando que estamos a fazer a nossa escolha.



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De Makiavel a 05.07.2020 às 09:46

O livre arbítrio claro que existe. Tal como as circunstâncias em que ele pode ser exercido.
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De Pedro Correia a 05.07.2020 às 11:05

Saramago é a prova disso. Alterando o postulado de Ortega: o homem também constrói as circunstâncias, não se limita a ser condicionado por elas.
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De Mónica França Fragoso a 05.07.2020 às 13:32

Verdade. Uma história de vida de luta e inspiração.
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De Makiavel a 05.07.2020 às 13:59

Obviamente! Mas isso não quer dizer que quem não consegue construir melhores circunstâncias para o seu desenvolvimento deva ser considerado um falhado, um incompetente ou um subsidiodependente, como propala por aí a ideologia da meritocracia.
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De Pedro Correia a 05.07.2020 às 14:02

Meritocracia é um conceito positivo.
Saramago é um exemplo claro de que a meritocracia não é um mito e que o "elevador social" (expressão de que não gosto) pode funcionar, mesmo quando há mil falsos profetas por aí a garantirem que não.
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De Makiavel a 06.07.2020 às 19:07

Meritocracia é um conceito redutor e falacioso.
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De Pedro Correia a 06.07.2020 às 22:02

Tenho a certeza de que Saramago não diria isso. Ele era cultor do mérito.
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De Makiavel a 08.07.2020 às 21:48

Já eu tenho muitas dúvidas. Ser cultor do mérito não é o mesmo que defender a meritocracia.
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De Pedro Correia a 30.06.2020 às 14:25

Certíssimo, Maria Dulce. Foi isso mesmo que me levou a escrever este texto.
Com Saramago, o chamado "elevador social" (não gosto da expressão) funcionou. Mas não porque seguisse em piloto automático: tudo teve a ver com o esforço, o mérito e o talento dele.

É nestes exemplos concretos que devemos concentrar-nos. Porque nos ensinam mais do que mil cartilhas ideológicas, sempre abstractas.
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De Maria Dulce Fernandes a 30.06.2020 às 14:29

É sem dúvida um exemplo a ter em conta, Pedro.
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De Anónimo a 01.07.2020 às 00:47

"Elevador social"

Tem a nossa conhecida Avelina criada para todo o çerviço do nosso José Vilhena.
Boas lições

Carlinhos
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De Pedro Correia a 05.07.2020 às 20:32

Conheces a Guidinha, Carlinhos? Ela tinha muito jeito para redacções.
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De Anónimo a 30.06.2020 às 12:42

Quando as cabeças tem um espirito elevado, as universidades podem ser uma perda de tempo, e nos dias de hoje o ensino universitário anda nas ruas da amargura.

É vê-los nas manifestações, nas festas, num contexto de pandemia, que pelos vistos para eles é só para velhinhos analfabetos, pois eles são os Mestres escola da inteligência.
Antigamente havia pessoas como o Saramago, hoje a gente universitária que se diz culta, a geração mais bem preparada de sempre, dita por alguns.

E eu que ainda sou relativamente novo concordo, eles de facto são a geração mais egoísta, individualista, mais desrespeitadora de sempre onde os valores não existem e a mediocridade abunda.


(Não generalizando, mas infelizmente grande parte desta juventude é assim)

Jorge Jesus
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De Pedro Correia a 30.06.2020 às 14:21

Não generalize em excesso, para não cair em injustiças. E não estigmatize os jovens que chegam agora à idade adulta, com problemas específicos que outros antes deles não tiveram.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 30.06.2020 às 12:55

Excelente. Obrigado, Pedro
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De Pedro Correia a 30.06.2020 às 14:19

Um abraço, meu caro.
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De Anónimo a 30.06.2020 às 14:11

Tive a sorte de conhecer o Palácio Galveias, no seu todo, ou seja até no que está vedado aos leitores da biblioteca e é um belo palácio cheio de belos pormenores.
Sei que foram feitas grandes obras de restauro no Palácio Galveias, espero que não o tenham estragado.
Antigamente havia um certo culto pelas bibliotecas, hoje parecem um pouco substituídas pela Net.
E há coisas que nunca passam de moda que são os "folguedos, os bailaricos e as comezainas".
O que não falta para aí é o Dr. da treta.
Já Saramago só houve um!!

Miguel Nunes
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De Pedro Correia a 30.06.2020 às 14:18

Estive recentemente no Palácio Galveias - local que me diz muito pois cheguei a estudar lá nos meus tempos de estudante universitário - e é com gosto que lhe digo que essas obras valorizaram muito aquele espaço.

Quando lá estive, percebi que a biblioteca continua a ser bastante frequentada, o que muito me satisfez também.
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De Anónimo a 30.06.2020 às 14:40

Obrigado!
é uma boa notícia.

Miguel Nunes
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De Pedro Correia a 30.06.2020 às 15:03

Quando puder, passe por lá. Verá que gosta.
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De Anónimo a 30.06.2020 às 15:13

Assim o tenciono fazer, pois fiquei com curiosidade...

Miguel Nunes
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De Anónimo a 30.06.2020 às 16:50

Se Saramago mandasse, "metade" dos livros da Bibliotecas Municipais teriam sido queimados ou impedidos da população os ler.


lucklucky, o kulak
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De Anónimo a 30.06.2020 às 21:07

Tu é que andas todo apanhadinho da cabecinha....

Metade dos livros!!!
O Saramago era um homem de trabalho, não deixava a coisa por metade.

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De Anónimo a 30.06.2020 às 23:58

Nas máximas de Saramago estão aquelas:
- No Ensaio sobre a Cegueira , no recolhimento dos infectados com a cegueira branca foi detectado um cego verdadeiro com um 'está aí um cego que vê'.
- Numa sessão em Espanha, sobre Cristo ter sido concebido pelo divino espírito santo ter respondido 'se assim foi porque aparece com umbigo'
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De Mónica França Fragoso a 05.07.2020 às 13:30

A biblioteca do Palácio Galveias leva-nos para um mundo mágico.
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De Pedro Correia a 05.07.2020 às 20:31

Concordo, Mónica.
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De Orlando Teixeira a 17.07.2020 às 14:18

Não, não sou admirador de José Saramago. Nem dos seus premiados livros, que segundo ele foram escritos para serem lidos no wc, sem pontuação, numa escrita confusa, sem pausas, sem alterações de estados de espírito, sem definição. Claro que também não sou admirador da sua faceta de censor e saneador, quando assumiu o cargo no DN e saneou Jornalistas que mereciam respeito por o serem. O que releva neste post é a prova de que afinal, num País que promove licenciados, sem qualquer ligação aos empregos e profissões, só por terem uma licenciatura, como se isso significasse que são donos do conhecimento e seres mais capazes que aqueles que não têm licenciatura alguma, afinal alguém que não obteve mais do que o curso de serralheiro mecânico (creio que correspondente ao antigo 5.º ano do Liceu e ao Curso Industrial e Comercial, pode ser dono do conhecimento, tão grande ou maior que qualquer licenciado, e até ser Prémio Nobel. Assim como uma pessoa se mede pelo dinheiro que tem nos bolsos, também não se mede por ter ou não, uma licenciatura. Quantos valores técnicos e humanos andamos a desperdiçar com esta provinciana forma de avaliar profissionais? Talvez valesse a pena meditar nisto.

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