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Um grande sarilho.

por Luís Menezes Leitão, em 19.09.15

Ontem houve sondagens para todos os gostos. Pedro Magalhães fez aqui o favor de tirar a média do que tudo isto pode significar. O exercício é útil, mas não me parece totalmente decisivo, uma vez que houve uma claríssima inflexão nos últimos dias, em que António Costa passou num ápice de vencedor claro a derrotado colossal. Mas, mesmo partindo desse exercício, as perspectivas são sempre más para o PS e péssimas para o país.

 

A primeira análise a fazer é que o PS continua em queda, sem que no entanto a coligação suba. Isso só pode significar que está a haver uma sangria dos votos do PS para o Bloco de Esquerda, enquanto que a CDU se mantém estável. Devo dizer que é um resultado que não me espanta, depois da vitória clara de Catarina Martins no debate com António Costa. Se isso ocorrer, a estratégia do PS sai derrotada em toda a linha, uma vez que António Costa decidiu colocar o partido totalmente à esquerda, alinhando até num apoio frentista a Sampaio da Nóvoa, e alienando com isso o eleitorado do centro, para afinal não conseguir conquistar qualquer voto útil à esquerda. Parece-me, aliás, que António Costa já desistiu do eleitorado do centro, razão pela qual agora se concentra num discurso cada vez mais radical, a ver se consegue estancar essa fuga dos eleitores de esquerda. A inenarrável proposta de não viabilização do orçamento de Estado, impensável em qualquer candidato a primeiro-ministro com um mínimo de credibilidade, é bem o sintoma desse desespero.

 

A outra conclusão que todas as sondagens dão é que, mesmo que o PS tenha maior número de votos, a coligação vai ter mais deputados. Esse é um fenómeno resultante da distribuição do eleitorado pelos círculos, que provoca essas distorções. Muitas vezes a UDP elegeu um deputado, tendo menos votos do que o MRPP, ao contrário deste, porque ele dispersava os seus votos pelo país, enquanto que a UDP os concentrava em Lisboa. Cavaco diz que nesse caso convidará para formar governo quem tenha mais deputados, o que parece constitucionalmente correcto. Só que, se Costa não viabiliza o orçamento, também não viabiliza um governo minoritário da coligação, pelo que este não passará no parlamento, uma vez que tem garantido, não apenas o chumbo do PS, mas também da CDU e do BE. E também estaria excluído um governo de coligação PAF + PS, até porque neste caso seria Passos Coelho o primeiro-ministro, o que Costa nunca aceitaria.

 

Neste caso, excluindo do governo a coligação PAF, a sondagem do Expresso diz que só haveria maioria com um governo PS + CDU, o que nenhum dos dois partidos quer. Já um governo minoritário do PS, tendo a coligação mais deputados, só poderia passar no parlamento se fosse viabilizado pela própria CDU, o que o tornaria dependente do apoio de Jerónimo de Sousa para toda e qualquer medida, incluindo qualquer exigência de disciplina orçamental por parte da União Europeia. Jerónimo de Sousa bem pode dizer que nesse caso não teria o futuro do governo PS nas mãos, que eu digo que o teria totalmente no bolso.

 

Se o que as sondagens dizem estiver correcto, o país acordará no dia 5 de Outubro num cenário de verdadeira catástrofe. O parlamento não terá quaisquer perspectivas de gerar um governo estável, nem sequer de aprovar um orçamento, com a agravante de não poder ser dissolvido durante seis meses. O governo estará em funções de gestão, sendo substituído provavelmente por sucessivos governos à direita e à esquerda, que cairão no parlamento à primeira oportunidade. O presidente aguardará pelo fim do seu mandato sem nada poder fazer. Com um país ingovernável nestes termos, não me espantaria que um novo resgate surgisse ao virar da esquina.


6 comentários

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De Costa a 20.09.2015 às 11:19

Pois... Em suma, não se sabe governar. Deixa-se bovinamente governar, seja por um regime autoritário que com alguma (e nem muita) violência de estado o "mantém na ordem" que entenda aplicável, seja por um regime cujas características permitem aos candidatos ao poder berrar impune, irresponsavelmente, o que um povo como o nosso gosta de ouvir: soluções miraculosas e imediatas para problemas que só o tempo de gerações resolverá (talvez) e o estado a tratar magnificamente de tudo e mais alguma coisa nas nossas vidas.

Que depois nem uma nem outra coisas se verifiquem, é apenas "a nossa sina". Coisa com que até nem convivemos mal.

Mas, não se sabendo governar, o povo português - tendo a oportunidade - governa-se muito bem. Que fizeram os políticos, bancários, gestores de topo que hoje tenham as suas questões com a justiça que um portuguezito médio, podendo, não faria? Comprar umas casitas, uns terrenos, recorrendo a alguma criatividade fiscal; esquecer este ou aquele rendimento, numa declaração fiscal; proporcionar ou aceitar um ou outro favor ou liberalidade; aproveitar a possibilidade de "sacar" um diplomazinho sem grande trabalho...

Que diabo, o português habitual, podendo, faria e fará paulatinamente isso, na sua anónima vidinha, mesmo que trate a generalidade dos políticos, gestores e afins como aldrabões. É tudo uma questão de escala. É aliás muito aceitável entre nós, mesmo louvada, a ideia do político que "roubou, mas fez obra!"

Não nos sabemos governar, mas - podendo - governamo-nos muito bem.

Costa

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