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Uma fenda na muralha

por Pedro Correia, em 11.12.19

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Há trabalhos académicos a que falta a fluidez e a capacidade narrativa do bom jornalismo. E há textos jornalísticos a que falta o rigor e o aprofundamento temático que costumamos associar à investigação académica. O ideal é que rigor e fluidez de escrita surjam em simultâneo, embora isto suceda muito menos vezes do que se imagina.

Joana Reis, jornalista de política da TVI e doutorada em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica, supera este duplo desafio com assinalável sucesso num ensaio sobre a figura de Humberto Delgado centrado na campanha presidencial de 1958 sob o título Uma Campanha Americana. Arguta definição de um momento irrepetível na política portuguesa, quando a aparente solidez do salazarismo foi abalada até aos alicerces por uma figura que servira o regime nas três décadas anteriores.

Humberto Delgado fora um dos tenentes do 28 de Maio, pioneiro da Força Aérea portuguesa, o mais jovem general do seu tempo e um salazarista devoto. O fundador do Estado Novo confiou-lhe missões importantes e delicadas, como a negociação com Londres para a cedência da pista das Lajes, nos Açores, às forças aliadas em plena guerra mundial e a criação da TAP no ano em que o conflito bélico terminou. A troca de correspondência entre ambos revela uma relação próxima e até de relativa cumplicidade ao longo dos anos, com Salazar no papel de confidente das frequentes queixas do irrequieto oficial-general, em tudo oposto à deliberada placidez do ditador.

Por interesse próprio ou conveniência política, Salazar manteve Delgado longe do País durante os decisivos anos do pós-guerra. Primeiro no Canadá, onde representou Portugal na Organização da Aviação Civil Internacional, depois nos Estados Unidos, onde exerceu funções de adido militar e aeronáutico na nossa embaixada em Washington, membro do Comité de Representantes da NATO e chefe da missão militar nacional junto da Aliança Atlântica. Nessa década que decorreu entre 1947 e 1957, o antigo comissário-adjunto da Mocidade Portuguesa e ex-adjunto militar do Comando Geral da Legião Portuguesa alargou os horizontes políticos e converteu-se à democracia liberal. Esta metamorfose teria tradução prática no inesperado anúncio da sua candidatura à Presidência da República, em Abril de 1958 – a maior fenda jamais registada na muralha salazarista, que não voltou a ser a mesma.

 

28 dias na estrada

 

Joana Reis fez uma meticulosa investigação para sustentar a tese da “campanha americana” que dá título à obra. E fundamenta-a após ter passado em revista os discursos, as palestras e os apontamentos do general, as listas dos seus apoiantes em todas as regiões do País e até nas então chamadas províncias ultramarinas. Correspondência, relatórios, panfletos, artigos e recortes da imprensa portuguesa e estrangeira forneceram também base documental ao livro.

Salazar viria a chamar «génio da agitação» a Delgado, que virou o País do avesso nos 28 dias em que andou na estrada, ganhando o cognome de “General sem medo”. Nada comparável às anteriores campanhas da oposição, protagonizadas por vetustos militares que acabavam por desistir antes do escrutínio, alegando falta de condições políticas para chegar às urnas.

Uma Campanha Americana descreve em pormenor o contexto nacional e internacional da época, as complexas negociações de bastidores nas fileiras da oposição até o nome de Delgado se tornar consensual e a determinação do candidato para superar as infindáveis barreiras impostas pelo regime, incluindo a detenção de vários dos seus apoiantes às ordens da polícia política e a proibição do registo das acções de campanha na Emissora Nacional e na RTP. Ao ponto de não haver arquivos sonoros dos comícios captados por microfones jornalísticos e a única imagem televisiva do general, sem som, ser a do próprio momento em que votou, a 8 de Junho de 1958.

 

Campanha «de ar livre»

 

Mesmo com todas estas restrições, ele soube fazer a diferença. Enquanto o candidato oficial do regime, Américo Thomaz, se confinava a três sessões de esclarecimento à porta fechada no decurso da campanha, em Lisboa, Porto e Coimbra, Delgado percorria cidades em automóvel aberto ou de comboio, com paragens em diversas estações onde falava de modo espontâneo a quem acorria ao seu encontro.

