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Um caso de censura

por Pedro Correia, em 03.03.20

 

A censura pode tornar os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.

Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.

A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.


10 comentários

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De Bea a 03.03.2020 às 12:19

Não sei se o dito Alencar gostou da mudança.
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De Pedro Correia a 03.03.2020 às 13:01

Alencar já estava há muito a fazer tijolo.
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De Bea a 03.03.2020 às 19:46

Eu sei. Mas acho que os mortos - por interpostas pessoas - têm sempre uma palavra a dizer sobre o que escrevem e o que fazem aos seus escritos.
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De Isabel Paulos a 03.03.2020 às 13:25

O livro em causa fez parte do programa de ensino do oitavo ano. O meu companheiro, que lá viveu, leu-o aos 13 anos.
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De Pedro Correia a 03.03.2020 às 15:17

Talvez mal comparado, mas Alencar é uma espécie de Júlio Dinis dos brasileiros. Esteve muito em voga no final do século XIX.
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De Isabel Paulos a 03.03.2020 às 16:11

Nunca li nada de Alencar. Pode ser que ainda vá a tempo, mas há prioridades. Antes terá que ser o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Só conheço algumas passagens; uma delícia.

O bom de não ter lido muito, é o manancial de escolha pela frente.
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De Alex.soares a 03.03.2020 às 23:21

Mais vale correr que o tempo vai à nossa frente e nunca mais o vamos apanhar.
Aproveitamos a viagem para ler também Jorge Amado, português cantado embalado por ondas atlânticas de águas de côco e brisas frescas de tardes tropicais no doce balanço de uma rede de baloiço, à sombra soalheira de frondosas palmeiras.
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De Isabel Paulos a 04.03.2020 às 00:23

E a cheirar a jacarandá.
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De Vorph Valknut a 04.03.2020 às 09:54

Muito bom
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De Anónimo a 04.03.2020 às 15:03

Raios, que estou a ficar doente!

Primeiro alembrei-me da Manela Guedes ... ai Nosso Senhor Jesus, ca susto carago!

Depois alembrei-me das beixas que a Anita fez quando conversava com a Meireles e senti-me febril.


Smoreira

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