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Uma estátua para D. João II

por Pedro Correia, em 18.06.19

Retrato-de-Dom-João-II_pormenor (1).jpg

D. João II (retrato do século XVI)

 

Quase todas as grandes cidades portuguesas têm estátuas de figuras ilustres da nossa História. Incluindo, naturalmente, dos monarcas que contribuíram para fundar e robustecer este Estado-Nação, um dos mais antigos do mundo com as suas actuais fronteiras, definidas no rectângulo continental desde 1249, com a conquista do Algarve, e na sua globalidade desde o século XV, com a descoberta e povoamento das ilhas atlânticas.

São conhecidas da generalidade dos portugueses estátuas tão majestosas e emblemáticas como a de D. José implantada em 1775 no Terreiro do Paço, ou a de D. Pedro IV, descerrada em 1866 no coração da Baixa portuense. Sem esquecer a do nosso monarca fundador, D. Afonso Henriques, que se ergue junto ao castelo de Guimarães. Ou a moderna evocação de D. Sebastião, no centro de Lagos.

Várias outras cidades ou vilas têm estátuas de reis que de algum modo lhes estiveram ligados por acontecimentos diversos - ou por lá terem nascido, ou por lhes terem atribuído carta de foral ou ali feito uma inauguração de vulto, ou porque as tomaram aos mouros, alargando o perímetro das fronteiras portuguesas. Acontece, por exemplo, na Guarda (D. Sancho I), em Silves (D. Sancho II), Faro (D. Afonso III), Leiria (D. Dinis), Cascais (D. Pedro I), Lisboa (D. João I), Alcochete (D. Manuel I), Coimbra (D. João III), Vila Viçosa (D. João IV), Mafra (D. João V), Queluz (D. Maria I), Castelo de Vide (D. Pedro V) ou Cascais (D. Carlos). Com maior ou menor mérito, todos são ostensivamente recordados em mármore ou bronze.

Há, no entanto, uma evidente lacuna neste vasto conjunto de estátuas régias distribuídas de norte a sul do País. Refiro-me a D. João II, que passou à História com o cognome de Príncipe Perfeito. Reinou durante 14 anos, entre 1481 e 1495, embora tenha assumido a governação do Estado desde 1477, por abdicação efectiva de seu pai, Afonso V. Foi sob o seu comando que Portugal deu um impulso decisivo à epopeia das navegações, assumindo-se como precursor da globalização em vários marcos: chegada de Diogo Cão às costas de Angola e da Namíbia; início da colonização de São Tomé e Príncipe; envio de Pero da Covilhã por terra à Etiópia, Cairo, Adém, Ormuz e Goa; passagem do cabo da Boa Esperança, assim baptizado por Bartolomeu Dias; assinatura do Tratado de Tordesilhas com os reis de Espanha; preparação da armada de Vasco da Gama que inauguraria o caminho marítimo para a Índia.  

D. João II é o único dos nossos grandes reis ainda sem estátua numa cidade portuguesa. Em 1998, numa rotunda do que hoje se chama Parque das Nações, foi inaugurada uma peça em bronze supostamente em sua homenagem: é um bloco abstracto, que em nada alude ao Príncipe Perfeito. Fica o desafio aos decisores políticos, a nível nacional, regional ou autárquico: pôr fim a esta chocante omissão erguendo um monumento a D. João II realmente digno desse nome. Em 2020 assinala-se o 525.º aniversário da morte do monarca: é um ano apropriado para tal fim.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

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50 comentários

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De Anónimo a 18.06.2019 às 11:54

Bom dia Pedro Correia
Como leitor do "15" eu já tinha ponderado o assunto que de novo coloca e que, para mim naturalmente, faz todo o sentido.
Aguardemos para confirmar que orelhas moucas andam por aí.
António Cabral
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De Pedro Correia a 19.06.2019 às 00:04

Estamos em sintonia, caro António Cabral, o que muito me apraz.
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De Maria Dulce Fernandes a 18.06.2019 às 12:17

Tem toda a razão, Pedro.
D. João II nunca foi imortalizado em praça pública o que é uma falha enorme.
Felizmente Fernando Pessoa mitigou a falta colossal n' O Mostrengo, que diz muito de nós como povo e de D. João II como rei.
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De Pedro Correia a 19.06.2019 às 00:05

Impressiona perceber como somos incapazes de honrar alguns dos melhores vultos da nossa história, Dulce.
Como se nos envergonhássemos deles.
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De Robinson Kanes a 18.06.2019 às 12:26

Se vem aqui a brigada dos bons costumes... A apologia das Descobertas!
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De Pedro Correia a 19.06.2019 às 00:05

