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Um Woody demasiado amargo

por Helena Sacadura Cabral, em 23.12.17

Roda.jpg

Tempos houve em que bastava aparecer o nome de Woody Allen, para eu não descansar enquanto não visse a sua última obra. E, mesmo quando ela era inferior ao que dele esperava, nunca dava o meu tempo por perdido, porque havia sempre qualquer coisa naquele humor acre, que se apoderava de mim e me dava a noção de que não fora em vão a hora que lhe dedicara.

Assim, mal soube que estreara uma nova película, decidi que era mesmo neste tempo tão triste para mim, por evocar a morte da minha mãe, que eu iria vê-lo. Precisava, mesmo, daquela graça subtil, daquele amor ácido pela América que o não compreendia e que ele, afinal, tanto amava.

Todos envelhecemos. Allen não é excepção e as suas ultimas obras já evidenciavam um desgaste nos temas, sempre abordados, das dificuldades do amor. 

Mas umas pessoas envelhecem melhor que outras. Ou fazem-no de uma forma menos triste, acreditando que o futuro, embora mais curto, ainda pode existir. Aliás, só mesmo uma tal crença é que pode levá-lo, com quase oitenta anos, a fazer novos filmes.

Esta Roda Gigante cuja realização e argumento pertencem a Woody, decorre em Nova Iorque, na década de 1950. Num parque de diversões em Coney Island, Ginny é uma ex-actriz que vai fazer quarenta anos, trabalha como empregada de mesa, é casada com o operador do carrossel e começa a sentir a vida passar-lhe ao lado.

Um dia, conhece Mickey, um jovem nadador-salvador que sonha tornar-se escritor, por quem se apaixona perdidamente, mas que terá de disputar com a enteada, quando esta regressa inesperadamente a casa fugida do marido. Ginny entra num turbilhão de ciúmes e acabará a  exceder-se quando percebe a atenção que o jovem amante dedica à filha do marido. 

Entre as duas nasce uma rivalidade que acaba por colocá-las numa situação particularmente delicada. Não há aqui nada de novo. O realizador sempre se ocupou das relações conturbadas que o amor pode corporizar. Mas neste filme o peso da amargura é excessivo porque apenas revela o "lado sem saída" daquilo a que se apelida de amor. E Kate Winslet dá, de facto, de modo notável, a imagem desse sentimento avassalador.

É uma película com um travo demasiado amargo para o meu gosto, que tenho uma idade muito próxima da do realizador. 

Há sempre uma saída. O problema reside no que acontece, quando a não procuramos, e preferimos submergir...

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4 comentários

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De Teresa Ribeiro a 24.12.2017 às 00:31

Estou cheia de curiosidade, a crítica tem comparado este filme ao Match Point, que também sai do registo habitual de Woody e de que gostei muito. Como já estou avisada de que desta vez ele não me vai fazer sorrir da vida, espero não me decepcionar.
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De Vlad, o Emborcador a 24.12.2017 às 00:54

Há sempre uma saída. Numa janela aberta. Numa corda vazia. O mais importante é saber como e quando sair. A morte pode ser um Porto de Honra à vida.
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De Luís Menezes Leitão a 24.12.2017 às 07:20

Confesso que não gostei do filme e acho que está a milhas do Match Point, esse sim um grande filme. Por outro lado, o filme pareceu-me um ajuste de contas pessoal de Woody Allen, sabendo-se que ele também trocou a mulher pela enteada. Não é explorando as dores do ego que se fazem bons filmes.
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De Marina Molares a 24.12.2017 às 19:56

É isso mesmo que acho ,memórias da história entre ele e a Soon-Yi e a Mia.

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