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Espicaçado por um dos nosso mais fiéis comentadores, e considerando que é digna de reflexão por mais do que um motivo, não resisto a escrever sobre uma das notícias que, entre um turbilhão de outras mais, varreu os noticiários e as páginas da net. Falo do questionário feito a alunos do ciclo preparatório da escola Francisco Torrinha, que tanta celeuma deu.

 

Antes de mais, respondo ao nosso fidelíssimo Luís Lavoura, que neste post do Pedro Correia lançou a hipótese do tal questionário ser uma "fake new". Lamento desiludi-lo, mas não é: o questionário foi mesmo distribuído como "ficha sociodemográfica" a alunos do 5º ano (ou 1ª ano do ciclo preparatório, como quiserem), com 9 a 10 anos, perguntando logo à cabeça o sexo e a identidade de género (homem, mulher ou "outro"), se namorava actualmente ou se já tinha namorado antes e se se sentiam atraído/as por "homens, mulheres ou ambos". Repito, isto era o questionário a crianças de 9 e 10 anos. Por acaso sei quem são os pais da criança em questão, e sei também como começou e se espalhou a notícia: numa mera conversa de Whatsapp de amigos, em que se discutem os mais variados assuntos, na sequência da qual o amigo que tinha revelado o questionário a colocou na sua página de Facebook, explicando o seu contexto. O post teve imensos comentários, começou a ser partilhado de forma crescente, qual bola de neve, e no dia seguinte já tinha centenas de partilhas, algumas aproveitadas abusivamente por forças políticas. Não demorou muito até que os jornais se referissem ao assunto, as televisões fizessem directos em frente ao Torrinha, o Ministério da Educação "apurasse informação" e as redes sociais prolongassem a discussão (como quase nenhuma aprovação do documento). A notícia chegou mesmo à Catalunha, com uma breve notícia no La Vanguardia. Fica pois o nosso caro Lavoura esclarecido de que não é uma notícia falsa e que tem aqui uma testemunha disso mesmo.

questionário torrinha.jpg

 

Mas o caso merece reflexão por três razões: a primeira é saber porque que é que estas perguntas foram feitas nesta fase escolar a alunos desta idade que previsivelmente nunca namoraram e que não fazem ideia do que é a "identidade de género" ou "atracção por ambos". Qual é a finalidade do mesmo? Para que serve? E que dados ou resultados práticos se podem extrair daqui? Se é para confundir as crianças, provavelmente acertaram no alvo; se o propósito é mais ideológico, então é caso para preocupação; falava aqui há dias desta tendência para a sexualização da infância, como se se estivesse a formar um exército de autómatos programados e não a tratar de pessoas cujas fases etárias deviam ser acauteladas; e a propósito, é caso para pedir que o Torrinha não organize, no âmbito da "estratégia nacional para a Cidadania e Igualdade de Gênero", visitas guiadas dos alunos do 5º ano ou de outro à exposição de Mapplethorpe, em Serralves, ali a poucas centenas de metros, na outra ponta da "Marechal". A demonstração prática do questionário teria certamente efeitos desastrosos.

 

A segunda é recordar que no ano em que entrou em vigor uma nova lei de protecção de Dados Pessoais - que deu origem, aliás, a um bombardeamento maciço de emails de tudo quanto era empresa ou associação, a pedir consentimento para o tratamento dos dados - possa haver uma interferência tão visível nestes dados, mais a mais sendo crianças e tocando em elementos absolutamente íntimos e que ainda nem sequer estão devidamente desenvolvidos.

 

A terceira é, mais uma vez, a velocidade a que certos assuntos se propagam nas redes sociais: este começou num grupo de whatssap que nem sequer é muito grande, e colocado no Facebook, formou uma vaga surfada depois pela comunicação social tradicional, até fora de Portugal. Tudo isto em menos de 24 horas. Não tinha testemunhado tão de perto estes efeitos, mas é suficiente para causar admiração, e porque não dizê-lo, alguma apreensão. De qualquer maneira, e ao contrário do que ouvi nalguns comentários, não é preciso nenhum Bolsonaro nem nenhum candidato a protoditador para se fazer ouvir: basta a sociedade civil reagir, sem notícias falsas, e colocar as questões devidas em casos de suspeitas de abuso de poder.