Foi «uma campanha de ar livre, de estilo quase incendiário», como anota a autora, remetendo o leitor para a fonte de inspiração: as presidenciais norte-americanas de 1952 e 1956, protagonizadas com êxito pelo candidato republicano, Dwight Eisenhower – ele próprio um general. Delgado acompanhou estes processos eleitorais, enquanto residente nos Estados Unidos: foram momentos fundacionais do marketing político moderno, onde não faltavam banhos de multidão concebidos para a propaganda em cartazes, fotografias, filmes e programas televisivos.

Isto aconteceu então à modesta escala portuguesa. E a originalidade do livro – que tem por base a tese de doutoramento da autora, em 2018 – é detalhar a paradoxal influência americana num movimento em que socialistas e até comunistas ocupavam lugares de destaque. Estes últimos, cumpre sublinhar, só após ultrapassarem a aversão inicial que lhes merecia alguém a quem chegaram a chamar “General Coca Cola”.

 

Figuras tão diferentes como o jornalista Raul Rêgo, o escritor Manuel Mendes e a locutora da RTP Maria Armanda Falcão (mais tarde muito conhecida pelo pseudónimo Vera Lagoa) ocuparam postos destacados nesta campanha, inédita a vários títulos: foi a primeira em Portugal a incluir serviços de imprensa com ligação permanente aos jornais, a produzir comunicados a um ritmo diário e a contar com especialistas em escrever discursos, a que Delgado punha depois o seu cunho muito pessoal. Teve ainda sedes localizadas em locais estratégicos das maiores cidades (a de Lisboa estava a meio da Avenida da Liberdade, com um enorme retrato do general na fachada), edição de bilhetes-postais propagandísticos e pagamento de tempos de antena no Rádio Clube Português – neste caso de curta duração, devido às pressões políticas. Além de popularizar slogans de campanha, como «O medo acabou».

Tudo isto alicerçado em acções de angariação de fundos que já prenunciavam os movimentos actuais de crowdfunding para financiar movimentos sociais e políticos. Apesar de o candidato contar com donativos de conhecidos empresários e personalidades ligadas à banca, como Tomé Feteira, de Vieira de Leiria, e Cupertino de Miranda, de Famalicão.

«Para fazer as refeições ou pernoitar, Delgado escolhe ficar no melhor e mais conhecido hotel da região, o que indicia que se está perante um candidato de prestígio. (…) O facto de aparecer nas localidades num carro aberto, descapotável, a acenar à multidão, é também uma imagem recorrente nos líderes do século XX», anota a jornalista. Em certas cidades e vilas, esta imagem foi tão marcante que décadas depois o rasto da sua passagem ainda por lá perdurava na memória colectiva.

 

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Humberto Delgado votando em 1958: único momento que a RTP documentou

 

No seu estilo impetuoso e teatral, Delgado jogava aqui a cartada de uma vida, surdo aos apelos à precaução. Em seu redor não faltava quem o aconselhasse a «manter um tom cauteloso e não radicalizar o discurso»: ele procedeu ao contrário, como ficou visível na conferencia de imprensa – também à americana – no café Chave d’ Ouro, a 10 de Maio, perante um batalhão de repórteres portugueses e correspondentes estrangeiros. Quando apontou, alto e bom som, a porta de saída a Salazar: se fosse eleito, «obviamente», iria demiti-lo.

Nada voltaria a ser o mesmo na vida deste homem tocado pela tragédia. De tudo isto nos fala também Joana Reis ao conduzir-nos estrada fora pela campanha que electrizou um país atónito. Contra ventos e marés – desde a oposição deliberada de governadores civis em ceder espaços para as concentrações políticas até à impossibilidade de fiscalizar cadernos eleitorais na maioria das mesas de voto. Onde o braço do regime afrouxou, os resultados reais vieram à tona: foi o caso do distrito de Santarém, onde Delgado obteve a melhor média percentual a nível nacional e até a vitória em vários concelhos (Alcanena, Almeirim, Alpiarça, Cartaxo, Rio Maior e a sede do distrito). Bastou o governador civil, engenheiro Castro Reis, ter cumprido o dever de isenção que a consciência lhe ditou, em raro exemplo de cidadania.

