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Um caso exemplar

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.08.17

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Certamente que todos se recordam de alguns "apagões" ocorridos há alguns anos em Portugal e que a nossa querida EDP veio justificar com a insana actividade das cegonhas. O caso passou, como passaram muitos outros, sem consequências de maior. Alguns bem mais recentes. Por isso mesmo, antes que se perca a oportunidade, gostaria de aqui vos dar a conhecer o que aconteceu esta semana em Taiwan e que de tão bizarro não posso deixar de vos referir.

Por razões na altura ainda desconhecidas, na passada terça-feira, 15 de Agosto, Taiwan enfrentou um apagão, por estes lados designado por blackout, que afectou quase sete milhões de habitações, edifícios de escritórios e estabelecimentos comerciais, mergulhando a ilha Formosa no caos e na escuridão. Seis geradores da maior central de gás natural, a Data Power Station, em Taoyuan, colapsaram provocando uma quebra de 4 gigawatts. Eu que nada percebo de electricidade presumo que seja muito pelo destaque que a notícia mereceu na imprensa local e internacional.

Na cidade de Taipé, os semáforos deixaram de funcionar, bem como noutras áreas da região metropolitana, e houve vários departamentos públicos que também sofreram as consequências. Em resultado disso, os bombeiros receberam centenas de chamadas telefónicas, apesar do episódio não ter afectado os aeroportos, as ligações ferroviárias de alta velocidade, nem as autoestradas. Mais tarde, ficou a saber-se que tudo se ficou a dever a erros de operação, erros técnicos e humanos, portanto, no abastecimento de gás natural à central por parte da CPC Corporation, uma espécie de Galp lá da terra. O problema ficaria resolvido quatro horas depois com o restabelecimento do fornecimento de energia e o regresso à normalidade.  

Mas ficou mesmo? Então não é que logo no dia seguinte, imagine-se, o conselho de administração da Taiwan Power Corporation, uma empresa pública (também as há em estados capitalistas e de economia de mercado), deu uma conferência de imprensa para pedir desculpas pelo sucedido?

Também a Presidente de Taiwan e o primeiro-ministro Lin Chuan vieram penintenciar-se pelo que aconteceu, e fizeram-no já depois de, ainda mais incrível, o ministro da Economia, Lee Chih Kung, que como todos devem calcular deve ser o tipo que anda pelas centrais das empresas de energia que o seu ministério tutela a controlar os fornecimentos e a supervisionar o serviço dos técnicos, a carregar nos botões quando aqueles não o fazem, apresentou a demissão. A demissão. O tipo não fez a coisa por menos.

Por inacreditável que aí por terras lusas possa parecer, a Presidente de Taiwan ainda teve o desplante de dizer à opinião pública do seu país que o incidente pura e simplesmente não devia ter acontecido, e que a quebra do fornecimento de energia não é apenas um problema que afecta a vida das pessoas, mas matéria de segurança nacional. 

Como os leitores calculam, é óbvio que nada disto se aplica ao que se passa em Portugal, onde, com excepção do caso de Entre-os-Rios e das regulares "chicotadas psicológicas" nas equipas de futebol, nada de relevante acontece. Seja no país, nos ministérios, nos partidos políticos, nos tribunais, nas autarquias locais, no sistema bancário, nas empresas públicas ou nas entidades com participação do Estado.

Em Portugal só temos ninharias. Haver bancos e empresas de referência que vão à falência, milhares de depositantes que ficam pendurados, governantes e parlamentares que mentem descaradamente para se protegerem e protegerem a sua pandilha, outros que vivem da caridade dos amigos e da que fazem aos amigos, alguns que lá sobrevivem facilitando e agilizando negócios, dando o dito por não dito, ora recebendo umas míseras ajudas de deslocação ou uns robalos, alguns desconhecendo os impostos que têm de pagar, dirigentes de bancos públicos que querem manter o estatuto que tinham nos bancos privados, um morto aqui, um morto ali, uns arbustos que ardem, umas granadas que desaparecem, uma árvore que cai, privatizações que passado pouco tempo se percebe que deviam dar prisão, enfim, nada disso justifica atitudes tão exageradas como as que tiveram lugar em Taiwan.

