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Um caso de censura

por Pedro Correia, em 23.07.18

 

A censura torna os jornalistas mais hábeis. Millôr Fernandes costumava lembrar um exemplo ocorrido no Pasquim, uma das publicações mais visadas pelos censores da ditadura militar brasileira nos anos 70 – uma censura que não se limitava aos temas políticos: exercia o domínio repressivo também no capítulo da moral e dos costumes.

Em certa edição da revista, havia que escrever sobre o romance Iracema, de José de Alencar – um clássico da literatura romântica brasileira, que entre outras expressões popularizou à época a “virgem dos lábios de mel”. Convidava à malandrice. E assim foi: o Pasquim lá se debruçou seriamente sobre o romance, numa das suas enésimas edições, tendo no entanto o cuidado de acrescentar uma palavra. Uma palavrinha apenas – no caso, um adjectivo. Grande. A virgem de Alencar passou a ter “grandes lábios de mel”.
A censura, bronca como costumam ser as censuras, nem reparou. Uma singela palavra pode fazer toda a diferença.


19 comentários

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De V. a 23.07.2018 às 12:06

Exactamente o que eu faço quando quero chamar nomes a alguém! Acrescento sempre grande filho disto e grande filho daquilo.
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De Pedro Correia a 23.07.2018 às 18:43

Nunca me ocorreu chamar "grandes lábios" quando quero insultar alguém.
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De Sarin a 23.07.2018 às 18:50

No filme M.A.S.H. o insulto não era "big" mas "hot lips" :)
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De Pedro Correia a 23.07.2018 às 19:00

'Hot lips' é insulto?
Muito me conta...
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De Sarin a 23.07.2018 às 19:14

No filme, era - a Hot Lips era uma mistura de capitã, enfermeira e moralista :D
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De V. a 23.07.2018 às 19:12

Por enquanto não foi preciso — mas nunca se sabe de que recursos semânticos vamos precisar exactamente.
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De Pedro Correia a 25.07.2018 às 15:58

Eheheh. Convém ter algo sempre à mão para o que for preciso.
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De António a 23.07.2018 às 13:33

Pois por cá a censura não parece estimular nenhum pasquim. Cumprem e calam. Por exemplo, nunca mais li nada sobre o fascinante caso da família pertencente a uma minoria que espancou um casal doutra minoria. É tão bicudo e contra a narrativa oficial que nem as Catarinas, Isabéis, Marianas e Marisas sabem como lhe pegar. A ordem parece ter sido abafar o caso.
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De Pedro Correia a 23.07.2018 às 18:44

Ora aí está como um caso bicudo se foi arredondado até dar em nada.
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De António a 24.07.2018 às 11:31

Fosse uma família do heteropatriarcado caucasiano a espancar o casalito e seria o bom e o bonito. Igualdade...pois...
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De Pedro Correia a 25.07.2018 às 15:59

Nada como um anónimo, de focinho tapado, para opinar sobre a cor da pele dos outros.
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De António a 25.07.2018 às 16:55

Não queria antes dizer "sobre a cor do focinho dos outros"?
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De Pedro Correia a 25.07.2018 às 17:04

Focinho têm os que andam com ele tapado.
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De Sarin a 23.07.2018 às 17:45

E, mais uma vez, as minorias a serem maltratadas. Então e os pequenos?!
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De Pedro Correia a 23.07.2018 às 18:44

Deixe estar, Sarin. O tamanho não importa.
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De Sarin a 23.07.2018 às 18:48

Mas os pequenos não devem ser discriminados, Pedro.
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De Pedro Correia a 23.07.2018 às 19:01

Foi isso mesmo que eu disse ao deputado André Silva, do PAN, quando ele afirmou no discurso do Estado da Nação que «a Humanidade representa apenas 0,01% da biodiversidade mundial».
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De Sarin a 23.07.2018 às 19:15

Mais um negligente, portanto...
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De Anónimo a 25.07.2018 às 14:26

E o André Silva disse algo de errado? Porque é que o Pedro Correia tem tanto ódio ao PAN? Será que é porque conseguiu eleger um deputado enquanto o Santana Lopes nem sequer criar o seu partido consegue?
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De Pedro Correia a 25.07.2018 às 16:00

Vai perguntar ao papá como te chamas. Quando souberes podes voltar.
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De Sarin a 23.07.2018 às 18:54

Digo-lhe mais, Pedro: a problemática do fogo está tão relacionada com a discriminação dos pequenos como com o abandono do interior.

Só não percebe isso quem for negligente.

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