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Um pacote de batatas fritas

por João Sousa, em 09.02.20

Num degrau de uma das escadas de acesso ao Metro do Cais do Sodré, podem-se ver hoje um pacote de batatas fritas meio derramado e uma garrafa de cerveja vazia. Estão ali, imotos, desde pelo menos sexta-feira de manhã.

As gentes que fazem de conta que gerem os transportes públicos adoram anunciar obras e extensões. A sua utilidade para o utente é, amiúde, pouco óbvia. A utilidade para administradores e governantes, essa, é evidente: oportunidades para distribuir dinheiro - que nunca é o seu - por clientelas; acções de propaganda, generosamente amplificadas pela comunicação social, nas quais se exibem a tesourar fitas físicas e metafóricas - uma fita pelo anúncio do futuro concurso público, uma fita pela efectiva abertura do concurso público, outra pela adjudicação, uma pela primeira pedra, mais uma pelos primeiros carris, uma outra pela inauguração, uma final pelas obras de reparação, e mais algumas de permeio que seguramente esqueci mas a fértil criatividade dos publicitários avençados inventará; e plaquinhas de inauguração deixadas, para iluminação das gerações futuras, incrustadas como fósseis nas paredes e onde se lê um "sua excelência" a preceder o seu nome (e quantas vezes esse nome nega a excelência que o precede).

Eu preferia que aqueles indivíduos, assalariados pelos meus impostos para gerirem um serviço que eu pago e utilizo diariamente, por uma vez começassem por colocar em ordem a casa que têm desordenado nos últimos anos e se preocupassem primeiro com os invólucros, vazios ou não, que conspurcam os chãos durante dias; as baratas que calcorreiam algumas estações e as pulgas que saltitam nalguns barcos; os baldes para goteiras que salpicam corredores e salas de embarque; as escadas rolantes que não rolam e os elevadores que não elevam em dias alternados; as cancelas que validam passes mas não abrem; as máquinas de bilhetes avariadas; as estações sem um único funcionário para auxiliar (se para aí estiver virado) os passageiros...


16 comentários

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De Anónimo a 09.02.2020 às 19:16

"Arriscar a Pele", do nosso amigo Taleb, nome próprio Nassim.
Também contempla , e não metaforicamente, o lixo do C.Sodré...



JSP
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De Anónimo a 09.02.2020 às 19:20

Um governo que promove legislação draconiana para que atira uma beata para o chão !, mantem-se impávido com o espetáculo dos inúmeros TIRes carregados de lixo intratável descarregados em aterros com discutível preparação e em zonas habitadas. Não há vergonha.
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De Bea a 09.02.2020 às 19:21

subscrevo tudo que expôs. E asseguro a veracidade do que escreveu e também me é dado comprovar. Não entendo esta febre de inaugurações, este desejo instante da linha circular do metro quando as que existem estão na miséria de funcionamento que se conhece. Não está certo que tenhamos de aturar tanta politiquice parva que se preocupa tão pouco com gastar honestamente e para bem dos utentes os dinheiros que destinam aos transportes públicos. Era expulsá-los como Cristo fez aos vendilhões. Acresce que nos gastam mal o dinheiro e ainda são pagos por nós. Não há gente mais mal agradecida.
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De Anónimo a 09.02.2020 às 20:50

Boa noite
Subscrevo o que escreve.
E não é só nessa estação que se passam coisas como a que descreve.
Basta aliás andar também pela Baixa Pombalina, não é preciso olhar às escadarias das estações para avaliar, por um lado, a cambada de energúmenos nacionais e estrangeiros que tudo emporcalham, por outro, verificar a manutenção do lixo do mesmo lixo mais de um dia, o que sugere algo mal nos serviços quer do Metro quer de outras empresas, quer da CMLisboa.
António Cabral
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De Anonimus a 09.02.2020 às 21:43

