«Um toque da toalha do bidé na rata»

Em tempos questionei-me no DELITO sobre os motivos que terão levado os conspícuos jurados do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores a distinguir por três vezes o romancista Mário Cláudio. Nenhum outro, em mais de quatro décadas, foi tão generosamente contemplado com este galardão. Pormenor relevante: José Saramago recebeu o prémio só uma vez - em 1991, por O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Em nítido contraste com o topo do pódio concedido em 1984, 2014 e 2019 ao autor de Embora Eu Seja Um Velho Errante.
Escrevi aqui, há cinco anos: «Quer isto dizer que é ele o romancista mais digno de mérito em Portugal? Duvido muito. Dir-se-á antes que é o típico escritor que escreve para ser premiado - e neste campo tem alcançado assinalável sucesso, como se comprova pelo facto de também haver recebido o Prémio Pessoa, em 2004. Honra doméstica que Saramago - o nosso único Nobel da Literatura e o mais universal dos escritores portugueses desde Fernando Pessoa - nunca mereceu.»
As minhas dúvidas desfizeram-se agora. Ao ler as linhas iniciais do mais recente romance de Mário Cláudio, cujo nome não fixei: «Procedo à lavagem superficial, um toque da toalha do bidé na rata, e nas virilhas, outro nos sovacos, seis jactos de Zara Rose, dois atrás de cada orelha, e um em cada pulso. (...) Vejo-me muitas vezes, pequenita ainda, subindo às escondidas à banqueta de espelhos da coiffueuse dela, e experimentando a cosmética disponível. Baixava as cuecas, punha-me a observar os segredos da minha anatomia, a pombinha cor-de-rosa, e magicava no que lá por dentro se conteria.»
Primor de talento literário, requinte, bom gosto. Literatura Zara Rose, escrita ao impulso de seis jactos. Cheira-me que vem aí novo prémio a caminho.

