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Dupla injúria

por Pedro Correia, em 20.07.15

Um ano depois da  obscena luz verde concedida à admissão da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o país gerido com punho de ferro pelo ditador Teodoro Obiang continua a ser uma das mais ferozes tiranias do planeta. Com todo os opositores encarcerados ou exilados, os partidos políticos ilegalizados, a liberdade de imprensa estrangulada, o poder judicial transformado em mero braço das decisões soberanas do Presidente da República e um sem-número de "execuções extrajudiciais" nos hospitais e nas prisões denunciadas pelas associações de direitos humanos.

Continua a ser um país onde vigora a pena de morte, contrariando todas as promessas do ditador (mas quem pode confiar numa palavra de Obiang?). E continua a ser também um país onde ninguém fala português: no último ano, como hoje escreve a jornalista Ana Dias Cordeiro no Público, apenas houve um curso intensivo do nosso idioma, "durante três meses, dado a sete funcionários públicos" daquele país.

A simples ideia de conceber a Guiné Equatorial como país "parceiro" do nosso parece-me uma dupla injúria - aos direitos humanos e à língua de Camões e de Sophia. Infelizmente é um "facto incontornável", como se diz hoje em dia no jargão político cá do burgo.

Algo que me envergonha como português.

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2 comentários

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De cuco a 21.07.2015 às 18:41

Eu pergunto-me se os vários comentadores têm algum conhecimento in loco da Guiné Equatorial?
Já porventura estiveram até em outros países Africanos, sei lá: Angola, Senegal, Cabo Verde, Togo, Gana, Tanzania,... já estiveram no Brasil??
É que a opinião formada, somente com base em opiniões publicadas (na leitura de blogs, livros, televisão, etc) é muitas vezes errada. Não desvalorizando a opinião publicada é bom ter experiência real e práctica.
Meus caros, com algumas poucas excepções, África não está preparada para a democracia, que só "funciona" para níveis superiores de educação.
O regime que funciona é a ditadura e por vezes tem de ser musculada. Perguntem aos cidadaos Libios e aos Iraquianos se é melhor o presente ou a época das respectivas ditaduras!
A Guiné Equatorial é dos poucos países Africanos onde se caminha tranquilamente nas ruas sem medo.
Na ilha do Bioko, onde fica a capital Malabo, nunca passei numa estrada de terra batida nem de empedrado... Não vi pessoas a passar necessidade como se vê em grande parte dos países de África nem os bairros de lata tipo musseque.
A nivel de infra-estruturas experimentei rede eléctrica e de distribuição de água a funcionar. Sabem qual é o standard emÀfrica!!??
Existe uma institucionalizada cultura do líder é facto. Também acredito que quem disser mal do líder pode sofrer graves consequências.
Mas eu pergunto: quem é mais livre?
-Aqueles que podem circular livremente e em segurança mas que não podem dizer certas coisas,
- ou aqueles que podem dizer tudo, mas fechadinhos nas suas casas ou nos seus circuitos de conforto, sem poderem por um pé num local um bocado desconhecido, em que o medo da bandidagem é uma sombra constante?
Quanto a pertencer à CPLP, acho muito bem. Existe uma grande proximidade a São Tomé e também uma crescente proximidade de interação com Cabo Verde.
A CPLP beneficia com a integração da Guiné Equatorial no grupo e pode assumir um papel de aculturação da Guiné Equatorial.
Entre a CPLP, está-se numa fase muito avançada de relacionamento entre 3 continentes e Portugal é até (como o país Europeu do grupo) o que mais pode beneficiar.
Existe um pré-conceito dos Guineenses muito anti-europeu, que resulta da administração e ingerência de Espanha. Portugal pode mostrar que é diferente, que funciona num comunidade de países Africanos, Europeu e Sul-Americano, numa lógica de igualdade e respeito (e valorização) das diferenças, como "pessoa de bem".
Como país pequeno que somos, a nossa única força é a rectidão de conceitos e valores e a lisura de procedimentos. Esta postura granjeia, a seu termo, retorno:
- negócios
- aculturação
- referência para a organização social

A Guiné Equatorial é uma oportunidade, levada por bem.

Digam-me lá que efeito teria um boicote de um país com quem temos zero transações?


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De sampy a 21.07.2015 às 23:20

Plenamente de acordo.

Algumas achegas:
- "Existe um pré-conceito dos Guineenses muito anti-europeu, que resulta da administração e ingerência de Espanha." A que se soma o ressabiamento gaulês por Obiang resistir continuadamente à assimilação francófona. Mais a dor de corno da esquerdalhada europeia por a bandeira guineense não ostentar a foice e o martelo.
- "Existe uma grande proximidade a São Tomé e também uma crescente proximidade de interação com Cabo Verde." Para países ilhéus, é essencial contar com uma base continental. A opção pela Guiné não é apenas geográfica; a verdade é que, como foi referido, o regime ditatorial originou uma estabilidade política e de segurança que, em África, é de um valor precioso.

E há ainda a questão do petróleo e das potencialidades de uma aliança entre a Guiné, Angola, Brasil e Timor. A guerra no sector intensifica-se de dia para dia. O que estão a fazer à Petrobras não é de forma nenhuma inocente (mesmo que se tenha de reconhecer que os seus responsáveis se deixaram apanhar com as calças na mão).
Sem falar do avanço do islamismo e da ameaça terrorista, que torna urgente os que ainda resistem tratarem de se aliar e se proteger mutuamente (e podemos dar já Bissau por perdida)...

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