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35 comentários

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De Pedro a 11.10.2018 às 18:38

Se fosse no tempo do anterior governo, com o PP na coligação , já imagino a indignação gritada da Esquerda. Nos dias de hoje nem um pio, ou quanto muito um sussuro.

Quanto ao questionamento de tão imoral mete-me nojo (o nojo e o sentido da moral encontram-se ambos no mesmo local do cérebro, a Insula)
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De Rui Henrique Levira a 11.10.2018 às 20:28

Não estaremos nós perante um evidentíssimo,inaceitável e obsceno caso de assédio moral a criancinhas do 5º Ano?
Claro que se o questionário se limitasse a perguntar a rapazinhos do 5º Ano se já namoravam com uma rapariguinha da mesma idade, teríamos um escândalo imenso e as nossas progressistas forças políticas já teriam rasgado as vestes em praça pública, acusando a altas vozes todos e tudo de "misoginia" e de "sexismo". Perguntando o questionário a eles e a elas se se sentem atraídas por um ele, por uma ela ou por uma ele e por uma ela ao mesmo tempo, a coisa segue o sinal dos tempos e não há mácula que se lhe possa imputar. Tendência para a sexualização da infância? Não: é tudo por amor do progresso.
Finalizando, creio que o questionário tem a virtualidade de não agradar a Gregos e a Troianos: se a Troianos como eu (misógino como sou, só posso estar do lado do bando que raptou a bela Helena...) lhes parece do domínio do absurdo questionar petizes de 9 e 10 anos acerca da sua vida sexual (qual vida sexual?!!!), já aos muito progressistas Gregos lhes parecerá nódoa irreparável não ter o questionário incluído as opções da atracção pela "ela" que já foi ele e da atracção pelo "ele" que já foi ela.
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De António a 11.10.2018 às 20:52

Um questionário desses numa entrevista de emprego seria legal?
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De João Pedro Pimenta a 11.10.2018 às 22:06

Boa pergunta. Parece-me bem que não.
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De Terry Malloy a 11.10.2018 às 23:18

O tratamento da pessoa pelo Estado português sofre do complexo de Benjamin Button:

- o pensionista reina supremo;

- o trabalhador é protegido até ao extremo - excepto que tem de ser sangrado em benefício do pensionista;

- a criança pode ser abusada com perguntas que seriam proibidas se feitas ao trabalhador;

- o feto é para abater - e nem lhe perguntam o que perguntam à criança e não deviam.
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De Pedro a 12.10.2018 às 09:14

O pensionista não descontou?

O tralhador protegido, num dos país europeus com mais precariedade laboral?

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De a 12.10.2018 às 23:52

Subscrevo; o comentário supra de Terry Malloya a 11.10.2018 às 23:18. Sublinho "- a criança pode ser abusada com perguntas que seriam proibidas se feitas ao trabalhador;"

(desfasamento entre os comentários/"responder" e a publicação dos mesmos. E não é uma critica.)
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De a 12.10.2018 às 23:57

(*)Malloy
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De a 13.10.2018 às 00:22

(*)crítica
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De a 12.10.2018 às 16:47

[Subscrevo]
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De Rui Henrique Levira a 12.10.2018 às 01:36

Depende: a polivalência é uma "competência" cada vez mais acarinhada pelo nosso Sistema, o qual foi, em tempos que já lá vão, Educativo, o tal que lê com atenção as necessidades de mão-de-obra do tecido produtivo. Presumo até que ao petiz que jogasse nas triplas, lhe fosse prognosticado um futuro profissional brilhante na área do "empreendedorismo", aquele abrangente campo de actividade laboral onde o que importa é o não saber fazer nada, mas perceber de tudo.
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De lucklucky a 11.10.2018 às 21:18

Primeiro obrigado ao autor pelo testemunho.

Isto é "só" a pretensão do Marxismo de género em programar as crianças desde que nascem.