Também, com o Verão em grande, o mar tão azul e as autárquicas a caminho quem é que quer saber destas trapalhadas que acontecem numa democracia do outro lado do mundo? 

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10 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 17.08.2017 às 08:30

Passou-se algo de semelhante nos EUA, quando o fornecimento de electricidade foi privatizado na Califórnia. A ENRON planeava cortes no abastecimento de energia com o propósito do preço das acções em Bolsa ligadas à energia - derivados- aumentassem. Houve escutas telefónicas em que os dirigentes da ENRON rezavam por incêndios na Califórnia para prolongarem/justificarem os cortes energéticos.
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De Anónimo a 17.08.2017 às 09:02

Bom dia. Queiram desculpar, mas estão a esquecer-se de um detalhe importante, decisivo, a diferença de culturas. Por cá existem seres infinitamente superiores, por lá uma cambada de atrasados, não é verdade?António Cabral
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De Luís Lavoura a 17.08.2017 às 09:30

O Sérgio está a omitir importantes diferenças culturais.

1) Na cultura chinesa há o hábito de as pessoas pedirem desculpa pelos seus erros. Note-se por exemplo a posição das pessoas na fotografia que ilustra este post, é uma posição que significa humildade, contrição, pedido de desculpas. Na cultura portuguesa atual as pessoas, mesmo na sua vida privada, nunca pedem desculpa. Na cultura portuguesa atual as pessoas são orgulhosas e nunca reconhecem os seus erros - o erro foi sempre, sempre, sempre de outrém. Isto é assim na vida privada, porque não o haveria de ser na vida pública?

2) Na cultura chinesa a sociedade está acima do indivíduo. Na cultura europeia é o contrário. Portanto, se na cultura chinesa a sociedade sofre, o indivíduo tem que se rebaixar, tem que assumir a culpa, mesmo que a não tenha. Na cultura europeia, pelo contrário, o indivíduo tem importância suprema, e só poderá ser considerado culpado se e quando a culpa estiver provada - os danos à sociedade são secundários relativamente aos danos ao indivíduo.
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De Javardoura a 17.08.2017 às 11:22

Sobre o ponto 1:
Pedir desculpas também se pedem em Portugal, mas sem haver qualquer sentimento moral negativo associado ao seu pedido (para ser eficaz o pedido de desculpas deve ser acompanhado de remorso).

Quanto ao orgulho luso não é concerteza menor que o Oriental

Ponto 2:
Quanto à cultura oriental
é por ela assumir o colectivo acima do indivíduo que a faz tão dada a regimes autocráticos e ditatoriais em que conceitos como Direitos Humanos e Sociais lhes passam completamente ao lado. Não vejo aí nenhum bom paradigma.
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De Vlad, o Emborcador a 17.08.2017 às 09:37

Por lá existe a influência do Bushido. Por cá existe uma de "paizinho dos céus" que nos mostra o peso dos Carvalhos.
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De Paulo a 17.08.2017 às 09:49

Aquilo que pede que aconteça em Portugal é completamente impossível. O que seria dos sacanas dos políticos e gestores de impresas públicas? Iriam perder o tacho? Isso nunca! E para além disso os portugueses já estão habituados à incompetencia, à corrupção, à mentira,..
. Como é que iriam reagir à mudança que implique a verdade, a justiça, a coerência, a seriedade, a competência,...? Seria andar para trás mais de 40 anos!
Como tenho dito é postura dos políticos e de quem os segue e envolve é a forma que temos de pagar pela liberdade e democracia. É o nosso fado! Fica muito caro a liberdade e a democracia. E não vejo nem sinto mudanças desse comportamento. Aliás até vejo e sinto diariamente exemplos de agravamento e instalação em alguns casos com a inpunidade legal e até dos juízes.
Esta gente não é séria e estou convencido que sabe que é assim. Que é político ou gestor de empresa pública porque não sabe fazer mais nada e tem como objetivo viver a vida sem esforço e privação. Dois exemplos do que acabei de escrever: Conhecem alguma empresa em Portugal onde faltar ao trabalho pode ser justificado com motivo de força maior? Deputado na assembleia da república! Conhecem alguma empresa em Portugal que depois de terem estado a trabalhar durante um mandato têm direito a subsídio de integração na sociedade de alguns milhares de euros depois de terem usufruído de alguns milhares de ordenado e subsídios mensais? Deputado na assembleia da república!
É isto mesmo. Se a classe política fosse gente séria e exercesse a política com uma atitude nobre, conforme tanto proclamam, nunca permitiriam esta injustiça social.
É por isso que quando comecei a entender qual o objetivo destes políticos, logo tomei uma decisão: Não acreditar neles e não votando. E não sou o único. Os políticos são os responsáveis por este descrédito e apenas o comentam na noite de eleições. Mas sinto-me bem assim e estou de consciência tranquila.
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De glu glu a 17.08.2017 às 10:50

