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Um desfecho esperado

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.11.19

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(Créditos: May Tse/SCMP)

O Secretário-Chefe (Chief Secretary) do Governo de Hong Kong, Matthew Cheung, tinha avisado, através das páginas do China Daily, jornal totalmente controlado pelo Partido Comunista e órgão oficioso do Governo Central, que o exercício do direito de voto nas eleições de ontem seria um "exercício democrático efectivo", tendo sido garantida uma forte presença policial para que assim fosse.

Confesso que outra coisa não esperava que acontecesse, estando de antemão convicto de que todos aqueles que andaram a manifestar-se nas ruas durante mais de cinco meses tudo iriam fazer para que o acto eleitoral decorresse de forma pacífica e civilizada. Foi isso mesmo que aconteceu, e ainda bem.

Apesar do universo de eleitores recenseados ter aumentado, com uma afluência às urnas de 71,2%, que bateu todos os números anteriores e representou um crescimento da participação de 24,19% face às eleições de 2015, será obrigatório reconhecer que o povo de Hong Kong, isto é,  os residentes a quem a Lei Básica outorgou capacidade eleitoral activa, antigos residentes expatriados, hongkongers e mainlanders que entretanto vieram fixar-se, decidiram participar de forma massiva, para que amanhã não venham dizer que há uma maioria silenciosa que não se manifesta e que apoia o Governo de Hong Kong. 

Ficou provado que não há nenhuma maioria silenciosa a apoiar as forças policiais, nem o Governo de Hong Kong ou as forças pró-Pequim têm qualquer apoio popular visível. 

A forma como as eleições decorreram, ordeira, civilizada e pacificamente, demonstra o elevadíssimo grau de maturidade da população de Hong Kong e a sua preparação para uma vida democrática normal. Sem baias, sem constrangimentos. Quem tivesse dúvidas perdeu-as ontem.

Também os autocratas, empresários do regime e lambe-botas que pensavam que o povo de Hong Kong iria às urnas para condenar as manifestações dos últimos meses e as disrupções à normalidade da vida quotidiana perceberam agora que não tinham razão, atentos os resultados alcançados.

O campo dos partidos pró-Pequim, que em 2015 obtivera 54,61% dos sufrágios, foi absolutamente esmagado pelos resultados obtidos ontem pelas forças do campo pró-Democracia. Homens como Junius Ho, Michael Tien e Holden Chow não conseguiram ser eleitos. Em Sai Kung um miúdo de 21 anos derrotou o candidato pró-Pequim. Notável. Pelo menos 12 em 18 distritos foram conquistados pela oposição pró-democrática.

O mapa eleitoral de Hong Kong mudou por completo, mesmo em distritos que constituíam bastiões das forças tradicionalistas a derrota foi inevitável, e isto será decisivo para as eleições legislativas do próximo ano, visto que de entre os representantes agora eleitos sairão os futuros candidatos ao Legislative Council.

Para Carrie Lam e o seu governo e para Pequim, que a escolheu e contra todo o bom senso a continua a apoiar, os resultados verificados representam uma humilhação em toda a linha, que volta a colocar em causa a legitimidade do Governo de Hong Kong, os seus métodos, em especial a actuação das suas forças policiais, a protecção dada aos bandidos de branco pelo sistema, a intromissão nas empresas privadas de Hong Kong, e a forma abusiva como tem vindo a ser descaracterizado e interpretado o princípio "um país, dois sistemas" pela actual liderança chinesa.

Quem votou não foram os rapazes e raparigas de 12, 13, 14 e 15 anos que andaram a ser identificados pelas forças da ordem, nem foi a meia-dúzia de vândalos que destruiu e incendiou – a convite da estratégia policial deliberada e provocados por infiltrados –, as instalações do Legco, as estações do MTR ou equipamentos e estabelecimentos conotados com empresas estatais chinesas. Foram os pais e os avós deles, foram os cidadãos maiores e responsáveis de Hong Kong, os que se viram impedidos de ir trabalhar por falta de transporte, os prejudicados pela ocupação dos acessos ao Aeroporto Internacional. Quer dizer, os mesmos cidadãos que anteriormente tinham dado a vitória às forças pró-Pequim. Convém ter isto muito presente.

E importa também sublinhar que um dos grandes vencedores destas eleições, talvez mesmo o maior, nem sequer chegou a concorrer por ter sido ilegalmente impedido de fazê-lo, numa decisão kafkiana e perfeitamente arbitrária. Refiro-me a Joshua Wong. A proibição da sua participação teve um efeito contraproducente e até no círculo onde foi impedido de concorrer o seu substituto foi eleito. Vergonha maior para quem o impediu de concorrer não poderia haver. 