As obras públicas em Portugal fazem lembrar o tipo que compra o Ferrari, mas depois não tem dinheiro para a gasolina e o leva ao mecânico da esquina.
A manutenção é inexistente. Ponto.
Para piorar, nada está preparado para aumentos de procura. Estradas, transportes, recolha de lixo, estão dimensionados para um número de "utentes", quando vem a vaga de turistas, chapéu.
Um ponto pouco falado, são os direitos dos consumidores. Clientes? Utentes?
Se eu pago um bilhete para um transporte, não pago tudo? A pontualidade, a escada rolante, a máquina a funcionar, o WiFi do Alfa, o WC, o serviço de bar, ou limito-me a comprar uma viagem?
Em Portugal raramente o serviço apresentado (e pago) corresponde ao vendido, mas quem paga não bufa.
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De Anónimo a 09.02.2020 às 23:58

Quando o IP 5 ficou pronto a estimativa de tráfego já tinha sido ultrapassada pela realidade, os acidentes tornaram-se recorrentes e para estrada de montanha foi muito mal concebida, depois fizeram a A25 POR CIMA que de auto-estrada nada tem.
No IP 3 ainda é pior e decerto quando fizerem as supostas obras anunciadas todos os anos, vão pôr portagens em cima...
Qual a lógica de fazer novas infraestruturas se as que existem funcionam muito mal, não são reparadas ou estão ao abandono.
Os lisboetas falam no metro e aquela estrada que desabou em Évora, os caminhos de ferro abandonados, as barragens que agora já nem são nossas, os diques do Mondego. E a brilhante ideia de fazer um Aeroporto junto ao Tejo em que o ministro do Ambiente teve a inteligência de dizer que ali não haverá cheias porque nunca houve nos anos anteriores e depois diz que certas aldeias têm de ser deslocalizadas por causa das cheias do Mondego.
Ou fazer um aeroporto em Beja, reconhecer o erro e nada fazer para o rentabilizar ou pelo menos fechar para não gerar custos.
A esta lista tem obviamente de se acrescentar as escolas decrépitas, os centros de saúde, os hospitais.
Obviamente que o dinheiro não chega para tudo e para agradar a certas clientelas (os que receberam migalhas) e os tubarões que recebem milhões alguém tem de perder sempre mas como "votámos" neles só temos o que merecemos por isso não se queixem muito porque o inverno está a chegar.

WW
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De João Sousa a 12.02.2020 às 11:53

Fosse um ministro de não-esquerda a dizer esse bitaite da deslocalização de aldeias, os jornais e os indignados profissionais das redes sociais não lhe sairiam de cima enquanto não se demitisse e emigrasse. Em vez disso, não passou de uma nota de rodapé. Tal como não passou de uma nota de rodapé a notícia de que a barragem de Girabolhos, que aumentaria a capacidade de gestão do Mondego, foi suspensa em 2016.

O aeroporto de Beja, diziam em 2007, poderia atingir 1,8 milhões(!) de passageiros em 2020. Lendo hoje estes números, dá quase vontade de rir - não fosse triste. É mais rentável explorar aquele aeroporto como cenário para filmagens do que como aeroporto.
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De João Sousa a 12.02.2020 às 11:23

Há já algum tempo que defendo a obrigatoriedade dos transportes públicos listarem, nas suas páginas de internet, todas as perturbações de serviço e respectivas causas. É, na minha opinião, uma questão de transparência para com o contribuinte que suporta esses serviços (independentemente de os usar ou não). Mas transparência do Estado é, em si mesmo, um conceito muito opaco no nosso país.
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De Anónimo a 09.02.2020 às 23:00

É impossível não concordar.
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De Luís Lavoura a 10.02.2020 às 15:08

É que, a União Europeia subsidia em grande parte a obra nova (a construção de novas linhas), porém, não subsidia a manutenção e o funcionamento da obra antiga (das linhas já existentes).

Este é um problema recorrente cá em Portugal (e não só a nível público, a nível privado também): só se pensa em como pagar a obra nova, nunca se pensa em como pagar a manutenção das obras já existentes. Por exemplo, muitas pessoas pensam em como pagar a compra de uma casa nova, mas esquecem-se de quanto custará o condomínio e a manutenção da casa.

Um outro problema é a escassez cada vez mais generalizada da mão de obra, e o seu custo crescente. É isso que explica o emporcalhamento das estações (e não só, da cidade de Lisboa em geral). Cada vez é mais difícil encontrar pessoas para varrer o lixo, e pagar a essas pessoas.
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De Luís Lavoura a 10.02.2020 às 15:12

podem-se ver hoje um pacote de batatas fritas meio derramado e uma garrafa de cerveja vazia

Garrafas de cerveja vazias são o pão-nosso-de-cada-dia pelas ruas de Lisboa.

