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Um destes dias Marat ressuscita

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.19

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(foto daqui, da Sábado)

Apesar de estar muito longe, e de hoje em dia raramente escrever sobre o que se passa na política nacional, não posso deixar de dizer duas palavras sobre o indecoroso espectáculo a que me foi dado assistir pela televisão a propósito da visita de um tal de Joe Berardo a uma comissão parlamentar da Assembleia da República.

Confesso que não é fácil encontrar palavras que descrevam o que ali se passou, mas grotesco será o mínimo.

E tudo acontece na mesma semana em que as revistas Sábado e Visão mostraram aos portugueses como é possível a um conjunto de pseudo-empresários, pseudo-banqueiros, gestores incompetentes e devedores relapsos levarem vidas milionárias, depois de terem derretido milhões em negócios ruinosos à custa da banca nacional, pública e privada, não pagando a dívida que geraram e deixando os prejuízos para os outros.

No entanto, a avaliar pelas vidas que levam, todos se fizeram pagar pela criatividade da sua gestão, enquanto lhes foi possível, sendo certo que os prejuízos estão a ser, e continuarão, a ser pagos pelos zés-ninguém que sustentam a gula da máquina fiscal e dos bancos que temos.

A imagem de gozo de Berardo no Parlamento, onde se fez acompanhar por um advogado que fazia de ponto, e ao qual condescendentemente o presidente da Comissão deixou que fosse falando e segredando as respostas que o seu constituinte deveria dar, ultrapassou todos os limites.

Depois, o estilo sobranceiro do depoente, as interjeições que foi fazendo, a risada alarve, as respostas irónicas a questões sérias, denunciavam o chico-esperto que a democracia, o Estado de Direito e os nossos sistemas jurídico e judicial fomentaram em quarenta e cinco anos de liberdade com o aval do poder político e da elite dos banqueiros nacionais.

Com tudo o que ouvi, continuo sem saber o que foi verdade e o que é mentira, e também já não tenho esperança de algum dia vir a saber.  Sei é que a dislexia não impediu o cavalheiro de sacar milhões, de continuar a fugir às notificações e de agora gozar com o pagode. Deputados incluídos.

Porém, houve algo que retive, para além do facto do cavalheiro não ter dívidas pessoais. O modo como depois de tudo o que aconteceu se permitiu dizer que tentou “ajudar” a banca nacional, mantendo nos dias que correm um padrão de vida incompatível com a escassez de bens que refere possuir, é um insulto a qualquer cidadão trabalhador e cumpridor das suas obrigações.

O presidente da "Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco" (só o nome diz tudo) e os senhores deputados podem não chegar a conclusão alguma. Ninguém estranhará depois da triste figura que fizeram e daquilo que nas suas barbas permitiram que acontecesse.

E até poderemos ter mais uma dúzia de comissões, na linha do que se passou com a avioneta que caiu em Camarate, por exemplo, para investigarem a CGD e as negociatas a que este banco se prestou, para que agora os seus depositantes estejam a pagar o ordenado dos senhores deputados e dos supervisores do Banco de Portugal e, ainda, os prémios que a CGD irá continuar a oferecer aos seus administradores pelas asneiras, a irresponsabilidade e a desfaçatez com que gerem o dinheiro dos outros e impõem comissões bancárias sem que quem governa coloque um travão aos sucessivos insultos.

Não obstante, há uma coisa de que todos temos já a certeza: a de que à sombra da liberdade, da democracia e do Estado de Direito, num país envelhecido e em acelerada regressão demográfica, um poder político estruturalmente mal formado e manipulado por partidos ainda mais sofríveis, promoveu o aparecimento e a reprodução de múltiplos Berardos. De muitos “Joe”. Na banca, nos partidos, nos sindicatos, nas empresas, nas escolas, no futebol, nas autarquias, nas forças armadas, nas universidades, em todo o lado e em todas as instituições. Como se tivéssemos sido invadidos por uma espécie de formiga branca semi-analfabeta, bem falante e bem vestida, alimentada pelos contribuintes e protegida pela classe política, pelos banqueiros e pelo Estado de Direito.

Pena é que em vez de terem alimentado a canalhada que nos roubou não tivessem andado a produzir mel para oferecer a ursos. Fizessem deles comendadores. Como fizeram a tantos outros ursos. Num Dez de Junho. Teria saído muito mais barato, ter-se-ia podido proteger a natureza e haveria a certeza de que depois de saciados, estes ursos, mesmo sendo comendadores, não iriam para o Parlamento arrotar o mel, rir-se na nossa cara e fugir calçada abaixo das notificações dos agentes de execução.