Estamos perante um verdadeiro cataclismo, ou um "tsunami de descontentamento" como lhe chamou esta manhã o South China Morning Post. E o caso não é para menos.

Seria bom que perante esta derrota esmagadora, Pequim e o governo de Carrie Lam tivessem a humildade suficiente para perceber a dimensão grotesca dos erros políticos que cometeram ao longo de meses, ignorando a força do clamor popular. O grau de deslegitimação da governança de Hong Kong, a forma como o cartão vermelho foi mostrado pelo povo de Hong Kong, é incontornável.

Quanto a Macau, o próximo Chefe do Executivo também deverá olhar para estes resultados com muita atenção. Ele e os seus apóstolos locais, os campeões das consultas, dos concursos públicos e dos subsídios, e os "patriotas" de ocasião, falantes de português, chinês e "pataquês", se não quiserem seguir o caminho dos seus amigos de Hong Kong.

Não será possível continuar a governar Macau de costas voltadas para os seus residentes, contra a vontade da maioria, esta sim silenciosa, porque nem sequer a deixam ir às urnas, fechando os olhos às negociatas, favorecendo os amigalhaços, os casineiros de vão de escada, as empresas e as associações benquistas à rapaziada local, que depois se condecoram despudoradamente em final de mandato, enquanto casais jovens de residentes locais continuam a viver em casa dos pais, dividem apartamentos minúsculos e contam as patacas de cada vez que vão à praça e ao supermercado, coisas nunca vistas no tempo colonial com muito menos dinheiro.

Na hora do acerto de contas, o Governo Central e o Partido Comunista Chinês não se vão lembrar da bajulação, nem do apoio que antes deu aos visados, durante muitos anos. Ao Man Long, Ho Chio Meng e todos os especuladores "sem terra" das concessões cujas caducidades foram declaradas que o digam.

É melhor começarem a arrepiar caminho, voltando à via justa, que para todos os efeitos não é apenas a legal, mas aquela que sendo legal é ainda ética e moralmente aceitável para a população de Macau.

 

Actualização: "By noon on Monday, the pro-democracy camp seized 17 out of 18 district councils, taking more than 340 of the 452 seats."


7 comentários

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De jpt a 25.11.2019 às 10:36

Obrigado, mesmo.
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De Carlos Marques a 25.11.2019 às 16:08

Podia-se escrever exatamente o mesmo texto mas fazendo estas alterações:
- China - Espanha
- Hong Kong - Catalunha
- pró-democracia - pró-autodeterminação
- Joshua Wong - Oriol Junqueras
- Comunistas - Nacionalistas Espanhóis
- "um país dois sistemas" - "um país várias nacionalidades"

A primeira diferença é que a China deixou-os votar livre e democraticamente em paz, enquanto a ditadura Espanhola roubou urnas de voto e mandou +800 pessoas para o hospital no 1-O (rederendo a 1 de Outubro).

A segunda diferença é a hipocrisia de Portugueses e Europeus (que até impedem Eurodeputados catalães de tomar posse) relativamente aos aitoritarismos, condenando logo os Comunistas (e bem) mas tolerando os Fascistas.

A terceira diferença é que ainda nenhum independentista Catalão incendiou um pró-Espanha, nem espetou uma flecha num Guarda Civil de Madrid. E em Hong Kong ninguém tem falta de vergonha para fazer cargas policiais de carros a acelerar contra pessoas sentadas pacificamente na estrada.

Não há unidade territorial de Espanha que justifique tanta estupidez. Mas há muita hipocrisia e fanatismo ideológico e partidário dos que ainda insistem em não ver os tiques fascistas e autoritários nos partidos Espanhóis que insistem em erradamente chamar de "moderados" e "centristas": PSOE, PP, e Ciudadanos. Nem Franco conseguiu uma propaganda tão eficaz e mentirosa como a conseguida pela atual establishment (tanto em Portugal como em Espanha) que tem, pela via exonómica, os média completamente capturados.
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De O SÁTIRO a 26.11.2019 às 04:21

Comparar espanha com o regime assassino de Pequim que controla TUDO...
desde media.tribunais.empresas TODAS as autoridades desde o politburo até às aldeias nas miseráveis zonas rurais
E nem se sabe quantos assassinos corruptos vivem na cidade proibida (da República popular...)
Só mesmo de DEMENTE MENTAL FANÁTICO POR ASSASSINOS ASQUEROSOS...

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De Anónimo a 25.11.2019 às 22:59

Parece que acordaram. Pensavam que a "ética" comunista não deixaria de comer as liberdades bocadinho a bocadinho?
Talvez ainda tenham acordado a tempo, mas a tenaz vai continuar a apertar.

lucklucky
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De s o s a 26.11.2019 às 00:28

a generalidade do povo de cá só sabe que existem protestos, e como acontece noutros paises da nossa area, a noticia nao sao os protestos mas a violencia dos protestantes.

