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Um modelo falível

por Alexandre Guerra, em 12.08.19

Tentar prever o comportamento de um governante no âmbito de um tema fracturante, atendendo ao seu perfil político-ideológico, pode e deve ser um exercício válido, mas nem por isso infalível. Partindo de um determinado modelo de pensamento previamente conhecido, poder-se-á antecipar a decisão de um líder perante uma problemática sócio-política instalada na comunidade. Em tese, e dando um exemplo clássico, poder-se-á presumir que alguém ideologicamente de “esquerda” seja mais favorável à intervenção do Estado nos assuntos da “polis” do que alguém de “direita”, ou vice-versa.

Tendo como base este paradigma, consegue-se vislumbrar potenciais decisões de governantes em matérias relacionadas com o papel do Estado na esfera comunitária, seja na saúde, na educação ou nos transportes. Ou antever a sua relação política com temáticas culturais ou religiosas. Da mesma maneira que se poderão tornar previsíveis as decisões de um decisor, à luz de um registo mais conservador ou progressista, mais tradicionalista ou liberal, face a temas como o aborto, a eutanásia ou a engenharia genética.

O conhecimento e estudo das ideologias dá-nos um certo grau de previsibilidade no processo de decisão no âmbito do sistema político. Quando um candidato se apresenta a eleições assumidamente debaixo de um manto ideológico, é natural que o eleitor crie expectativas quando ao desfecho legislativo de determinadas matérias.

Mas esta fórmula está longe de ser exacta, até porque muitas das vezes os políticos estão desprovidos dessa carga ideológica, regendo-se exclusivamente pelo pragmatismo técnico-burocrático, podendo tomar decisões circunstanciais, de acordo com as necessidades (ou sondagens) do momento. E, mesmo aqueles decisores que, convictamente, se entreguem a uma determinada ideologia, podem ver-se confrontados perante uma realidade impositiva que se sobreponha aos seus princípios políticos originários.

Tome-se como exemplo o caso prático que por estes dias tem ocupado horas de telejornais e páginas de jornais: a greve dos motoristas de pesados de mercadorias, nomeadamente de matérias perigosas. Não são aqui chamados os contornos ou os efeitos da greve em si, mas sim o seu enquadramento político-ideológico feito por diferentes intervenientes. E se este caso é aqui referido, é porque é um bom exemplo da falibilidade da “fórmula” acima apresentada.

Na óptica do tal quadro de análise “esquerda-direita”, não seria descabido prognosticar, há umas semanas, que, perante um cenário extremado de greve, o Governo (esquerda) assumisse uma posição suavizada perante aquilo que tem historicamente considerado um princípio constitucional intocável ainda herdeiro da boa e velha tradição sindicalista dos tempos do “proletariado” marxista. Partindo dessa “fórmula”, dir-se-ia também que a oposição (direita) seria menos conivente com o tom radicalizado dos grevistas e viesse defender uma acção mais “musculada” por parte das autoridades no garante da normalidade da sociedade.

Porém, os últimos dias vieram demonstrar o contrário, assistindo-se a uma inversão de papéis, pelo menos à luz daquilo que seria o cenário expectável: a esquerda fortemente empenhada na limitação aos direitos “excessivos” dos grevistas; a direita bastante permissiva perante o discurso extremado dos grevistas. Ideologicamente, será abusivo extrapolar estas posições para uma realidade mais definitiva, onde a esquerda e a direita alteraram os seus princípios face ao instrumento da greve.

Em Portugal ainda é bastante clara a fronteira doutrinária entre a esquerda e a direita em relação a algumas matérias, verificando-se algum conservadorismo ideológico em ambos os campos. A questão é que as circunstâncias políticas que se vivem acabaram por empurrar o Governo e a oposição para terrenos que não são habitualmente os seus. E quando assim é, rapidamente as ideologias são “metidas na gaveta” e os discursos mudam.


6 comentários

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De Anónimo a 12.08.2019 às 18:32

«Em tese, e dando um exemplo clássico, poder-se-á presumir que alguém ideologicamente de “esquerda” seja mais favorável à intervenção do Estado nos assuntos da “polis” do que alguém de “direita”, ou vice-versa.»

(...)

«Na óptica do tal quadro de análise “esquerda-direita”, não seria descabido prognosticar, há umas semanas, que, perante um cenário extremado de greve, o Governo (esquerda) assumisse uma posição suavizada perante aquilo que tem historicamente considerado um princípio constitucional intocável ainda herdeiro da boa e velha tradição sindicalista dos tempos do “proletariado” marxista. Partindo dessa “fórmula”, dir-se-ia também que a oposição (direita) seria menos conivente com o tom radicalizado dos grevistas e viesse defender uma acção mais “musculada” por parte das autoridades no garante da normalidade da sociedade.»

O parágrafo 2 desmente o 1 (já que afinal parece que aí seria de esperar que fosse a direita a defender a intervenção do Estado).
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De Alexandre Guerra a 12.08.2019 às 20:37

Compreendo a sua observação e se no 1° parágrafo faço uma generalização, no 2° parágrafo refiro-me em concreto àquilo que tem sido o enquadramento ideológico relativamente à greve, historicamente um instrumento muito "estimado" pela esquerda e menos pela direita. E, por isso, penso que, em termos meramente teóricos, seria mais natural ver a direita a cercear alguns excessos da greve do que a esquerda.
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De Anónimo a 12.08.2019 às 22:07

Dª Catarina e D. Jerónimo já se pronunciaram ?
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De Anónimo a 12.08.2019 às 22:26

O autor encontra algum regime - aqueles que o BE, PCP admiram - de Esquerda onde haja direito à greve?

Lê-se textos destes e pergunta-se? em que casulo vive o autor.
As causas Marxistas são instrumentais apenas.
A pobreza de Cuba nunca envergonhou nenhum esquerdista, nem a proibição de Sindicatos..

Afinal seguem o "Estado Ético" de Hegel.
https://it.wikipedia.org/wiki/Stato_etico


P.S: ainda espero textos sobre a "conspiração" Russa-Trumpista... ou será ao invés a Conspiração para derrubar um Presidente?

lucklucky
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De Anonimus a 12.08.2019 às 22:51

Aqueles países assim de esquerda, esquerda, os regimes que PCP e bloco tanto apreciam, defendem imenso o direito à manifestação, as greves, as minorias, a diversidade étnica, tidos esses ideais de esquerda.
Defendem os direitos dos trabalhadores, mas aqueles bem comportados.
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De Anónimo a 14.08.2019 às 12:10

Muito bem analizado.
Sim, mas neste Portugal político dir-se-ia que o contraste entre o que se apresenta eleitoralmente como ideologia e a prática governativa, é mais nítida -uma tradição mesmo- no PS. A despodurada gaveta. Pragamatismo?.
O PSD, até porque mais volúvel ideologicamente, só dificilmente poderá descair nessa incongroência.

Curiosamente em Portugal "pós Abril" (ainda) não temos um partido assumidamente de direita. Muito menos como sendo o protoganistas #1 do poder político. O CDS nunca se atreveu a se assumir ideologicamente como um partido de direita, direita bem ao sério, direita pura e dura.

Entretanto o eleitorado, que ainda é vota, esquematiza a sua preferência entre uma (elástica) esquerda e uma tímida anti-esquerda. Qué dos outros?.

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