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Um pouco menos de maravilhoso

por João André, em 18.04.14

Ainda hoje tenho Cem Anos de Solidão como um dos livros que mais me marcaram. Não foi o melhor que alguma vez li, mas foi daqueles livros que é lido no momento perfeito. Nessa altura era eu estudante e tinha um certo ideal romântico do mundo. Cem Anos de Solidão transmitiu-me o realismo para o qual eu tendia na altura (andava à volta com os neo-realistas portugueses) e acrescentou-lhe o romantismo (a tal parte mágica) que lhe deu o golpe de asa na minha imaginação. Tinha na altura uma Renault 4, uma "quatruéle" herdada de um avô a que dei, pela sua durabilidade, o nome de Úrsula. O livro é de facto excelente, mas, como disse, distinguiu-se por o ter lido quando o fiz. Voltei a ele há um par de anos e não me agarrou. Não teve a mesma força na minha mente hoje mais cínica.

 

Já a releitura de O Amor em Tempos de Cólera deu-me mais prazer que a primeira leitura. Suponho que poderei reler o livro novamente dentro de 10 ou 20 anos e continuarei a gostar dele, a encontrar nele novas texturas que me toquem. É um livro diferente. O mesmo poderia dizer de O Outono do Patriarca. Se Cem Anos de Solidão foi lido de uma assentada, numa febre de dois ou três dias mal dormidos e com aulas ignoradas, O Amor em Tempos de Cólera foi sorvido, em ambas as leituras, ao longo de uma ou duas semanas, sem pressas. O Outono do Patriarca andou pelo meio. Sempre que lhe peguei fui lendo sôfregamente, como se não pudesse esperar pela próxima sala, pela próxima extravagência. Depois de dois ou três círculos, no entanto, a vertigem tomava conta de mim e não me sentia capaz de pegar no livro durante quase uma semana. Nessa altura pegava de novo no livro e voltava à leitura sòfrega até à quase exaustão.

 

O único livro de que não gostei - embora seja certamente defeito meu - foi Crónica de uma Morte Anunciada. Demasiado curto para me prender a imaginação e com uma claustrofobia que não me tocou mas me fez sentir desagrado. É um livro ao qual terei que regressar um dia. Já O General no seu Labirinto sofreu por ter sido o livro em que tentei pegar após O Outono do Patriarca. Não consegui passar da página 5, esgotado. É um livro que sinto, intrínsecamente, ser daqueles que me encherá perfeitamente mas ainda não, ainda não...

 

Depois temos os outros, "menores". A Revoada, que me fez lembrar um cruzamento entre O Outono... e o Cem Anos... Gostei muito d'O Relato de um Náufrago. Não era grande literatura, mas pareceu-me um belo cruzamento entre crónica jornalística e romance. A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile foi mais um livro de histórias, a flutuar entre o auto-elogio envergonhado e o romance de viagem. Deu prazer na leitura mas foi esquecido pouco depois. Doze Contos Peregrinos não tinham a leveza de um Luís Sepúlveda, e eram por isso mais difíceis, mas demonstraram-me também o fosso entre os dois escritores.

 

Gabriel García Marquez não foi o melhor escritor do século XX, longe disso. Terá sido um merecido prémio Nobel da Literatura, com toda a polémica que tal implica. Foi um autor que deixou algumas obras-primas e alguns (apenas) bons livros. Foi no entanto alguém que usou a sua imaginação e a sua arte para nos maravilhar e envolver. E por isso, se mais nada, merece ser recordado pelo que nos deixa.


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