E é engraçado como aqui os escandalizados por verem dificultado o seu acesso ao trabalho, apoiam o mesmo quando acontece em paises da sua nao simpatia. a questao é velha.

E o Sergio tambem nao ajuda á compreensao da coisa. Antes faz uma leitura conforme ao seu desejo, pois agora transformado em realidade, diz e assim parece.

Desde logo, e continuando no humor, se o resultado eleitoral tivesse sido inverso, nao sei se o Sergio, mas seguramente outros estariam aqui a falar em fraude. Hummmm

Ou seja, nao percebemos se o exito se deve á luta por melhores condiçoes, se sao os que nao queriam a integraçao na china que vislumbram agora oportunidade de regressao.

De todo o modo, nenhuma eleiçao ou protesto pode extravasar a constituiçao. Embora estejamos perante cada vez mais casos de golpes de estado silenciosos, sem armas, so na secretaria.

Felizmente aqui, quer os indignados contra as condiçoes de vida, quer os partidos de direita que agora viraram sindicalistas, nao existe unanimidade para a implantaçao da monarquia, se me faço entender.

Tivemos em tempos um governo de maioria absoluta e muita gentinha acreditou que era a vez de acabar com a democracia...
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De O SÁTIRO a 26.11.2019 às 04:41

Hong Kong foi colónia inglesa.
Aprendeu democracia..investimentos empresas..dinâmica económica e financeira....
Ao contrário de Macau por exemplo que só aprendeu jogo e.....

A abstenção anterior compreende se pq o governo já estava escolhido.
Desta vez a lei do envio para a tortura comunista da mainland obviamente criou MEDO revolta e CORAGEM.

perante os assassinos sem escrúpulos de tianamen, é preciso muita coragem.

Embora os media nada digam TRUMP foi fundamental parao os esbirros NAO esmagarem os cérebros dos estudantes debaixo dos carros de combate.
Pela postura de desafio frontal ao regime genocida de Pequim...(Obama teria ficado a tremer....veja se a humilhação sem precedentes da sua última visita à China como PR EUA....) pela coragem politica contra insultos calúnias de todo o mundo em impor tarifas aos produtos chineses que abalaram a economia chinesa e fortaleceram a EUA ...colocou os dirigentes chineses na defensiva.
E Hong Kong é importante para o investimento na China comunista....

Só FALTA a ONU.UE e claro EUA desafiarem o maior genocídio do planeta ..TIBETE...

o POVO pacífico budista esmagado e metralhado e roubado pelos CARNICEIROS de Pequim...pq tem subsolo riquíssimo.
Apesar da maior afinidade. Milenar...com a Mongólia...os assassinos de Pequim invadiram mataram ocuparam roubam o Tibete..pq a Mongólia é pobre

Mas media governos ONU adoram selvajaria...os budistas do Tibete nao se explodem em autocarros ou metros em Shangai....
Por isso os palestinianos são tidos como vítimas. e do heróico POVO do Tibete nem se fala

MUNDO PODRE ASQUEROSO....


#FREETIBETE...
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De Paulo Sousa a 26.11.2019 às 22:50

No mesmo mês em que se celebra a queda do muro de Berlim, combate-se pela democracia, rua a rua, contra a mais poderosa ditadura da atualidade. As notícias sobre o que está a passar não são proporcionais à importância do que ali se passa. Interpreto isso como um conformismo pessimista da imprensa que nos serve.
O muro de Berlim caiu menos pela força da democracia do que pela fraqueza do regime que o ergueu. A ditadura chinesa não está num momento de fraqueza, antes pelo contrário, e isso deixa os corajosos manifestantes de Hong Kong em maus lençóis.
A China tem sido, e não quer deixar de o ser, um país respeitável nas relações internacionais, mas antes ou depois de 2047, não aceitará um quisto de democracia dentro da sua ditadura. E isso faz o tempo correr contra as forças democráticas do território.
Se no curto prazo o que está na mesa é o controlo pela força dos “vândalos”, a médio e a longo prazo bastará enfraquecer e abalar o peso que Hong Kong tem nos mercados financeiros. Quem é que quer fazer negócios com o cheiro a gás lacrimogéneo nas ruas? Shangai será a alternativa.
Fazer arrastar a turbulência, mantê-la em lume brando, deixando que várias vezes por ano os incidentes se repitam, pode funcionar como um cerco medieval à cidade. Com menos negócios, haverá menos emprego, e os locais logo terão de escolher entre a democracia e a carteira, e sabemos como o estômago leva facilmente a melhor contra o apego aos valores.

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