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Um doutor entre senhores

por Pedro Correia, em 30.01.14

 

Ouço uma personalidade com presença assídua nos ecrãs televisivos referir-se a várias figuras europeias. É curioso: são todas "senhoras" ou "senhores": os graus académicos -- correctos ou incorrectos -- tão em vigor entre nós desaparecem mal aludimos a gente de além-fronteiras. Mas subitamente a referida personalidade alude ao presidente da Comissão Europeia em termos diferentes dos utilizados para Angela Merkel, Van Rompuy, Mario Draghi, Martin Schultz ou François Hollande -- chamando-lhe "doutor Durão Barroso". Imporia a mais elementar uniformidade de critérios que, no caso de Barroso, o "doutor" desse lugar ao "senhor" reservado para todos os outros. Mas não: mesmo residente em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia continua a ter direito ao respeitinho lusitano.

Doutor é só ele. Senhores são todos os outros.


22 comentários

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De Isabel Mouzinho a 30.01.2014 às 13:51

É a habitual parolice à portuguesa: um país de doutores e engenheiros, em que até os que o não são se intitulam frequentemente como tal.

Dois exemplos paradigmáticos: os que ao telefone se identificam deste modo "daqui fala a Dra. Sandra", ou os que põem Dr. nos cheques...
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De Pedro Correia a 30.01.2014 às 18:35

O mais intrigante para mim continua a ser a falta de critério: essa mesma gente qualifica de "senhora" ou "senhor" quem viva para lá de Badajoz, por mais doutoramentos que essa pessoa tenha...
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De Mário Pereira a 30.01.2014 às 20:29

Julgo que haverá duas razões para isso:
1. Os jornalistas portugueses não conhecem os graus académicos das tais figuras europeias.
2. Soaria mal chamar a essas figuras "doutor" ou "engenheiro", pela simples razão que isso não se usa por lá.
A solução seria obviamente deixar de pôr esses epítetos às nossas figuras.
Para além de evitar situações como a relatada neste artigo, acabaria ainda com as patéticas licenciaturas "tipo Relvas", ou seja, aquelas que são feitas/compradas apenas para colmatar um complexo de inferioridade dos seus detentores.
Esta saloiice é tão ridícula que chega ao ponto de algumas pessoas não licenciadas nem complexadas terem que andar permanentemente a dizer que não são "doutores".
Enquanto isso não se resolve, continuamos em Portugal a ter duas categorias de "figuras": "doutores" e "engenheiros". E o País continua a definhar...
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De Pedro Correia a 30.01.2014 às 21:19

Ouvi várias vezes pessoas tão diversas como Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa e Baptista-Bastos recusarem o tratamento de "doutor" por não corresponder à verdade.
Doutor é quem tem doutoramento. Na monarquia constitucional compravam-se títulos ao desbarato, com a consequente inflação de barões e comendadores. A república começou por traduzir as formas de tratamento do francês, em nome do igualitarismo jacobino: em França havia 'messieurs'; aqui, por reflexo mecânico, passou a haver uma proliferação de 'senhores'.
Mas cedo foi instituída uma nova casta - a dos falsos doutores - que afronta a raiz da cidadania, como um sucedâneo do baronato de antanho.
Senhor, por cá, passou a ser um termo quase depreciativo - reservado aos novos súbditos. O que diz muito dos hábitos instituídos pelo nosso republicanismo de fachada.
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De Helena Sacadura Cabral a 30.01.2014 às 14:13

Pedro fizeste-me lembrar uma história familiar.
As minhas duas cunhadas têm cursos superiores. À mais velha, um dia, a costureira tratou-a por Senhora D. Ana Maria e logo pediu desculpa por não a ter tratado por Dra Ana Maria.
Lesta, a minha cunhada respondeu: " não se desculpe Maria Amélia, porque doutoras há muitas. Senhoras é que há poucas..."
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De Pedro Correia a 30.01.2014 às 14:51

É bem verdade, Helena, é bem verdade.
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De Ferrugem a 30.01.2014 às 14:33

