Uma Educação

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"Ninguém fugirá da escola e a olhará como um horror no dia em que a deixemos de conceber como o lugar a que se vai para receber uma lição, para a considerarmos como o ponto de condições óptimas para que uma criança efectivamente dê a sua ajuda a todos os que estão procurando libertar a condição humana do que nela há de primitivo; não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de a passar a cidadão."
Agostinho da Silva, Considerações e outros textos (Assírio & Alvim, 1988).
Os que ainda não (re)começaram a escola estão ao rés disso. Este é um Setembro menos espontâneo, menos lento e menos leve. Há hesitações, receios; há também determinação, muita ânsia de reencontro. Viver meio ano fisicamente distante dessa comunidade - para muitos, a maior constante na primeira fase da vida - foi coisa que até agora, nesta zona do mundo e nas gerações mais recentes, poucos tiveram de suportar. O que não significa que se não tenha aprendido.
Ao longo destes meses, os que decidiram continuar a aprender e a trabalhar com quem aprende aceitaram a empreitada substancial de manter viva uma realidade que não é um conjunto de edifícios, campos e canteiros. Da Primavera ao Verão, dias houve em que foi pesado o esforço de crianças e jovens, famílias, professores e outras entidades no desemaranhar de questões que obstavam à escola: subsistência em contexto de desemprego; reorganização de casa e rotinas de trabalho; adaptação de espaços; investimento em material; assistência à família. Houve maior franqueza sobre o estudar e as suas dificuldades, a pouca literacia, a frágil relação com os livros. E houve cansaço, e tensão, e disrupção, e deslizamento.
Quem participou desta realidade também teve ocasião de observar muitos dos mais novos chamarem a si a responsabilidade de adaptação tecnológica das condições de comunicação com os mais velhos, incluindo pais, avós, professores. Viu direcções, coordenações e autarquias organizarem plataformas de distribuição e estruturas digitais com não muitos recursos. Viu empenho pessoal e cooperação.
Se os meses de Março a Julho tiverem realmente sido uma educação, as gerações que viveram este período talvez não deixem esquecer que, para existir escola, tem de haver uma comunidade educativa em que ninguém é espectador.

