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Um triste adeus ao Sr. Contente

por Pedro Correia, em 14.03.16

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Grande actor – de teatro, cinema e televisão – Nicolau Breyner era uma das raras figuras de indiscutível dimensão nacional: tornou-se popular junto de portugueses das mais diversas gerações. Começou a trabalhar muito cedo, no início da década de 60, e ainda coexistiu nos palcos com gigantes da arte de representar, como António Silva e Ribeirinho. E trabalhou até ao fim, com jovens colegas que tinham idade para serem seus netos.

Artista multifacetado, tão à vontade na comédia como no drama, também evidenciava qualidades humanas que amigos e colegas têm recordado desde que, há um par de horas, soubemos todos da inesperada notícia do seu falecimento. Num meio muito fértil em invejas e rivalidades de todo o tipo, poucos conseguiram ser tão consensuais como ele. Apesar de estar nos antípodas da correcção política e nunca ter escondido as suas convicções – no plano estético, ideológico e até religioso.

 

 

Como tantos de nós, lembro-me dele desde sempre. Na televisão (onde em 1975 fez parar o País com o seu programa Nicolau no País das Maravilhas, em que popularizou o duo “Sr. Feliz e Sr. Contente”, ao lado de um Herman José em início de carreira). Na telenovela (onde foi pioneiro em 1982, como autor e actor, com a sua Vila Faia, que rompeu o monopólio brasileiro). No teatro (não esqueço a magnífica actuação dele em 2005 na peça Esta Noite Choveu Prata, monólogo de Pedro Bloch, em que se repartia por três personagens). E no cinema, em filmes tão diversos como A Vida é Bela?! (de Luís Galvão Teles, 1982), a cuja estreia assisti, e Os Imortais (de António-Pedro Vasconcelos, 2003), com um inesquecível desempenho no papel do inspector Joaquim Malarranha. O último foi há pouco mais de um ano, noutro filme de Vasconcelos, Os Gatos Não Têm Vertigens, em que fazia um papel emocionado e emocionante ao lado de Maria do Céu Guerra.

Entrevistei-o duas vezes, uma das quais durante um jantar que partilhámos há pouco mais de uma década no Estoril em que deixou bem evidente outra faceta que tantos têm sublinhado: era um magnífico conversador. E um homem gentil, que também sabia escutar.

 

 

Nicolau, o Sr. Contente, teve uma vida cheia, repleta de episódios que dariam para vários livros e muitos filmes. Partiu hoje sem avisar, como por vezes lhe sucedeu em vida quando decidia pôr fim a uma etapa e iniciar outra. Para ele o tédio era uma espécie de pecado mortal.

Deixa-nos um pouco mais pobres e muito mais tristes. Mas com a recordação inapagável do seu talento, capaz de suscitar lágrimas e provocar sorrisos – numa perfeita simbiose da dualidade humana.


24 comentários

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De ali kath a 14.03.2016 às 18:46

a única vez que fui a Serpa almoçou na mesa ao lado
e com o maior à vontade partilhou os bens com uma ex-mulher
estávamos tão próximos que tive de ouvir o diálogo
vi que era uma pessoa bem formada
num mundo de lixo humano
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De Pedro Correia a 14.03.2016 às 22:16

Serpa, a terra dele. Que muito amou. Julgo que se tratou de um amor retribuído.
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De Luís Menezes Leitão a 14.03.2016 às 18:53

Era um actor extraordinário. Fazia tudo: teatro, cinema ou televisão, e tanto se colocava em papéis cómicos como em papéis sérios. Lembro-me de uma vez o ver comentar as dificuldades em fazer teatro cómico. Ele dizia que nas peças sérias só sabia se tinha corrido bem quando ouvia os aplausos no final, mas nas peças cómicas era avaliado a cada minuto, consoante os risos que surgiam (ou não) na assistência. Por isso achava muito mais difícil trabalhar em comédia, onde afinal era exímio e todos o queriam ver.

Recordo a série cómica O Espelho dos Acácios onde ele interpretava de uma forma delirante todos os papéis (masculinos ou femininos) de uma família que ia atravessando a história de Portugal. Um prodígio de interpretações e uma comédia excelente.

