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Delito de Opinião

Um muro no Canal da Mancha

Pedro Correia, 24.06.16

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Por margem tangencial, os eurofóbicos venceram. Prevaleceu a campanha do Brexit, assente no ódio ao estrangeiro numa sociedade que só em 2015 recebeu cerca de 330 mil imigrantes e no medo de que a "burocracia europeia" adulterasse a ´"singularidade" britânica - num país que mantém Isabel II como chefe do Estado, conserva a libra esterlina como divisa, tem garantida a City como uma das principais praças-fortes financeiras mundiais e ficou à margem do Espaço Schengen. Não por acaso, Marine le PenDonald Trump foram os primeiros a saudar o resultado no referendo do Reino Unido, que impõe a retirada do país do espaço comunitário. Nunca antes tinha acontecido: um Estado sair pelo seu pé da União Europeia, que assim se restringe de 28 a 27 membros.

É sempre mais fácil congregar os eleitores recorrendo a argumentos negativos, como as manchetes dos dois principais tablóides britânicos - The Sun e Daily Mail, com mais de três milhões de exemplares vendidos por dia - foram demonstrando ao longo de meses nas suas histéricas manchetes contra o "perigo" europeu. Tudo valeu nesta espécie de jornalismo transformada em trincheira de guerra - até inventar um suposto apoio da Rainha ao Brexit.

Por amarga ironia, prevaleceu o espírito da aldeia do Astérix entre os ingleses, que preferem prosseguir o caminho orgulhosamente sós, erguendo um muro metafórico no Canal da Mancha - os escassos 33 quilómetros que separam a principal ilha britânica do continente.

 

Não adianta iludir a questão: a retirada do Reino Unido - segunda maior economia do espaço comunitário, - responsável por 17,6% do PIB europeu - constitui o maior desaire até hoje infligido ao sonho dos pioneiros da UE, que asseguraram as seis décadas de maior paz e estabilidade registadas na antiga e dilacerada Europa. Mas a comunidade europeia existia antes da integração britânica, entre 1957 e 1973, e continuará sem ela. De algum modo, o Brexit agora consumado acaba por dar razão ao polémico gesto do Presidente De Gaulle, que em 1963 e 1967 impôs o veto francês à integração de Londres no mercado comum europeu.

Sendo má notícia para a Europa, o resultado deste referendo é sobretudo uma péssima notícia para o Reino Unido - que nunca esteve tão desunido como agora. Escoceses e irlandeses do norte, ao contrário dos ingleses e galeses, votaram pela manutenção do Estado britânico na UE. O Brexit vai reacender a pulsão independentista escocesa e contribuirá para aproximar o Ulster da República da Irlanda, uma das economias em maior expansão do espaço comunitário.

 

David Cameron, que já anunciou a  demissão do cargo de primeiro-ministro, é o maior derrotado deste processo em que pagou bem cara a cedência ao populismo do UKIP de Nigel Farage, principal força motriz do Brexit. Ao convocar o referendo, por sua livre iniciativa, Cameron visava solucionar um problema interno no Partido Conservador, onde a corrente eurocéptica sempre foi muito forte: afinal, em vez de apagar a fogueira, ateou várias outras.

É também uma derrota para o maior partido da oposição: o seu líder, Jeremy Corbyn, só nos últimos dias saiu do silêncio a que se tinha remetido durante a campanha, após o assassínio da deputada trabalhista Jo Cox, grande activista eurófila, com uma ambígua e relutante declaração pró-Europa. Não custa prever que passe a ser ainda mais contestado nas fileiras do partido.

 

O vencedor é Farage. Do outro lado da Mancha, Marine já festeja com champanhe: vai seguir-se um referendo em França se a Frente Nacional ganhar no próximo ano a corrida ao Palácio do Eliseu - um cenário que deixou de ser mera especulação teórica para se tornar cada vez mais plausível.

Por cá, também uns quantos eurofóbicos festejam, cheios de pressa de dizer "adeus à Europa". Como se não vivessem neste momento no Reino Unido cerca de 500 mil portugueses. Como se pudéssemos, com uma cruzinha num boletim de voto, despedir-nos da história e virar costas à geografia. Somos europeus, não há volta a dar. A questão é se preferimos uma Europa com Angela Merkel, Matteo Renzi e Manuel Valls ou uma Europa dirigida por Farage, Le Pen, os xenófobos da Liga Norte italiana ou Frauke Petry, que lidera a Alternativa para a Alemanha. Cada um por si e o diabo por todos.

Dizem alguns, iludidos, que esta é a "nova" Europa. Mas não. Esta é a Europa mais velha que existe. A do ódio fratricida que incendiou o continente durante séculos e conduziu às duas maiores catástrofes que a história registou.

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