Enfim, o importante agora é garantir que o circo possa continuar. Em directo e a cores. Com os colaterais que o fisco se encarregará de periodicamente sacar a todos nós, indistintamente, residentes e emigrados. Sem um ui. Aos que conseguiram ficar e aos que foram empurrados para fora da sua zona de conforto. E que mesmo fora não escapam ao linchamento fiscal vitalício, continuando a cumprir. Até um dia.

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19 comentários

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De Pedro Vorph a 11.05.2019 às 21:29

Sérgio, dois apontamentos:

A)Proibição das offshores

B)Eliminação do uso das Fundações como forma de proteger Património pessoal.

Como é que se faz?

Pergunte-se ao jurisconsulto e colega de blogue Prof. Dr. Luís Teles Menezes Leitão. Eu sou mais bolos....

Exemplos:

https://rr.sapo.pt/noticia/150904/berardo-diz-que-e-claro-que-nao-tem-dividas-e-que-bancos-nao-souberam-gerir-creditos

https://zap.aeiou.pt/presidente-braga-dividas-223398

https://www.google.com/amp/s/observador.pt/2018/06/11/dinheiro-do-ges-estava-em-65-empresas-offshore/amp/

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De Anónimo a 12.05.2019 às 10:32

Pedro, Portugal não pode proibir as offshores que não estejam em Portugal. Se reparar, Portugal é uma imensa offshore para quem é estrangeiro, por isso cá temos tantos.
Será sempre difícil distinguir com clareza o que é uma fundação de fachada e uma dedicada ao bem comum. A fundação Berardo parece-me mais útil que a defunta fundação Mário Soares, por exemplo.
Berardo até disse coisas interessantes, a serem verdade;
- foi abordado pela CGD, e disse por quem
- exigiu uma cláusula stop-loss num ponto onde ainda poderia conter os prejuízos
- a CGD decidiu não executar o stop-loss e assumiu a responsabilidade
Se for assim, duvido que o consigam responsabilizar. Se for assim e ele tiver comprovativos pode realmente rir.
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De Pedro Vorph a 12.05.2019 às 12:40

Mas qual é a lógica de um tipo dar como garantia não um património objectivo e real, mas um virtual, um que só será detido pela concessão do crédito....ainda por mais acções de um Banco.

O mesmo seria:

Eu-Quero um empréstimo para comprar ums Quinta no Douro com 70 hectares de vinha.
Banco- Quais os seus rendimentos, património? Que garantias oferece para cumprimento da divida contratada?
Eu- A Quinta ou seja, dou como garantia do crédito, a divida contraida, pode ser?

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De Anónimo a 12.05.2019 às 17:14

Eu creio que já perguntaram isso aos senhores banqueiros e nenhum se recorda.
Se um banco achar por bem emprestar-me milhões sem me pedir garantias não serei eu quem lhas dará. Como não me passa pela cabeça que um banco faça isso comigo, ou, já agora, com ninguém que eu conheço, porque quiserem fazê-lo com Berardo? O homem pode ser um biltre, mas tanto quanto consta não roubou o dinheiro, de quem são as culpas?
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De Tiro ao Alvo a 12.05.2019 às 17:24

Pedro, se o Banco lhe emprestasse o valor da Quinta (o que estaria mal, pois o empréstimo nunca devia passar dos 90% do valor da propriedade) e se você não pagasse (lagarto, lagarto) o empréstimo, o prejuízo do Banco não podia ser muito grande, pois ficava a ser dono da quinta.
Todavia, neste caso, não parece que tenha acontecido coisa semelhante: a administração da CGD mais parece que estava empenhada em correr o Jardim do BCP e mandar para lá, para lugares pagos principescamente, quer o presidente do Conselho de Administração, que o tal Vara. E, então, nem precisou de analisar o risco da operação, bastaria arranjar uns comparsas para terem uma posição elevada entre os accionistas do BCPO e, depois, eleger aqueles senhores, tal como aconteceu.
Agora, o Vara está na cadeia e os outros andam por aí a gozar-nos. E ainda há quem não ache mal.
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De Pedro Vorph a 12.05.2019 às 21:40

Sim, Tiro. Também me parece que houve aqui muito teatro de sombras....

Quanto ao exemplo da Quinta, o Banco poderia vir a ter um prejuizo brutal , em virtude do valor de venda poder ser especulativo/ ter sido combinado (imagine que eu era amigo de quem vendia a Quinta...."inside information" .No caso do BCP o crédito concedido poderia ser usado para sobrevalorizar o valor real das acções - pela compra massiva num curto espaço de tempo- de modo a que os detentores internos das acções pudessem ver-se livres delas, pois estes saberiam o valor real das mesmas....), ou do valor comercial do vinho decrescer.....etc...como sucedeu com o valor das acções do BCP...desculpe se fui confuso
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De Tiro ao Alvo a 12.05.2019 às 17:27