Historicamente ficará associado ao lançamento da telenovela portuguesa. Onde tantos hesitavam, ele quis arriscar. A personagem de João Gudunha na Vila Faia ainda hoje é um papel que perdura na memória das pessoas da nossa geração.
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De Pedro Correia a 14.03.2016 às 22:19

É como dizes, Luís. Um actor multifacetado, bom em qualquer registo, e que nunca deixou de arriscar: não se contentava com as metas já adquiridas, ambicionava conquistar novas metas.
Deixa muitos amigos e uma multidão de admiradores. Deixa também o rasto do seu bom exemplo - enquanto artista e enquanto cidadão. Uma das raras figuras de amplo consenso nacional.
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De Francisca Prieto a 14.03.2016 às 18:56

Uma pessoa, de repente e sem perceber bem porquê, fica tão triste com esta notícia. Mas tão triste.
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De Pedro Correia a 14.03.2016 às 18:59

Percebo-te muito bem, Francisca. Muito bem.
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De ariam a 14.03.2016 às 21:50

Esse "sem perceber bem porquê" talvez seja por não se estar preparado para enfrentar a nossa própria finitude ou a dos entes queridos. Ao contrário de outras culturas que celebram a morte. Se fosse japonesa não veria a morte como algo triste ou trágico, mas como uma parte do ciclo da existência.

Na nossa cultura, a morte é Tabu, nunca se fala do assunto, exceto quando alguém morre e vamos vivemos, tentando ignorar a sua existência e até agimos como se fosse algo improvável, no entanto, por enquanto, é o que todos temos, de certo e em comum. Aliás, convivemos com ela todos os dias e uma frase de L. Boff explica isso muito bem:
"A morte não vem de fora, mas se processa dentro da vida com a perda progressiva da força vital. Morremos um pouco a cada minuto e um dia este processo chegará ao fim"

Neste caso, do Nicolau, nem é para se ficar triste porque, como o Pedro mencionou, "partiu sem avisar", ao contrário de outros casos, quando se deram meses de aviso o que, quase sempre, implicou sofrimento.
De qualquer modo, se a morte a põe triste, pense que, com as novas tecnologias, já estão a trabalhar no download de cérebros, órgãos auto regeneradores e transplantes de corpo inteiro, coisa que, se penso nisso, me aflige mais que a própria morte, imortalidade? Já imaginou como ficaria o Mundo com políticos imortais? ;)
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De Francisca Prieto a 14.03.2016 às 22:24

A tristeza tem a ver com a forma como encaramos a morte, claramente, mas tem também a ver com outra coisa. É que há personagens simpáticas (e digo personagens porque só conhecia o Nicolau Breyner da televisão), com quem empatizamos, que nos acompanham ao longo da vida e que, às tantas, é quase como se fizessem parte de uma espécie de família imaginária que temos.
O seu desaparecimento não nos provoca propriamente o sentimento de desgosto trágico da perda de um pai, de uma mãe ou de um irmão. Mas deixa-nos um sentimento de tristeza. É como se nos morresse um amigo imaginário.
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De Viriato a 14.03.2016 às 20:24

Junto-me à vossa surpresa e enorme tristeza. Foi um dos nossos maiores artistas e deixará um vazio difícil de preencher porque precisamente tinha uma visão maior da cultura que não é a visão instrumental e rudimentar que provém das ideologias e das causas. Até sempre, Nicolau. Viva a tua arte.
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De Pedro Correia a 14.03.2016 às 22:29

Teve o país inteiro como palco. E aplausos generalizados dos portugueses. Era consensual - no melhor dos sentidos que esta palavra pode ter.
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De Maria a 14.03.2016 às 20:27

No lufa, lufa da vida, todos nós nos esquecemos que hoje foi o Nicolau, amanhã seremos nós. É triste, muito triste, ver alguém partir sem se despedir. É triste não nos apercebermos que o fio que o ligava a esta vida, estava prestes a partir e partiu mesmo, deixando este mundo e indo fazer parte de outro que desconhecemos, mas que os crentes sabem e sentem que existe. Partiu cedo demais, mas Deus não se esqueceu dele e premiou-o com uma morte rápida e pouco dorida. Paz à sua alma.
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De Pedro Correia a 14.03.2016 às 22:27