 

Como salienta a autora, num registo que permanece imune à tentação de proselitismo político ou ideológico, «não é possível determinar com exactidão os resultados oficiais das eleições presidenciais, dada a amplitude da fraude», iniciada no próprio recenseamento eleitoral. Mesmo assim, os números oficiais atribuíram a Delgado quase 25% neste escrutínio. No ano seguinte, com uma revisão constitucional de emergência, Salazar punha fim às eleições presidenciais por sufrágio directo. Já Delgado se exilara no Brasil.

«Eu ando sempre num carro descoberto, a mostrar-me. Não tenho medo de ser assassinado», declarou o general em entrevista ao Daily Mail publicada no auge da campanha, a 3 de Junho de 1958. Havia algo de premonitório nestas palavras de aparente desassombro. Como se adivinhasse que tombaria vítima de uma cilada cobarde, longe da multidão que o vitoriara nas ruas, menos de sete anos depois.

 

............................................................... 
 
Uma Campanha Americana, de Joana Reis (Tinta da China, 2019). 310 páginas.
Classificação: ****


15 comentários

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De Luís Lavoura a 11.12.2019 às 15:33

jornalista de política da TVI e doutorada em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica

É bom ver que, neste país de licenciados que exigem ser tratados por "dr", há cada vez mais doutores a sério. E é bom ver que cada vez mais doutores a sério conseguem ter emprego.
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De Anónimo a 11.12.2019 às 22:22

«Não é possível determinar com exactidão os resultados oficiais das eleições presidenciais, dada a amplitude da fraude»
Se assim foi, vitória ou derrota, são ambas hipóteses em aberto. A verdade é que não sabemos. Ao contrário do que pretende insinuar a «amplitude» da «fraude».
Ou a insinuação de que «Salazar manteve Delgado longe do País» quando tudo o recomendava para a O.A.C.I. (ou I.C.A.O., como agora se diz) ou para a O.T.A.N. (ou N.A.T.O, como, enfim…)
Foi da América que Delgado veio transtornado. Perdeu-se por lá. Uma tese a valer havia dizer porquê: se foi por se perder nas saias de mulheres de oficiais da O.T.A.N., se por se ter achado perdido nalguma loja, ou se foi tudo junto. Assumi-lo como herói dos belos ideais da «libardade» (o termo é dele, usa-o amiúde para ferrar Cunha Leal e os reviralhistas na «Pulhice do ‘Homo Sapiens’) é pouco mais do o que se faz, sem pensar, com os afrancesados resultantes das invasões napoleónicas. Eis como tudo parece andar ligado: ironia da pulhice a cavalo de grandes ideais, de loja, mascarando a vulgaríssima e eterna luta pelo Poder.
E megalomania.
Depois Delgado era truculento; o ambiente em seu redor era sempre crispado. Isto é relatado por quem lidou directamente com ele. Uma figura ideal (ou o idiota útil) para a agitação. Sem génio. A adjectivação foi a ironia de Salazar.
Só pode.
A tamanha personagem o destino não foi adverso. Foi-lhe fiel.

Cumpts.
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De Bic Laranja a 12.12.2019 às 20:01

Saiu-me sem assintaura.
Cumpts.
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De Anónimo a 13.12.2019 às 23:50

Continua anónimo
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De Makiavel a 13.12.2019 às 13:07

Nada mais demonstrativo da pulhice do Homo Sapiens que este comentário.
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De Anónimo a 13.12.2019 às 21:13

O mesmo destoutro.
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De Anónimo a 13.12.2019 às 21:15

Caso fosse dum homo sapiens.
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De s o s a 13.12.2019 às 23:10

acho que já aqui o referi em outra ocasiao : a fotografia da multidao no comicio do Delgado no Porto, impressiona.

