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Um país onde se lê pouco e mal

por Pedro Correia, em 19.06.18

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Portugal é dos países da Europa onde menos se lê: só compramos, em média, 1,3 livros por ano. Estes péssimos índices, que não merecem qualquer tipo de censura social, ajudam a explicar por que motivo 45% dos alunos do 5.º ano de escolaridade são incapazes de identificar Portugal no mapa da Europa Ocidental - algo que se justifica pelo facto de o ensino, entre nós, estar cada vez mais desprovido de exigência, privilegiando-se o carácter "lúdico" da aprendizagem, que deve merecer a "adesão emocional" das crianças enquanto o esforço se ausenta das salas de aula.

Há tempos, num grupo de cerca de dezena e meia de pessoas da chamada classe média-alta reunidas em Lisboa, perguntei a cada uma delas se tinha comprado algum livro no ano anterior. Excepto num caso, as respostas foram todas negativas. A nossa chamada elite vive divorciada de leituras: é incapaz de comprar um romance ou um jornal, por exemplo. Sai de casa para abancar num restaurante, mesmo caro, mas nem lhe ocorre deslocar-se a um teatro ou um cinema, a um concerto ou a uma exposição.

 

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Em Novembro de 2013, fechou em Lisboa o cinema King. Foi durante anos o que mais frequentei. Lá vi alguns filmes inesquecíveis - vários de Pedro Almodóvar, por exemplo. Em diversas ocasiões não havia praticamente mais ninguém na sala: era fácil antever que acabaria por encerrar. Como encerrara o Londres, em Fevereiro desse ano - outro cinema da capital de que fui visitante assíduo. Nos últimos meses o seu estado de degradação tornara-se de tal modo evidente que não custava antecipar-lhe o fim.

Depois de fechado, muitos do que o votaram ao abandono lembraram-se de pôr a circular um abaixo-assinado entre os moradores da zona exigindo à câmara que não autorizasse a abertura de uma loja chinesa no seu lugar. Ainda me lembro do ar de espanto da senhora que me pôs o papel à frente, pedindo a minha assinatura, quando lhe respondi que me recuso a subscrever petições xenófobas. A loja abriu em 2014 e lá está, sempre cheia, no preciso local onde existia o antigo cinema, quase sempre vazio. Os mesmos que viraram as costas à sala de espectáculos passaram a acorrer ao estabelecimento comercial - incluindo ex-promotores do tal abaixo-assinado prontamente esquecido.

 

Somos assim: deixamos encerrar jornais, cinemas, livrarias. No momento em que fecham, logo surge o habitual coro de carpideiras lamentando o sucedido. Em regra, quem mais chora é quem menos contribui para evitar em tempo útil que o deserto cultural vá alastrando entre nós numa escalada galopante.

Quantos pais, incluindo na petulante Lisboa, nunca oferecem um livro aos filhos? Quantos já os levaram a visitar um monumento ou um museu? Quantos reagem com um resignado encolher de ombros à notícia de que um filho de dez anos é incapaz de apontar Portugal no mapa?

Que modelo de exigência estamos a proporcionar à geração que vai seguir-se?


74 comentários

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De lucklucky a 19.06.2018 às 20:21

Acreditaram piamente que a Educação Publica(e falsa privada) com programas criados pelo Kremlin da 5 de Outubro iria trazer o Homem Novo do 25 de Abril.
Não perceberam que o sistema de ensino não existe para dar saber e independência aos alunos. Existe para servir e sustentar o poder político.

Os únicos saberes que ainda funcionam são aqueles onde as coisas têm de funcionar: aviação, engenharia civil e saúde - e mesmo assim nesta ultima há questões...

Os jornais morrem porque sempre deram e dão sempre cada vez mais poder à religião política. Logo basta 1.





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De Pedro Correia a 19.06.2018 às 23:54

Nunca conheci ninguém que espumasse tanto ódio contra os jornalistas como você. Se vivesse no Estado Novo, teria dado um diligente funcionário da Comissão de Censura.
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De lucklucky a 20.06.2018 às 21:41

Tem piada um dos meus ódios ao jornalismo é continuada censura que os jornalistas fazem.


Depois deste tempo todo você ainda não me entende. Ou não quer.
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De Anónimo a 20.06.2018 às 22:52

"teria dado um diligente funcionário da Comissão de Censura." Ele foi e ficou-lhe o indisfarçável tique.
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De Anónimo a 19.06.2018 às 23:27

Acho piada a como estes comentadores de bancada pelos vistos só conhecem miúdos que não sabem coisas elementares. Não quero ofender ninguém, mas será que é porque vocês (e os vossos amigos) não os educaram bem? É que por cada criança que não sabe identificar Portugal num mapa encontra-se muitas que sabem.
Mas o que importa é o sensacionalismo e as evidências anedóticas.
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De Pedro Correia a 19.06.2018 às 23:48

Acho piada - ou melhor: não acho piada nenhuma - que alguém se atreva a botar sentenças em casa alheia, entrando por aqui dentro sem fazer aquilo que é de bom-tom pôr em prática: identificar-se.

Eu seria incapaz de entrar na casas dos outros - e quem diz casas diz blogues, é apenas uma questão de escala - de cara tapada, como aqueles jagunços que espalharam o terror em Alcochete a 15 de Maio.

Quando se fala em educação, ora aqui está: eis uma falha elementar em educação. Estas coisas andam sempre ligadas, para o bem ou para o mal.
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De Anónimo a 20.06.2018 às 00:44

"Eu seria incapaz de entrar na casas dos outros - e quem diz casas diz blogues, é apenas uma questão de escala " Há uma diferença: as casas em geral têm a porta fechada mas este blogue tem a porta aberta (e bem) a todos que queiram entrar. É uma das suas grandes virtudes. Compare este blogue com os que não têm (ou quase não têm) comentários. Não embirre com o desconhecido, o desconhecido por vezes é mais importante do que o conhecido.
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De Pedro Correia a 20.06.2018 às 08:52

Irrelevante se a porta está fechada ou está aberta.
Se a porta da casa do seu vizinho estiver aberta você não entra certamente por ali adentro.
Ou, se entrar, bate à porta - mesmo aberta.
E dirá sempre quem é.

