Uma garrafa vazia, cheia de memórias

“- Ó Avó! Porque é que tens garrafas vazias na estante dos livros?” Não são garrafas vazias, são recipientes cheios de memórias e recordações felizes e divertidas."
“-E são recipientes de quê?” São antigas garrafas de Pepsi, que nós trouxemos de Moscovo há mais de quarenta anos".
“-Mas não dizem Pepsi; apenas têm um E, um N ao contrário e uns símbolos estranhos." São letras do alfabeto cirilico – que estão para os russos como o abecedário está para nós - e essas letras querem dizer exactamente Pepsi."
“-E sabia a quê, a Pepsi na Rússia?” Sabia a Pepsi. E soube pela vida no dia em que lá chegamos. Como chegámos duas horas atrasados ao hotel, já não havia jantar. Só vodka, Pepsi e bolachas rançosas no bar. Teve de servir e matou a fome que era muita."
“- A Rússia é horrível, avó? "Quem te disse isso? Estive lá há muito tempo, mas gostei muito de ver o que nos mostraram. Já deve ter mudado bastante desde esse tempo, ou então não. Já nessa altura era tudo fachada."
“- O que é que quer dizer tudo fachada? "Quer dizer que por detrás de todo o esplendor que nos mostravam, existia uma ruína presa por arames. “ – Não entendi. "Deixa lá ver se te sei explicar… o hotel, as estações de metro, as cadeiras da Ópera, os supermercados com grandes letreiros luminosos, mas vazios no interior, até os candeeiros da rua, por exemplo, parecem imponentes e majestosos se apenas olhares sem ver com atenção. Um segundo olhar, mais acurado, mostrava falhas na construção, na estruturação, na reparação, na restauração… e interiores tristes, apagados, muitos vazios e envelhecidos. Mas isto foi há quarenta e quatro anos. Agora deve ser extraordinário viver num país rejuvenescido, livre, esclarecido e sempre na vanguarda do desenvolvimento."
"- Gostavas de lá voltar? "Gostava sim, mas tenho um dedinho que me diz que iria ficar muitíssimo desapontada."