Mas quem deve ser principalmente culpado por isso é quem as coloca lá, ou seja, quem bebe a cerveja. É o povo que é porcalhão e que, acabada a cerveja, não pensa onde está o vidrão para pôr a garrafa. O qual vidrão, frequentemente, está muito perto.

Eu, ao andar a pé por Lisboa, encontro com muita frequência garrafas de cerveja (ocasionalmente de vinho ou outras bebidas) vazias, e quase sempre há um vidrão bem perto de onde elas estão.
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De Luís Lavoura a 10.02.2020 às 16:47

Se o João Sousa andasse alguma vez a pé pela rua em que moro (a qual é uma rua relativamente larga e relativamente perto do centro de Lisboa), ficaria espantado com o grau de emporcalhamento dela. Praticamente ao pé de cada árvore da rua (ou seja, de 10 em 10 metros) há um monte de lixo. Para além de garrafas de cerveja e de pacotes de batatas fritas, que são uma constante, há uma enorme variedade de outros tipos de lixo que o povo lá deposita.
O povo português, hoje em dia muito urbanizado, continua a ter estranhos comportamentos aldeãos. Em particular, o gosto atávico de depositar o lixo em lixeiras espalhadas pela paisagem, em vez de o depositar em sítios próprios.
E não é só o povo português. A situação é piorada pelos alojamentos locais - também abundantes na minha rua - que, em geral, não têm caixotes onde se deposite o lixo, nem recolha dele. Os turistas são implicitamente convidados a pôr o lixo na rua, e frequentemente não sabem aonde.
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De Anónimo a 11.02.2020 às 08:40

Se o Luis Lavoura alguma vez tivesse visitado uma aldeia saberia que não existe lixo nas aldeias, tudo se aproveita, tudo se transforma...
Você (e os outros) "tropa de choque" do xuxalismo que se governa deviam ter vergonha na cara e ao menos ficarem calados (até ganharam as eleições).

WW
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De Luís Lavoura a 11.02.2020 às 08:59

Visito a aldeia do meu pai regularmente. Ainda há uma semana lá estive.

Deposição de lixo, é por todo o lado. Colchões velhos. Esquentadores velhos. Placas de lusalite. Pneus. Diversos tipos de resíduos industriais. Para além do lixo doméstico, que também é depositado (creio, mas não posso afirmar, que por ciganos).
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De Marta a 11.02.2020 às 15:53

Mais uns exemplos:

Domingo, 13h, às portas dos Pastéis de Belém: dezenas de sacos e caixas de pastéis acumulados junto aos caixotes do lixo a abarrotar. Os senhores turistas nem se deram ao trabalho de reutilizar o saco. A recolha do lixo em Lisboa permanece um mistério insondável para o meu cérebro.

Estação de Sete-Rios, um qualquer sábado de manhã bem cedo: sinais de bebedeira bem visíveis nas escadas rolantes de acesso às plataformas - a ceia não terá caído bem. Uma semana depois, as marcas de vomitado continuavam no mesmo sítio. Uma semana.

A minha cena preferida foi na estação de Alcântara-Mar: máquina de bilhetes n.º 1 não aceita MB, estação nojenta e semi-alagada (o costume). Perguntei onde era o MB mais próximo - "é já ali. Mas é normal as máquinas não funcionarem, vá e se aparecer o fiscal, explique-lhe, há muita gente que faz isso.É para perto?" Para a Parede. "Pois,é melhor comprar, é. Mas tem uma máquina de bilhetes ali na linha também." Nunca fiando, lá levantei o dinheiro e voltei. Máquina na linha avariada, toca a descer, comprar o bilhete e tornar a subir. Isto demorou uns 18 minutos e um comboio perdido. Calhou ter meia hora a mais e ter chegado a horas.

Eu também preferia que em vez de apostarem no processo de disneylandização-parolização em curso, assegurassem os mínimos de higiene. A maquina dos bilhetes até pode nem funcionar.

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