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Delito de Opinião

Uma leira de feijão

Paulo Sousa, 16.05.24

Passei o inverno com a intenção de amanhar o bocado de quintal que não está por conta das ovelhas.

No início de Abril, logo no início do quarto minguante, plantei meio cento de cebolo que comprei no mercado de Porto de Mós. Para isso usei um canteiro murado com um par de metros quadrados e com terra de boa qualidade. O cebolo demorou um bocado a pegar. As ervas daninhas, a junça e a erva-pinheira, foram as primeiras a dar sinal de vida. Noutros tempos, logo quando o cebolo pegava, aplicava-se uma monda química. A mais eficaz tinha como substância activa a Atrazina, mas também se recorria aos produtos à base de Linurão. Esses venenos estão agora todos banidos da UE e são apenas permitidos nos países que fornecem regularmente os nossos mercados com toda a variedade de legumes. Como se diz habitualmente, olhos que não vêem, coração que não sofre. Ao fim e ao cabo, é uma forma de combater a emigração ilegal. Os agricultores marroquinos, por poderem recorrer a estas ferramentas vedadas ao agricultores europeus, lá vão governando a vida e assim são menos uns quantos a tentarem passar o Mediterrâneo. Os gregos queixam-se do mesmo, mas em relação aos egípcios.

Não se faz nada na cozinha sem gastar cebolas e por isso meio cento de cebolo gasta-se rapidamente. Se ambicionasse ser autossuficiente neste bolbo, não podia estar a esta hora aqui a esgadanhar o teclado. De maneira a conseguir uma produção sem recurso a fitofármacos, dei por mim com umas joelheiras e umas luvas das obras a arrancar as já referidas infestantes. Estas duas variedades de plantas mal vindas só são devidamente retiradas se a sua raiz sair por completo, o que obriga a arrancá-las agarrando-as dois ou três centímetros abaixo da linha do solo. Só mesmo com luvas se consegue evitar ficar com umas unhas como as da águia Vitória. É um trabalho moroso, de baixo-valor acrescentado e que deixa as cruzes todas doridas.

Duas ou três semanas mais tarde, plantei oito tomateiros da variedade chucha. O tempo ainda estava incerto e por isso cortei o fundo a uns garrafões de água, coloquei-os sobre as plantas, e assim funcionam como uma mini estufa. Também já pegaram e já quase não cabem dentro dos garrafões.

Tendo assim a terra de canteiro toda ocupada, pensei ainda em cavar um outro pedaço ali ao lado. Esta terra é de pior qualidade. Na construção da casa, a máquina de rastos que abriu os alicerces misturou a terra castanha que estava há séculos à superfície com umas leivas de saibro que puxou de vários metros de profundidade. Em resultado disto arranjei uma excelente desculpa para passar mais tempo ao computador. Aquilo é coisa para partir enxadas. A única hipótese de ali fazer alguma coisa é imediatamente após as chuvas, quando a terra ainda não empederniu.

Poderia pedir a um vizinho que tenha um tractor que por ali passasse com a sua frese, mas seria só perder tempo. Ninguém aceita deslocar uma máquina para mexer meia dúzia de palmos de terra. Até que depois, para aproveitar a deslocação, teria de lavrar tudo e a minha vontade não era assim tanta. Temos um político que se arrepia só de ouvir falar em reformas e, da mesma forma, eu arrepio-me de me imaginar a ter de amanhar a parcela toda. É um esforço que me ataca o lombo e que me faz sair da cama a praguejar. Por isso decidi cavar apenas duas carreiras suficientes para semear uma carteira de feijão anão. E não é anão por fazer touradas acrobáticas, mas apenas porque dispensa a mui trabalhosa estrutura de canas. Cresce a não mais de meio metro de altura e é por isso muito mais à medida de quem, como eu, não está absolutamente empenhado.

Para remexer mais profundamente a terra, tenho, de herança, uma enxada de meia-lua com palmo e meio de comprimento. Aquilo é coisa para, numa inspecção do Ministério do Trabalho, ser apreendida e ficar selada à guarda do tribunal. É certo que, quando desce para a terra, adquire uma aceleração capaz de transformar pedra em torrões, mas o desafio é levanta-la acima da cabeça, como se impõe, até por homenagem ao cavador que a estreou. Tive a sorte de não terem passado dez minutos sem que o cabo se partisse. Este é um tipo de contrariedade capaz de arrancar um largo sorriso a alguém em sofrimento. Era uma bela deixa para adiar o serviço, ou para ir à procura de um tractor. Nessa altura lembrei-me das notícias e achei que insistir no tractor, uma aparente solução que só serviria para adiar o assunto, seria comparável a um governante que, por não querer fazer ou não querer decidir, criava uma comissão técnica independente. Eu poderia telefonar para o Zé Chícharo, ou para o Tó Galo e encomendava-lhe o serviço. Um não atendia o telefone e o outro tinha a máquina a mudar filtros, que já os conheço. Então semeias os feijões ou não? Estou à espera que venha cá um tractor que lavra aquilo tudo e depois até milho semeio. E nisto passava o quarto crescente.

O respeito próprio que, mesmo à rasca dos rins, vou insistindo em manter, fez-me lembrar da manobra da comissão técnica independente e, por isso, logo tratei de substituir o cabo da mórbida filha da mãe. Se alguma vez quem quis adiar uma decisão soubesse que o brilharete ia ser feito pelo seu adversário, certamente que tinha feito como eu e tinha agarrado no assunto para o resolver.

E foi assim que, ontem à tarde, aproveitando a folga da escola, semeei a tal carteira de feijão anão com a minha filha. Ficou a saber o que já ouvi aos antigos. Antes da sementeira do feijão, rega-se a terra com abundância e só depois é que se colocam as sementes. Pouco fundas, "o feijão tem de ficar a ver o semeador a ir-se embora" e não se volta a regar até a planta aparecer. Fica três dias no choco, como naquelas experiências que se faz na escola dentro de um copo com água, e uns dias depois irá aparecer cá fora.

Ao fim do serão, antes de ela ir para a cama, irrompeu uma chuvada. Ai que o feijão se estraga com esta água toda! Então em vez de estares agarrada ao telefone, estás com essas preocupações de lavrador, hein! Logo eu fui trocar o cabo à enxada!

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