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Delito de Opinião

Um país deprimido por culpa do futebol

Pedro Correia, 22.11.21

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Parecia um terramoto. Só não provocou a queda do Governo porque a defunta geringonça já se tinha encarregado disso, na votação parlamentar que provocou o primeiro chumbo de um Orçamento do Estado da nossa democracia.

A derrota da principal equipa portuguesa de futebol ao nível de selecções, humilhada pelos adversários sérvios no estádio da Luz com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa na tribuna, causou um abalo sísmico na psicologia colectiva deste povo habituado a glorificar os heróis da bola. Não só por nos afastar da qualificação directa para o Campeonato do Mundo, a disputar daqui a um ano no Catar, mas pela sofrível exibição da turma das quinas, catalogada na oitava posição da tabela classificativa internacional, enquanto a selecção da Sérvia surge num modesto 29.º lugar.

Uma angustiante dúvida apoderou-se dos milhões de portugueses que acompanham com fervor o chamado desporto-rei: teremos regressado à era em que acumulávamos fracassos nos relvados, mascarados de «vitórias morais» pelos cultores dos eufemismos? O nosso inédito reinado como campeões europeus entre 2016 e 2021 terá sido proeza irrepetível?

 

Foi curioso ver as reacções em estúdio de vários comentadores, confrontados com a derrocada. Dividem-se em três grupos, cada qual com os seus pontas-de-lança. Aqueles que sempre ansiaram pela queda de Fernando Santos por ter posto os futebolistas a «jogar feio», mesmo vencendo, apressam-se a reivindicar a defenestração sumária do seleccionador. Aqueles que até agora lhe entoavam hossanas mudaram a agulha: falam em «equipa de Portugal» quando dantes invocavam a todo o momento a sacrossanta «selecção nacional». E há ainda os profissionais da ambiguidade, que jamais arriscam uma frase digna de suscitar polémica: estes aludem a «uma exibição cinzenta», lastimam a «noite pouco feliz», lamentam vagamente a «exibição menos conseguida».

Não faltaram bitaiteiros de vários matizes no deprimente serão televisivo de domingo – do pessimista militante que adora proclamar «eu bem dizia» mal vê a bola entrar na baliza errada ao puxa-saco subitamente travestido de crítico feroz. Uns e outros, com lugar cativo nas pantalhas, proporcionam por vezes espectáculos ainda mais penosos do que a ocasional mediocridade lusa nos campos de futebol.

 

No rescaldo imediato deste Portugal-Sérvia, o pior comunicador foi Fernando Santos: falou muito e disse quase nada, mandando bolas fora. Isto, por exemplo: «Nós todos sabemos que não fizemos aquilo que podíamos ter feito.» Felizmente os jornalistas recolheram também declarações de um jogador, Bernardo Silva, que se deixou de rodriguinhos e rematou assim: «Foi uma exibição péssima, peço desculpa aos portugueses.»

O essencial dito em apenas oito palavras. Se a equipa das quinas tivesse jogado como Bernardo comunica, a vitória seria nossa. Por goleada.

Melhor que ele, só o Presidente da República, ao exclamar: «A luta continua, em Março há mais!» Supõe-se que falaria de futebol. Mas com Marcelo nunca se sabe.

 

Texto publicado no semanário Novo

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