Felizmente fica perpetuado na memória de todos quantos tiveram o privilégio de o conhecer - em pessoa ou nos registos documentais que servirão de testemunho às gerações futuras. Tal como hoje nos lembramos de um Vasco Santana ou de uma Beatriz Costa, mesmo sem nunca os termos conhecido.
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De Isabel Mouzinho a 14.03.2016 às 21:42

Consegues sempre encontrar as palavras certas para dizer o que sentimos e não sabemos dizer assim, Pedro, com esta clareza e emoção.
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De Pedro Correia a 14.03.2016 às 22:20

É sempre assim quando se escreve com o coração, Isabel. Obrigado pelas palavras amigas.
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De Sérgio de Almeida Correia a 15.03.2016 às 05:56

Gostava muito dele e tu, Pedro, já disseste quase tudo.

Foi um grande actor e realizador, um excelente conversador, um tipo preocupado com a sua terra e as suas gentes e um homem de grande bondade que quis fazer de Portugal uma terra muito melhor.

Só faltou dizer que foi um grande benfiquista, condição e paixão de que também se orgulhava e gostava de partilhar.

Fico-lhe a dever a minha única experiência televisiva e a oportunidade que um dia tive de o conhecer e figurar nalgumas cenas da primeira telenovela portuguesa.
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De V. a 15.03.2016 às 12:05

... Já cá faltava o "benfiquismo" e a condição futebolística como se isso valesse alguma coisa. A conversa dos retornados é sempre a mesma.
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De Sérgio de Almeida Correia a 15.03.2016 às 13:35

Retornado deve ser o senhor. Badamerda.
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De Pedro Correia a 16.03.2016 às 22:29

Grande novidade que nos deste, Sérgio. Em quantos episódios entraste? Vou ver se descubro...
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De Sérgio de Almeida Correia a 17.03.2016 às 02:33

Não vale a pena perderes muito tempo. Cenas de discoteca, no velho Bananas, meu caro. Que depois foram repetidas para aí durante uma semana. Com a presença sempre elegante e simpática da Ana Zanatti, outra grande senhora dos nossos palcos. Para um miúdo de 17 ou 18 anos esse dia de filmagens foi um dia de sonho.
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De Pedro Correia a 17.03.2016 às 09:02

Faço ideia. Um dia destes tem de contar-nos essa experiência aqui. Num projecto pioneiro, que abriu caminho a tantos outros e ousou desafiar com sucesso o todo-poderoso monopólio do Brasil. Com actores nossos, histórias nossas, pronúncias nossas.
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De lucklucky a 15.03.2016 às 08:27

Uma pessoa desprovida do angst e pretensão dos Maios de 68 (existiram vários, por cá o nosso maior foi no 25 de Abril). Basta isso para o colocar cima dos outros.
Por isso era talvez o único actor moderno que conseguia ligar-se em continuidade ao passado. Consigo imaginá-lo no Leão da Estrela ou num filme mudo.

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De Pedro Correia a 16.03.2016 às 22:27

Bem observado: "Era talvez o único actor moderno que conseguia ligar-se em continuidade ao passado."
Concordo.
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De Diogo Noivo a 15.03.2016 às 16:22

Sou maluquinho por séries de televisão. E creio que esta maluquice começou com “Os Homens da Segurança”, a primeira série que me lembro de ter visto, filmada em Tróia e protagonizado por Nicolau Breyner e por Tozé Martinho. Nasci no princípio da década de 1980 e, como tal, é esta a minha primeira referência de Nicolau Breyner – o Sr. Contente já me chegou em forma de reposição.
Confesso não ser um grande entusiasta do trabalho recente de Nicolau Breyner, mas seria absurdo não reconhecer a sua importância na memória colectiva portuguesa. Quanto mais não seja por isso, é uma perda de monta.
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De Pedro Correia a 16.03.2016 às 22:25

Ele compôs personagens que suscitaram o aplauso de várias gerações, Diogo. O Senhor Contente, a Tia Eva do 'Eu Show Nico', o João Godunha da 'Vila Faia', o Carlos Jorge d' 'Os Homens da Segurança', o Nicolau Lopes do 'Nico d' Obra', o autarca Meireles do filme 'Call Girl', o inspector Malarranha.
Foi um actor genuinamente popular - na linha de vários outros, oriundos da comédia, de António Silva a Solnado. E também um notával actor dramático. Sempre em destaque, durante mais de meio século.

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