a cada dia que passa este País parece mais pequenino.

e não se vê maneira de desalojar a casta de lacraus que continua a sorver com avidez a pouca dignidade que ainda resta ao Estado.
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De am a 17.08.2017 às 10:54

A culpa em Portugal morre solteira e puta descarada!
---
O nosso Presidente Republica descolou-se (e muito bem) à Madeira inteirar-se do desastre causado pela fatídica árvore e confortar os familiares das vitimas mortais e feridos...
Por estranho que pareça, não me consta que nenhum cardeal ou bispo aqui no Continente tenha manifestado publicamente o seu pesar...

Aquela árvore não morreu de pé... seria por incúria? Dizem que sim... se foi haja alguém que se demita...

Paz aos Mortos.

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De Anónimo a 17.08.2017 às 12:21

Vejamos:
1. Da comissão de peritos encarregada do levantamento dos aspetos técnicos da tragédia na Madeira fazem parte dois especialistas florestais.
1.1 Em entrevistas mais ou menos seguidas, o primeiro declarou que a árvore estava podre, como imagens simultâneas evidenciavam.
1.1 O segundo alertou, muito solenemente, que ainda é muito cedo para tirar conclusões e que não era ainda previsível o tempo necessário!
1.1.1 Entretanto, a árvore, caída e desventrada, esmagava-nos com a eloquência do seu silêncio!...
1.1.2 Entretanto, uma tv informava que o primeiro perito não prestaria mais informações!!!...
2. O Presidente da Câmara em exercício veio à televisão asseverar, muito assertivo e catedrático, que a árvore caída não estava assinalada. Ou seja, pensamos nós, não tinha nome próprio, nem cartão de cidadão, não era de esquerda nem de direita e, muito provavelmente, não estava inscrita em partido nenhum - logo não existia!!!...

Ó gente, este regime não é minimamente decente.
Num regime minimamente decente, as coisas passar-se-iam assim:
1. Há ou não fortes indícios de múltiplos homicídios por negligência?
Há.
2. Então os suspeitos são detidos e é-lhes aplicada a respetiva medida de coação.
3. E segue-se o processo...

E o que é que nós vemos?!
Nada!
Nada, não, vemos uma completa e nojenta impunidade da classe política, que serve e se serve deste sistema pré-medieval.

Porque os mesmos procedimentos conduzem necessariamente aos mesmos efeitos:
- votar é legitimar e ser cúmplice de toda esta merda!
Eu não voto!
João de Brito


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De Vento a 17.08.2017 às 12:48

Li o texto e comparei com a foto. Verifico que essa torre de Babel mantém-se em pé. A outra ruiu porque pretendiam chegar a Deus para terem poder sobre os demais. Por isto mesmo, não só ruiu como não se entenderam mais.

Vai daí, e ocorre Pentecostes. E aqueles rapazes e raparigas, cheios do Espírito Santo, aceitaram o que do Céu vinha falando a língua que todos entendiam. E ruiu o falso mundo aos pés do lenho do crucificado.

Portugal é um país tolerante: tolera que não se exponha a Cruz, tolera que se retire a Vida, tolera que se estabeleçam quotas para fingir o fingimento, tolera que se finja ao casamento onde somente existem pares e tolera algumas torres de Babel; e por isso mesmo fica em ruinas.

Em resumo, o nosso sistema público, político e privado é a cara do que somos, mas disfarça-se muito bem dizendo que se professa o que não se faz. E os que dizem não professar, professam o que não devem. Somos todos tolerantes. Em Taiwan parece-me que é a intolerância que melhor serve.

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