Quando se fala nestas questões da educação, a base começa a falhar em tudo isto.
Falha em casa, antes de falhar na escola.
Questiono-me sempre que princípios poderão transmitir aos filhos os pais que se comportam sem respeitar regras básicas da convivência em sociedade.
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De Anónimo a 20.06.2018 às 22:56

"Ou, se entrar, bate à porta - mesmo aberta." Num blogue que aceita anónimos faço clique que é o equivalente informático a bater à porta. Aparece-me uma resposta (pelo menos no Delito) que é o equivalente informático ao entre. Temos de perceber que com blogues o clique com o rato substitui o tradicional bater com os nós dos dedos. Quem não perceber isto está mal.
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De a 20.06.2018 às 11:19

Questão pertinente, Pedro. Também me questiono não raras vezes;
"Questiono-me sempre que princípios poderão transmitir aos filhos os pais que se comportam sem respeitar regras básicas da convivência em sociedade."
Aos professores cabe ensinar aos pais educar - a educação tem de vir de casa, do seio familiar, cabe aos encarregados de educação transmitir valores morais e sociais. Se não for assim...é o que se vê!! Descalabro!
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De Pedro Correia a 20.06.2018 às 11:29

O problema de base é sempre esse, Té. E estas questões quase nunca se discutem. São uma espécie de tabu, que vamos varrendo para debaixo do tapete.
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De V. a 21.06.2018 às 00:39

Na minha geração ia-se jantar e ao cinema — ou à feira do livro — ou saíamos depois de jantar para beber um café e estávamos a beber gins até às quinhentas. Na geração seguinte deixei de ver as pessoas fazer isso — os cinemas fecharam, muitos cafés também. Sempre pensei que tinham passado para o facebook ou coisa assim e disparavam depois directamente para as discotecas. Reavivou-se agora os cafés e o comércio de rua mais por causa do turismo.

Acho que há muita coisa que deixou de existir (como muitos cinemas de referência, por exemplo o Quarteto ou King em Lx ou o Avenida em Coimbra) porque os estilos de vida mudaram completamente — e sobretudo porque isso coincidiu com a crise económica que começou em 2003 e só acabou 2015 se é que acabou mesmo.

De notar também que o cinema já não é propriamente cinema do género que existe pelo prazer de contar histórias e refinar a arte cinematográfica — é mais um alinhamento de causas ambientais, quotas raciais e questões de género — como aquele filme tremendamente estúpido em que a raça humana está em extinção e a única mulher fértil é... não, a sério, adivinhem...
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De a 21.06.2018 às 10:30

"Na minha geração ia-se jantar e ao cinema" - Na minha também. E, na dos meus filhos idem. Não vejo assim tão grande diferença...ainda que eles sejam da era das novas tecnologias. Há coisas que nunca mudam e a tradição ainda é o que era.
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De a 21.06.2018 às 13:16

...

Ainda há famílias que cumprem o seu papel e educam. Que compram livros, vão ao cinema, ao teatro, a exposições, visitar museus, assistir a concertos. Ainda há famílias que fazem programas em família.
Que se preocupam com os tpc, que ajudam e tiram dúvidas, que os filhos estudem e aprendam mas e sobretudo sejam pessoas - ainda que de palmo e meio - educadas e respeitadoras...que tenham regras, que saibam viver em sociedade.
Que as refeições têm hora marcada e são à mesa, com talheres. Que em cima da mesa não há telemóveis, nem assuntos urgentes para resolver por telemóvel.
Ainda há gente assim.
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De Anónimo a 22.06.2018 às 18:34

Caro Pedro, deixe-me começar por lhe dizer que acredito tanto na média de livros anual per capita como no facto de a história da carochinha ser o conto tradicional exclusivamente português (já figurava no «Pentamerone» do G. Basile em 1500 e troca o passo). Tenho um amigo que andava a fazer sondagens dessas e me contou que as pessoas claramente inventavam ao ser questionadas sobre se tinham comprado livros no último ano. "Ah sim, claro. Eu leio livros." Qual? "Não me lembro bem, aquele do Nobel português... Salazar, não é?"

Outros dados mais relevantes: a categoria máxima da sondagem de hábitos de leitura em Portugal prefigura o "Grande leitor" como "aquele que lê mais de 10 livros por ano". Em frança é o que lê mais de 10 livros por mês.

Outros dados curiosos: em 1905, creio, lavraram-se os primeiros censos em Portugal e também na Islândia. O número de leitores regulares de livros, em ambos os países era idêntico, menos de 0,5 % da população. Em Portugal a coisa mantém-se; na Islândia 99% da população lê regularmente livros (será a maldição de termos praias e bom tempo, ou estará a coisa relacionada com a reforma educativa dos países escandinavos?). A coisa resulta, de forma inequívoca na forma como cada um dos países reagiu à "crise económica" de 2008.

Para usar uma paralipse, não precisarei de recordar que a constituição islandesa foi revista com participação generalizada de toda a população autorizando acções, processos e penas para banqueiros e políticos claramente indigitáveis pelos danos ao país - entre muitas outras melhorias sociais.

Só faltou Portugal fazer como certos países do terceiro mundo fazem no que toca a resíduos tóxicos e lixos perigosos e propor-se a receber tais indivíduos. Certamente que a economia nacional teria melhorado visivelmente.

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