E o Pedro também pode ver isto, que é muito elucidativo: https://observador.pt/2019/05/12/em-2007-o-comentador-marcelo-elegeu-o-comendador-berardo-figura-do-ano/
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De Anónimo a 12.05.2019 às 17:02

Pedro, Portugal não pode proibir as offshores que não estejam em Portugal. Se reparar, Portugal é uma imensa offshore para quem é estrangeiro, por isso cá temos tantos.
Será sempre difícil distinguir com clareza o que é uma fundação de fachada e uma dedicada ao bem comum. A fundação Berardo parece-me mais útil que a defunta fundação Mário Soares, por exemplo.
Berardo até disse coisas interessantes, a serem verdade;
- foi abordado pela CGD, e disse por quem
- exigiu uma cláusula stop-loss num ponto onde ainda poderia conter os prejuízos
- a CGD decidiu não executar o stop-loss e assumiu a responsabilidade
Se for assim, duvido que o consigam responsabilizar. Se for assim e ele tiver comprovativos pode realmente rir.
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De Anónimo a 11.05.2019 às 22:32

O socialismo quando existe é para todos. Mas há uns mais iguais que outros...

lucklucky
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De Anónimo a 11.05.2019 às 22:49

O que seria de esperar?. Com os inquiridos na cabeceira da mesa !. Ao mesmo nível do inquiridores. Curiosamentes estes, os inquiridores, a torcerem-se todos para se dirigirem a quem parece ser quem está a presidir!.
Será que estes deputados nem capazes são de organizar, devidamente, o seu ambiente de trabalho?. Ou será "ordens superiores" ...?.

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De Isabel a 12.05.2019 às 08:48

Berardo só disse em voz alta o que os outros, fingindo-se esquecidos, pensavam.
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De Corvo a 12.05.2019 às 14:27

Sem ofensa para os dignos artífices da construção, o meu pai, antes pedreiro e depois construtor civil, por volta dos meus onze anos uma vez disse-me assim:
- Meu filho, quem é burro vai para pedreiro.
Só mo disse uma vez, nunca esqueci.
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De Pedro Vorph a 12.05.2019 às 16:11

Para mim, a razão está do lado do Berardo, pois todo o sistema bancário, financeiro et cetera e tal assenta numa lógica irrazoavel.

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De Tiro ao Alvo a 12.05.2019 às 17:13

Quer queiram, quer não, o Berardo é, de certa forma, o espelho do país que somos. E não vale nada andar agora a dizer que ele foi longe de mais. Ele, desde há muito, que anda a gozar-nos e muito boa gente até o admirava por isso.
Hoje, no Público, o Vicente Jorge Silva diz dele cobras e lagartos, mas não teve uma palavra para censurar a comunicação social (onde teve e tem grandes responsabilidades - foi director do Público), por ter andado a promover o homem, quase o endeusando. Tal como fizeram e fazem a outros e como aconteceu com o seu (dele, Berardo) “amigo” Horácio Roque, quando ele estava à frende do BANIF – não esquecer que o Estado Português pediu ao Santander para pegar no BANIF ao colo e por isso pagou, a este último Banco, milhões e milhões que estamos todos a pagar, nós e os nossos filhos e netos.
Por outro lado, pouco ouvimos sobre aqueles que lhe emprestaram o dinheiro sem as necessárias garantias, nem daqueles que se governaram a comprar e a vender acções do BCP para correr com o Jardim Gonçalves.
Concluo como comecei: o Berardo é o espelho do nosso país e a culpa não é só dele…
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De Anónimo a 12.05.2019 às 21:32

Tiro ao Alvo, não confunda o país que somos com os políticos que temos.
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De Tiro ao Alvo a 13.05.2019 às 09:03

Não se esqueça que somos nós quem escolhe os políticos.
E note que, se os nossos melhores não se chegam à frente, também têm culpas, ou seja, os nossos políticos são, tambem, o espelho daquilo que somos como comunidade.
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De Anónimo a 13.05.2019 às 18:12

"Nós" não escolhemos deputados.
Escolher directamente o (seu) deputado seria o correcto.
Presentemente quem escolhe os "deputados" são os partidos.
Há uma diferença abismal na conduta parlamentar de estes dois tipos de deputados. Uns fiscalizam o governo. O outro tipo é fiscalizado pelo governo.
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De Anónimo a 13.05.2019 às 19:30

"Não se esqueça que somos nós quem escolhe os políticos." Sim, mas a vaga populista esquece sempre isso. O povo é puro e bom, nunca se engana excepto quando vota: aí escolhe sempre os piores.
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De Anónimo a 12.05.2019 às 21:50

No seu "post" faltam os responsáveis imediatos: os membros do governo da altura.
Quanto a Portugal, estado de direito é, decerto ironia; o mesmo para democracia: de ambos tem alguns tiques exteriores, nada mais.

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