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Delito de Opinião

Um despudorado exercício de sabujice

Pedro Correia, 26.04.22

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A RTP, fiel à sua vocação, fez serviço público. Mas por ínvios caminhos, fornecendo-nos um exemplo concreto do que é a propaganda em larga escala travestida de informação. Em quatro penosos serões dedicados a Vladímir Putin, o agressor da Ucrânia.

O ditador russo foi estrela numa série de entrevistas em Moscovo entre Fevereiro de 2015 e Fevereiro de 2017 conduzidas pelo cineasta Oliver Stone, admirador assumido de Hugo Chávez e Fidel Castro – péssimo cartão-de-visita. The Putin Interviews, transmitidas há cinco anos nos EUA com base em 12 conversas entre Putin e Stone, foram agora desenterradas na RTP3. Deviam constituir material pedagógico em cursos de Comunicação Social. Como demonstração prática do que não deve ser feito.

 

Estamos perante um despudorado exercício de sabujice. Stone coloca o entrevistado nos píncaros. Debitando frases como estas: «O senhor é um verdadeiro filho da Rússia e serviu muito bem o seu país»; «O senhor é um homem de sorte, tem duas boas filhas»; «Está com bom aspecto»; «Podia ser uma estrela de cinema».

Quatro horas de conversa mole, em que o realizador de Platoon assume a cumplicidade com o interlocutor e anfitrião – já depois da anexação da Crimeia por forças russas em flagrante violação do direito internacional. Que isto seja exibido quando a Ucrânia é hoje alvo de um acto de guerra sem precedentes na Europa desde 1945 roça o despudor. Ou até o obsceno.

 

Putin surge sempre em contexto positivo. Disciplinado, trabalhador, dedicado ao país. Visto a cavalgar, a praticar judo, a disputar uma partida de hóquei no gelo. Contemplamos a mansão de campo do entrevistado, com capela privativa guarnecida de ouro, e a piscina olímpica de que o déspota dispõe para seu uso privativo.

Condescendente, serve cafezinho a Stone e até faz de motorista, dando-lhe boleia na viatura oficial entre o centro da capital russa e a luxuosa vivenda no bosque onde passa parte do seu tempo.

Sem genuíno contraditório, quase sem uma questão incómoda, sucedem-se perguntas dignas de um programa de humor. Eis algumas: «Os seus pais tinham orgulho em si?»; «Gosta dos seus netos?»; «Como foi o seu dia?»; «O senhor sabe qual é o seu destino?»; «Alguma vez perde a calma?» Putin responde à última com uma graçola misógina: «Não sou mulher, não tenho dias maus.»

Stone escancara a boca num sorriso alarve.

 

O cineasta humaniza Putin enquando demoniza os EUA, seu país. «Na América, o dinheiro compra o poder», garante. «A estratégia americana é destruir a economia russa», assegura. Em Moscovo, ao contrário do que sucede em Washington, «não há vigarice nem corrupção».

O senhor do Kremlin, lisonjeado, aproveita para debitar mais propaganda: «Somos um país democrático e lutamos pelos direitos humanos.» Com frases dignas de Rei-Sol: «Só temos de agradecer a Deus a oportunidade de servir o nosso país.» O outro faz-lhe vénia.

Parecem dois compinchas em amena cavaqueira. Comparado com Oliver Stone, António Ferro era um modelo de isenção quando entrevistava Salazar.

 

Texto publicado no semanário Novo.

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