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Dupla injúria

por Pedro Correia, em 20.07.15

Um ano depois da  obscena luz verde concedida à admissão da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o país gerido com punho de ferro pelo ditador Teodoro Obiang continua a ser uma das mais ferozes tiranias do planeta. Com todo os opositores encarcerados ou exilados, os partidos políticos ilegalizados, a liberdade de imprensa estrangulada, o poder judicial transformado em mero braço das decisões soberanas do Presidente da República e um sem-número de "execuções extrajudiciais" nos hospitais e nas prisões denunciadas pelas associações de direitos humanos.

Continua a ser um país onde vigora a pena de morte, contrariando todas as promessas do ditador (mas quem pode confiar numa palavra de Obiang?). E continua a ser também um país onde ninguém fala português: no último ano, como hoje escreve a jornalista Ana Dias Cordeiro no Público, apenas houve um curso intensivo do nosso idioma, "durante três meses, dado a sete funcionários públicos" daquele país.

A simples ideia de conceber a Guiné Equatorial como país "parceiro" do nosso parece-me uma dupla injúria - aos direitos humanos e à língua de Camões e de Sophia. Infelizmente é um "facto incontornável", como se diz hoje em dia no jargão político cá do burgo.

Algo que me envergonha como português.


39 comentários

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De sampy a 21.07.2015 às 23:20

Plenamente de acordo.

Algumas achegas:
- "Existe um pré-conceito dos Guineenses muito anti-europeu, que resulta da administração e ingerência de Espanha." A que se soma o ressabiamento gaulês por Obiang resistir continuadamente à assimilação francófona. Mais a dor de corno da esquerdalhada europeia por a bandeira guineense não ostentar a foice e o martelo.
- "Existe uma grande proximidade a São Tomé e também uma crescente proximidade de interação com Cabo Verde." Para países ilhéus, é essencial contar com uma base continental. A opção pela Guiné não é apenas geográfica; a verdade é que, como foi referido, o regime ditatorial originou uma estabilidade política e de segurança que, em África, é de um valor precioso.

E há ainda a questão do petróleo e das potencialidades de uma aliança entre a Guiné, Angola, Brasil e Timor. A guerra no sector intensifica-se de dia para dia. O que estão a fazer à Petrobras não é de forma nenhuma inocente (mesmo que se tenha de reconhecer que os seus responsáveis se deixaram apanhar com as calças na mão).
Sem falar do avanço do islamismo e da ameaça terrorista, que torna urgente os que ainda resistem tratarem de se aliar e se proteger mutuamente (e podemos dar já Bissau por perdida)...
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De Pedro Correia a 22.07.2015 às 15:45

O petrol justifica o portuñol. Fica tudo dito.
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De sampy a 22.07.2015 às 20:32

O maldito petrol paga os salários dos milhares de trabalhadores lusófonos actualmente radicados na Guiné Equatorial.
E, estou em crer, qualquer um deles faz mais diariamente pela expansão da língua portuguesa que 1000 posts do avergonzado Pedro Correia.
Tenho dito.
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De Pedro Correia a 27.07.2015 às 12:32

Olhe que não, olhe que não. Tal como o dinheiro não tem cheiro, como ensinou o imperador Vespasiano, o petróleo pode ter aroma mas não tem idioma.

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