Terei atiçado ainda mais a descobertofobia?
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De Robinson Kanes a 19.06.2019 às 09:09

Espero bem que não... Mas aposto que não discordarão de uma estátua de Maduro mesmo ao lado da de Simón Bolivar...
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De Pedro Correia a 19.06.2019 às 09:37

Essa seria a ideal para lá pousarem todos os pombos de Lisboa.
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De PSC a 18.06.2019 às 12:30

D.João VI (Estátua Equestre) no Porto na Praça Gonçalves Zarco, vulgo Castelo do Queijo!
Essa Memória????!!!!!
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De Pedro Correia a 18.06.2019 às 15:55

Qual memória, meu caro?
Se tem melhor memória que a minha, ofereço-lhe uma francesinha no Galiza ou no Capa Negra.
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/tag/est%C3%A1tuas

Abraço.
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De jpt a 18.06.2019 às 13:58

ora nem mais ...
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De Pedro Correia a 19.06.2019 às 00:06

Indesculpável esquecimento.
Pior: indesculpável incúria. Inaceitável desmemória.
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De Bea a 18.06.2019 às 14:06

assino por baixo.
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De Vorph Valknut a 18.06.2019 às 14:16

Pedro, talvez haja razões históricas para isso. Afinal o "Hombre" dizimou as mais nobres familias portuguesas. Há quem diga que o Principe, de Maquiavel, foi nele inspirado.

"Galinha que canta como galo corta-se-lhe o gargalo."
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De Pedro Correia a 19.06.2019 às 00:08

"Há tempo de coruja e tempo de falcão."
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De Anónimo a 18.06.2019 às 14:41

Uma nota apenas para o que foi a prática política deste Rei e que permitiu que Portugal chega-se onde chegou naquela que poderá ter sido a primeira se da globalização: percursor da centralização do Estado, do que viria a ser o absolutismo, não permitindo à nossa nobreza que limita-se os poderes do Rei e da sua concepção de governação. É aliás a partir desta premissa, uma vez implementada, que D. Manuel leva a bom caminho aquilo a que se chamaram os "descobrimentos portugueses".
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De Corvo a 18.06.2019 às 14:55

Não sabia isso.
Inacreditável e inadmissível que um dos maiores Reis da nossa História passasse assim como um desconhecido para as anteriores e futuras gerações.
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De Pedro Correia a 19.06.2019 às 00:10

Incompreensível, esta incúria. Inaceitável, tamanha desmemória.
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De Anónimo a 18.06.2019 às 15:10

Teve um paquete

https://restosdecoleccao.blogspot.com/2011/09/paquete-principe-perfeito.html

http://www.shipspotting.com/gallery/photo.php?lid=195512

luclucky
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De Corvo a 18.06.2019 às 20:17

É verdade. E uma obra de arte de paquete, para a época.
Ao menos Salazar, o "Demoníaco" Salazar, "A Personificação do Mal" Salazar, honrou esse grande Rei dando-lhe o nome.
Mas, lá está. Para os grandes crânios de agora, Salazar era um burro.
E provavelmente era. Tão burro que morreu na pobreza.
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De Vorph Valknut a 19.06.2019 às 07:56

Quando o país se gere como um mosteiro de Ordem mendicante, pouca diferença há entre aquele e uma cela.

Ambos escuros, ambos sem vista.
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De Vorph Valknut a 19.06.2019 às 08:10

Salazar quis para o país o que queria para ele.
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De Vorph Valknut a 19.06.2019 às 09:34

Corvo, tenha paciência:

Para Salazar a vida era um desgosto, e o futuro, um Fim acabado. E Portugal, com ele, assim viveu. Acabrunhado num acabamento sem fim.
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De Corvo a 19.06.2019 às 19:17

Mas eu não sou saudosista nem defendo Salazar, cuja política senti na pele. Tanto na guerra como depois fora dela.
Faço comparações.
Era um homem ultrapassado no seu tempo que acreditando nos seus ideais não via mais longe.
Limitado de vistas, mas era honesto.
E não! Não tinham o direito de tirar o nome dele à ponte para lhe darem a do 25 de Abril.
A ponte foi Salazar quem a fez, não foi o 25 de Abril.
De uma certa maneira, a tal honestidade que se discute.
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De Vorph Valknut a 19.06.2019 às 22:40

Eu sei, Corvo.
Salazar era inteligentíssimo, contudo um desprezador das cores e dos vivos.

Fernando Rosas tem um livro, cujo título, resume a especialidade de Salazar. Era um Mestre na Arte de Durar.

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