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Um desfile de antologia

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.01.16

16679478_Khr7n.jpgNão sei se já todos se deram conta, mas este ano o corso saiu mais cedo. Dentro de dias terá lugar a primeira, porventura única, volta das eleições presidenciais de 2016. A campanha anda na estrada, e depois de uma barrigada de debates o país teme que o arraial em vez de terminar no dia das eleições só comece verdadeiramente na noite de 24 de Janeiro. O caso não é para menos. O painel de candidatos e o dedo de quem marcou a data das eleições a pensar numa antecipação do Carnaval fazem temer o pior.

Sem se saber o que aí vem, há pelo menos dois candidatos que se destacam dos demais pela sua "patusquice". Ver e ouvir as reportagens dos passeios de Vitorino Silva, aliás Tino de Rans, ou Jorge Sequeira são momentos irrepetíveis. São uma espécie de Praça da Alegria ou Preço Certo sem apresentadores, só com figurantes. Tudo em grande, sem conversa fiada, sem tempos mortos. A proximidade do calendário eleitoral com os desfiles do Entrudo tê-los-á inspirado e isso vê-se no ar alucinado que se esforçam por colocar nas suas intervenções. Os projectos são de tal forma delirantes que o sucesso é garantido. Têm o seu público, o seu palco e os seus bailaricos, onde exibem confiantes os seus dotes de dançarinos ou as cores garridas do último grito em óculos.

Depois temos um outro par que ainda não se percebeu bem para que editoras vende enciclopédias. Paulo Morais engasgou-se com a cassete da corrupção. De cada vez que se apresta para dizer alguma coisa pensa-se que será desta. Em vão. A cassete está-lhe atravessada, encravou, e dali só saem slogans de campanha encimados pela melena farfalhuda, como há dias comentava uma eleitora. Quando instado a pronunciar-se sobre o que faria se eleito diz coisas tão profundas e tão documentadas que poderiam ser assumidas por aquele senhor que corre desabridamente pela linha lateral de Alvalade gesticulando e berrando contra a pressão sobre os árbitros e a corrupção. Já o médico Cândido Ferreira tem sido senhor de uma lucidez aterradora. Da afirmação de que é o candidato melhor colocado à esquerda para passar à segunda volta até ao apoio aos suinicultores, assegurando que a ser eleito será um presidente "que sofre com os valores do povo" e que está ao lado deste contra o Intermarché e a GNR, revela-se a cruzada que se antevê em Belém. Um sofrimento diário. Com todos os "consensos importantes à direita" que conseguiu gerar ainda iremos ver Assunção Cristas em Alcanena a comandar a distribuição das febras assadas aos insurgentes.

Num outro nível surge a candidata com iniciais cervejeiras: 2M. Como a velha Mac-Mahon. Salas cheias, quanto mais pequenas mais apinhadas. Com o "Podemos de cá" e o apoio de Pablo Iglésias, depois de sabermos que Marisa é uma extraterrestre que "tem algo de mágico", e que ao contrário das pessoas normais não caminha, avança, o povo aguarda ansioso por saber se plana sobre a água, se faz milagres e se será capaz de gerar uma aparição numa segunda volta. Se isso acontecer espera-se a sua canonização antes de estarem todos grossos e o corso se desfazer.

Ainda a pedalar para se chegar ao pelotão da frente anda Henrique Neto. Desprendido, confiante, corre o risco de fazer o papel de lebre. Aquilo que diz e a forma como o faz levaram já muita gente a questionar se ele saberá que é candidato em Portugal, e não na Islândia.

Num outro país anda há muito Edgar Silva. O candidato que trocou a Bíblia pela leitura de "O Militante" quer os votos dos "amantes da liberdade" e promete ser o "provedor do povo" em Belém. Enquanto essa semente não germinar e não começar a formar-se a fila dos queixosos, mostra estar tão preparado para convencer o seu rebanho como para distribuir velas que alumiem o voto dos camaradas mais inseguros.

Os que sobram são uma espécie de santíssima trindade com lugar cativo no altar da comunicação social. Há um vidente ungido por três ex-Presidentes que dá toques na bola e anuncia "o novo tempo" que irá levá-lo para Belém num andor. A falta de jeito para saltar para o andor é tão grande que alguns se benzem só de o verem a olhar para os papéis.

Uma outra candidata, de seu nome simplesmente Maria, segue formosa e comedida a estrela de Belém. Fá-lo à revelia dos anciãos, distribuindo sorrisos e biscoitos, amparada pelo apóstolo João e por um Assis que com ela aguardará, ansioso, a chegada do Messias. Todos de tabuleiro na mão e senha para o café junto à entrada do refeitório de um lar de idosos de Sernancelhe.

A encerrar o cortejo vem Marcelo "O Casto", que vai percorrendo o país em discreta caravana levando consigo um atrelado de chouriços e torresmos dos mais variados produtores e uma foto de Maria João Avillez na mão direita. Protege-se dos raios solares sempre que pode para os eleitores não pensarem que esteve de férias em Chamonix, e de caminho conta parábolas anotadas e actualizadas, amassa o pão, promete aos fiéis minhotos Ronaldo e Messi juntos na equipa do Braga, confia numa vitória no Europeu de futebol e em mais dois ou três, no mínimo, prémios Nobel durante o seu mandato se for o escolhido. Dizem alguns que na ponta do cajado se vê um mundo de bâmbis coloridos, mas as velhinhas quando põem os óculos dizem que só vislumbram Passos Coelho, Relvas e Montenegro, cada um com o seu chapéu com as cores dos canais de televisão generalistas e vestidos com fatos-de-treino dos principais patrocinadores: uma empresa de sondagens (credível), uma fábrica de sabonetes e um galego que costuma vender baralhos de cartas na estação do Entroncamento.

Por estes dias as apostas estão em alta, por isso espero que não defraudem as expectativas até ao fim da jornada. E embora já tenham sido anunciadas as estrelas para os Carnavais de Torres e de Loulé, ainda há quem tenha esperança de vê-los numa segunda volta. Com as sambistas trintonas já atarefadas a espalharem os cremes, são muitos os candidatos que só pensam nas selfies e na distribuição de panfletos aos foliões. Por ora, a pensar no fartote que aí vem, a rapaziada das matrafonas vai esfregando as mãos, enche as mamas e testa o rímel.



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