A pergunta não é uma pergunta, quem fez a pergunta está-se nas tintas para as respostas.
As perguntas constroem a cultura e é esse o objectivo.
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De Rui Henrique Levira a 11.10.2018 às 22:03

Se o meu caro LuckeLucky substituísse esse seu Marxismo de género por Trotskysmo de género, concordaria a 100% consigo.
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De João Pedro Pimenta a 12.10.2018 às 22:22

Também há quem lhe chame "gramscianismo de género".
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De Rui Henrique Levira a 12.10.2018 às 23:27

Eu chamo-lhe mais beber farta, gostosa e videirinhamente das virtualidades caóticas da cartilha do Luckács: é na selva que as víboras e os lacraus prosperam; quem nela não sobrevive é a gente decente (embora alguma dessa gente agora pense que nela sobreviverá).
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De JgMenos a 11.10.2018 às 22:05

O lobby gay quer que a criançada saiba desde cedo as oportunidades que se lhes oferecem nesse mundo ideal do seu 'normal' todos com todos.

Mais umas reflexões progressistas e o 'todos com tudo' é o passo a considerar.


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De V. a 11.10.2018 às 22:46

O professor que passou este questionário devia era levar uma carga de porrada de uma família de ciganos.
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De Anónimo a 12.10.2018 às 00:26

Para que soubéssemos:

Um questionário idêntico feito aos deputados e ministros.

Não seria interessante?

Amendes
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De Sarin a 12.10.2018 às 05:12

Estou seriamente preocupada, jpt.

Além do que apontou, aponto outra questão: é o segundo questionário em um mês que coloca, a crianças e veiculado pela escola, perguntas sem qualquer cabimento no contexto escolar - e perguntas que violam, de uma pernada, a Constituição, o Direito de Privacidade, a Intimidade e a Confiança na Instituição Escola.

Não há um responsável identificado, em nenhum dos casos. Como é que os professores colocam a circular nas escolas documentos elaborados por, afinal, ninguém?

Fala na existência de "coro" sobre a matéria. Não tendo FB, meço a indignação pelas notícias e pela blogosfera. E o que li foram pais a não quererem que "o caso tivesse grandes proporções", factos em dois jornais e silêncio das Escolas, do ME, dos parlamentares, do PR, da CNPD, da CPCJ... nem sequer um "obrigadinho" por parte do SEF aquando do questionário do mês passado, nem mesmo um abraço solidário da Rede Portuguesa de Pedófilos por este.

No único postal que li sobre a matéria, e que não conta como leitura por motivos óbvios, digo ser isto pior que o roubo de Tancos. Assim o considero. Pela falta de segurança e controlo, pela perniciosidade, pela desresponsabilização de toda a gente, pela inadequação, pela objectividade das questões e a obscuridade do seu objectivo... caramba, não se trata de uma resma de folhas brancas que por ali estavam sem vigilância e que os putos podiam tirar!
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De Sarin a 12.10.2018 às 05:50

Acho que me enganei quando me dirigi ao autor do texto...
João Pedro Pimenta, espero que me perdoe!

Ainda estremunhada, aquela carta aberta* ao LL fez-me lembrar uma resposta do autor cujo nome usei para o renomear... sou agnóstica, mas fico-lhe devedora das amêndoas pela Páscoa.
E acrescento: li-lhe o comentário de resposta depois de ter lido este postal, e fiquei a pensar quando surgiria "o seu"... :s
As minhas sentidas desculpas!

* Pedro Correia, perante um postal dedicado ainda se espanta com a citação?
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De João Pedro Pimenta a 12.10.2018 às 22:24

Desculpas aceites, Sarin, a confusão com o JPT quando muito poderia ser indesculpável para ele.
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De Sarin a 12.10.2018 às 22:29

Ops! Há um comentador JPT, que presumo não seja o seu co-bloguista jpt... acho que me vou dedicar ao negócio das amêndoas caseiras :D
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De Justiniano a 12.10.2018 às 08:23

E quem é o responsável por tamanha barbaridade??

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