Presença assídua quando lhe cheira que o país está muito mas mesmo muito precisado de sua excelência. Calculo que seja esse, porque ao zappar o vi e obviamente mudei de canal, porque um sujeito que (segundo os relatos da imprensa de hoje, mas não seria a primeira vez) tem a lata de afirmar que os governos de Sócrates foram bons enquanto lá esteve e deixaram de o ser quando saíu (por motivo de dores na coluna, sublinhe-se, não por divergências declaradas na altura), isto para não falar doutras reviravoltas, não me merece atenção.
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De Pedro Correia a 30.01.2014 às 20:56

Não escutei Sua Iminência. Quando está iminente a sua aparição na pantalha mudo de canal.
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De Ferrugem a 30.01.2014 às 22:04

Bolas, parece que se referia ao que trata os GNR por "senhor guarda" quando os manda desaparecer e não ao que ontem deu uma entrevista, se não me engano na RTP Informação...

Havia de os tratar por "doutor guarda", não?
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De Pedro Correia a 31.01.2014 às 11:03

Só se fosse ao guarda marítimo em situação de afogamento...
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De E esta, hein? a 30.01.2014 às 15:49

Aquela do catavento de opiniões não seria dirigida ao juriconsulto da Quinta da Marinha que mora numa casa que está em nome dos filhos? Se calhar o Marcelo julgou que era com ele e vai-se a ver...
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De Pedro Correia a 31.01.2014 às 11:04

Vou ali a uma jurisconsulta e volto já.
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De ... em tempo a 30.01.2014 às 15:50

jurisconsulto, caraças.
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De Pedro Correia a 30.01.2014 às 19:13

Vou dar já uma volta de 180 graus a ver se percebo de quem se trata.
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De jo a 30.01.2014 às 17:28

Situação mais estranha se pensarmos que, mesmo em Portugal, se omitem os títulos de figuras públicas.
Diz-se Presidente Cavaco Silva e não Presidente Professor Cavaco Silva, Primeiro Ministro Passos Coelho e não doutor Passo Coelho. Do mesmo modo temos o escritor António Lobo Antunes e não o escritor dr António Lobo Antunes, por ex.
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De Pedro Correia a 30.01.2014 às 21:35

Barack Obama é jurista. Mariano Rajoy também concluiu o curso de Direito. David Cameron tem licenciatura em Ciência Política. Angela Merkel é doutorada em física quântica.
No entanto, nunca são tratados por qualquer título académico cá na parvónia. A doutora Merkel é sempre tratada por "senhora Merkel", como se fosse a dona do lugar da hortaliça ali do bairro.
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De JS a 30.01.2014 às 20:10

Será mesmo uma deferência, neste caso, a expressão "Doutor" ?. Ou, uma mais cuidada observação demonstrará apenas um traço de ironia , á altura do personagem, como diria o Álvaro?.
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De Pedro Correia a 30.01.2014 às 21:25

Admito que sim. E detecto também ironia, por vezes, na utilização da palavra "engenheiro"...
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De Costa a 30.01.2014 às 22:00

Doutores que são esmagadoramente apenas licenciados. E então, correctamente, a fazer questão nessa fanfarronice da ostentação do grau académico, seriam todos "lic.". "Lic." nisto e naquilo e até em engenharia (que "engenheiro" não é grau académico).

Mas, enfim, por cá desde o disparate bolonhês que se é mestre ao final dos anos de estudo que até então fariam um licenciado (e ser-se licenciado ou mestre pré-Bolonha é por isso uma legítima vaidade). Não se trata de democratização do ensino. Antes da sua desvalorização. De mais uma faceta do geral triunfo da mediocridade.

Costa
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De Pedro Correia a 01.02.2014 às 23:15

Não por acaso, uma das frases mais famosas do século XX português foi proferida por Vasco Santana no filme 'A Canção de Lisboa': "Ó tias, já sou doutor!"
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De Vento a 30.01.2014 às 22:34

Caríssimo,
concordo. O título é expressivo.
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De Pedro Correia a 01.02.2014 às 23:15

Gosto de títulos expressivos, meu caro. Sempre gostei.
Um abraço.

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