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Delito de Opinião

Um telegrama alemão

João André, 21.06.21

Em 1886, um major do novo exército alemão telegrafou aos seus superiores um novo conceito ofensivo. Estes receberam a nova ideia de forma tão positiva que a incorporaram imediatamente como parte dos manuais de guerras alemães, apesar da sua especificidade em combate. este conceito ganhou tanta popularidade que se tornou parte da mentalidade Junker, que dominava o exército alemão. Em 1914, o General Moltke tinha-o tão incorporado na sua abordagem à guerra que preparava como os horários ferroviários necessários à sua estratégia ofensiva. Durante 1939-1941, Guderian e Rommel modernizaram o conceito e adaptaram-no às suas tácticas no uso de tanques. Na Europa pós-Guerra, tanto a NATO como o Pacto de Varsóvia adoptaram os conceitos às suas disposições ofensivas e defensivas, o que terá em grande parte contribuído para o impasse que resultou na ausência de hostilidades entre os dois lados. Após 1989, a Alemanha unificada introduziu estes conceitos, sob uma forma política, na sua Constituição, os quais têm sido utilizados em certos casos nos argumentos do Tribunal Constitucional Federal alemão, em Karlsruhe, para rejeitar certas medidas da União Europeia.

Falo, obviamente do conceito táctico de enviar a bola para as costas dos defesas laterais portugueses.

 

Exagero, naturalmente, mas se formos ver os jogos dos últimos 10 ou 15 anos entre a Alemanha e Portugal, vemos que os alemães frequentemente exploram esta opção de centrar bolas de extremo a extremo, pelo ar, explorando a frequente diferença de altura e força entre os seus jogadores e os laterais portugueses, ou pelo chão, tentando que os seus extremos se antecipem. Isto atingiu novos extremos com Thomas Müller, o autodenominado Raumdeuter, ou "interpretador de espaços", um jogador que começa no flanco ou atrás do ponta de lança mas que se move (ou move a bola) por onde encontre buracos. Contra Portugal, estes aparecem com frequência nas costas dos laterais.

Quando Fernando Santos introduziu os jogadores, o meu primeiro instinto terá diso o de toda a gente: vai jogar em 4-3-3, com Danilo mais recuado, William um tudo nada à frente mas a recuar quando necessário e a dar apoio à ala se preciso e Bruno Fernandes no meio campo com licença para subir. Jota e Bernardo seriam os alas mas provavelmente desceriam para ajudar os laterais. Isto faria sentido perante o 3-4-3 alemão. Kimmich e Gosens jogariam como laterais ofensivos, Gündoğan e Kroos no centro do terreno e Müller e Havertz estariam nominalmente nos flancos mas com licença para trocarem de posição com Gnabry, que começaria a ponta de lança mas, sendo ala, não se sentiria muito confortável estando permanentemente nessa posição. Os laterais ocupar-se-iam dos laterais ofensivos, Danilo fecharia o espaço entre lateral e central e William ficaria na dobra. Bernardo e Jota ajudariam no flanco quando possível mas tentariam estar subidos para preocupar os alemães e impedirem as subidas. Quando se viu o jogo, no entanto, a sensação é que Portugal estava a jogar numa espécie de 4-2-3-1, com Danilo e William lado a lado e muito recuados, Bruno Fernandes muito avançado, tal como Bernardo Silva e Diogo Jota. Isto quebrava as linhas de passe e apenas funcionou numa ocasião: no golo, que seja como for beneficiou de um contra ataque em que Ronaldo rompeu as linhas defensivas alemãs ao ir da sua área até à outra em algo como 45 centésimos de segundo.

Claro que há na equipa alemã alguns detalhes a apontar. Kimmich é actualmente talvez o melhor jogador alemão, um jogador capaz de ser o melhor lateral direito, médio defensivo e médio centro da sua equipa. Para apoiar as suas subidas teria Ginter, que começaria do lado direito da defesa mas, estando habituado a jogar a lateral direito no Borussia Mönchengladbach, cairia muitas vezes para o flanco, dando opção a Kimmich para operar como ala. Müller, como é seu hábito, também descais frequentemente para a direita, para sobrecarregar o flanco português. Tudo isto é normal no futebol moderno: longe vão os tempos de um ala a carregar a bola sozinho e mesmo os tempos em que só recebia o apoio do lateral já lá vão. As equipas modernas colocam sempre mais um jogador para poder criar triangulações e linhas de passe. A Alemanha faz isto sem pestanejar. Tudo isto oferece muita flexibilidade. Portugal tinha um desenho táctico rígido.

Outra coisa que isto obriga, seja lá qual for o flanco onde se esteja a operar, é que a equipa que está a defender se move na direcção desse flanco. Quando se olhava para os ataques da Alemanha, o que era claro era que o flanco esquerdo alemão parecia um deserto. Ninguém lá andava. Ninguém, até aparecer o foguete Gosens, a vir de trás e a explorar o osicionamento (ou falta dele) da equipa portuguesa.

Quando vemos os golos alemães, a sensação que dá é que Nélson Semedo está a jogar como terceiro central. Não sei se isto foi devido às instruções de Santos ou a decisões de Semedo, mas Semedo raramente aparece preocupado com o seu flanco. Nalguns momentos está tão central que aparece junto à marca de penalty. Talvez tenha havido a sensação que Gosens não seria uma ameaça, mas depois do golo anulado, a equipa portuguesa deveria ter recalibrado. Havia certamente receio que os atacantes alemães explorassem o espaço entre laterais e centrais, mas fechar esse espaço era função do médio mais defensivo, Danilo. Como não o fez correctamente (era mais cone de treino que jogador) e como Jota e Bernardo não ofereceram apoio decente (pareciam estar a ver jogar), os alemães tinham todo o tempo do mundo para decidir o que fazer. No primeiro golo, Müller, no flanco direito, até anuncia com um acenar de braço para onde queria que a bola fosse antes de a dar a Kimmich para a cruzar para... as costas de Semedo.

Claro que podemos apontar todas as más exibições da equipa portuguesa. Semedo foi um desastre e só terá mitigantes (não desculpas) se Santos lhe tiver dito para jogar como terceiro central e por não ter tido apoio. Guerreiro esteve um pouco melhor, mas não muito (também sem apoio). Dias esteve a espaços bem, mas cometeu pelo menos dois erros de palmatória ao se deixar antecipar por Havertz, pelo que só pode sair com negativa. Danilo e William foram dois pilares: altos, duros e nada passava através deles, mas com a mobilidade de pilares, tudo lhes passava ao lado. A Bruno Fernandes só o vi quando marcou livres. As estatísticas dizem que fez tantos passes como William, mas não lhe notei a influência. Bernardo fez o passe fabuloso para Jota no primeiro golo e... tirou férias. Jota fez um golo e uma assistência e... também parece ter aproveitado o bilhete de entrada. Mesmo Sanches, que veio agitar o jogo português e dar algum dinamismo, também teve culpas no terceiro golo, estando a olhar para o espectáculo enquanto andava para trás nas calmas e só recua com pressa quando, muito, muito tarde, nota que Gosens estava livre. 

A verdade é que a vitória contra a Hungria não terá sido boa para Portugal. Não pela vitória, mas pelos números. Deram demasiada sensação de segurança. O facto de as substituições terem ajudado pode ter dado a sensação que a estratégia foi adequada e que deveria ser repetida. Contra a Alemanha correu mal. Portugal jogou o seu estilo de sempre e os alemães também. Nessas condições os vitoriosos são aqueles que repetem a estratégia mais bem sucedida. Aquela anunciada num telegrama alemão em 1886.

 

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