Temos que ter presente que os tempos eram outros, nao havia liberdade e que o regime e portanto a imprensa nao publicitavam o Delgado. Mesmo assim, aquela multidao.

Apesar da censura e repressao de decadas, nessa longa "noite" tanta gente arriscou.

Li este post imediatamente a seguir a ler o extenso artigo na visao sobre a rede bombista de 1975-1976.~

De modo que ja nao sei se este livro aqui referido, sobre o Delgado, tambem reune as campanhas de Salazar contra o Delgado, as fake news, como agora se diz.
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De O SÁTIRO a 13.12.2019 às 23:55

Se estava uma multidão no Porto é pq havia liberdade para isso..

Ou todos na multidão foram presos e mortos....tipo Fidel...ou Kim....? ?
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De O SÁTIRO a 13.12.2019 às 23:21

Sim foi uma campanha sem ideias...sem projetos...sem garantia de futuro..

Aliás nao se conhece pensamento político de H. Delgado....

Seria bom que a autora procurasse saber a opinião de Vera Lagoa sobre Delgado.....depois de ela ter abandonado a oposição ou seja falar sem MEDO.

Nos muitos textos que ela escreveu...com certeza é possível encontrar algo muito relevante......


Uma coisa é certa.

Nas ditaduras a sério..H.Delgado teria tido um "acidente" durante a campanha...


Sobre ter abalado os alicerces fo regime, discordo em absoluto.
Os anos 1960 foram de crescimento fenomenal do PIB.(perto de 10%.)...havia no exterior quem falasse em milagre económico português, aguentou se a guerra colonial...entramos na EFTA...grandes construções (hospital Sta Maria...S.João Porto..liceus...barragens...).

Sem a queda da cadeira e a ingenuidade política enorme de M Caetano ( o decreto sobre os oficiais que provocou o 25 de abril é prova disso...)..o regime teria evoluído sem convulsões roubos destruição de boas empresas...para uma democracia como se fez em Espanha...
Com as vantagens que se sabem..
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De Anónimo a 14.12.2019 às 02:01

E quando é acabava a guerra nas colónias ou províncias ultramarinas a partir de quando deu jeito ?
Ah! também ia acabar a guerra com a formação de novos brasis (sem índios) com os nossos portugueses de 1ª. a serem presidentes e ministros?
Mas nada de comunistas, como em Espanha, nem sequer abrir as portas de Peniche ou Caxias.
E a PIDE, a Legião (contra os comunistas) e a MP continuavam?
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De Bic Laranja a 14.12.2019 às 09:29

Correção: no Ultramar.
Acabava quando alguém desistisse, que foi como acabou. Pena ter sido com um exército fujão e não com terroristas fujões, que era o que mais se via em Angola desde 72.

Agora queremos é novos brasis na metrópole, especialmente com... refugiados ultramarinos. E vimos conseguindo. Desde 74.
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De Anónimo a 14.12.2019 às 14:10

Do Ultramar.
Os amaricanos e os russos é que queriam os nosso Ultramar pra eles. Como fizeram na Conferência de Berlim os alemães, ingleses e franceses.
Todos os pretinhos queriam continuar a ser portugueses, mesmo de 2ª., e continuarem a pertencer à civilização cristã e ocidental.
Agora temos que ter esperança, já não há muita gente prá tropa, que os pretinhos nos venham pedir ajuda contra os cheneses.
Assim é que se faz a história dos povos, ainda há romanos e berberes a protestarem contra os viriatos e os afonsinhos.
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De Anónimo a 14.12.2019 às 14:23

Pois, era mais um ou dois aninhos estava o assunto resolvido.
Ene, ena !!!! Já pode falar bicamente à vontade que ninguém o leva preso.
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De Anónimo a 13.12.2019 às 23:44

Mais outro escrito para dizer mal do homem simples, pobre e solteiro (preferiu casar com a Pátria, que nem o Marco Paulo com a música) que nos salvou da guerra (sabe-se lá por quem alinhar), da fome (também não podia ser tudo) e principalmente do comunismo em cada esquina.

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