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Um adeus desolador

por Teresa Ribeiro, em 12.01.17

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Para mim era um dado adquirido. No dia em que Mário Soares morresse, o país sairia à rua para se despedir. Se aconteceu com Cunhal, em 2005, por maioria de razão sucederia com o principal líder da democracia, um homem que arrastou multidões e cultivou com os portugueses uma relação de proximidade que encontra paralelo só agora, com Marcelo Rebelo de Sousa.

Lisboa cumpriu bem o seu papel. Houve Sol e temperatura amena. Do ponto de vista meteorológico, Soares teve um perfeito adeus português, mas povo, nem vê-lo. Foi um choque assistir à desolação das ruas durante o cortejo fúnebre do "pai da democracia portuguesa" - conforme lhe chamou, e bem, a imprensa espanhola.

Porquê esta indiferença? Porque a memória afectiva já não é o que era e hoje faz reset de quem desaparece por mais de seis meses da televisão, do twitter e do facebook? Neste sentido, e sendo certo que não foram só comunistas a encher as ruas no funeral de Cunhal, pergunto-me: se o líder histórico do PCP tivesse morrido por estes dias haveria o mesmo banho de multidão?

A crise, que tem afastado progressivamente as pessoas dos políticos, também pode ter tido responsabilidade nesta monumental ausência. A democracia e os seus símbolos já não suscitam paixões, vê-se a cada dia que passa por toda essa Europa e Portugal não é excepção. Se é isto, o desaparecimento de Soares reveste-se de simbolismo, porque assinala o fim de um ciclo na nossa democracia. A ausência de povo na sua despedida anuncia o início de outro. Um ciclo que - temo - já nada terá de inteiro e limpo...

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40 comentários

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De Teresa Ribeiro a 12.01.2017 às 18:52

De acordo. Mas Mário Soares foi uma figura de excepção. Um referência para milhões de portugueses. Admito que os mais novos se estivessem nas tintas, mas o país tem uma população envelhecida. O que há mais é gente acima dos 50, com memória viva dos acontecimentos que ele protagonizou. Onde está o povo que o ovacionava como a um rei quando se passeava pelas ruas?
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De Textículos a 12.01.2017 às 19:26

Não nego que tenha sido uma pessoa de excepção.
Há na boca do povo uma série de histórias, verdadeiras ou não, seja dos apoios à fundação, diamantes e Macau, facadas em camaradas apoios a certas figuras, a descolonização.Os mais velhos veem as pensões não chegar ao final do mês, a saúde e a segurança disfuncionais, os filhos e os netos a partir. O dinheiro fluir para determinados grupos e o "socialismo" metido na gaveta. Desiludiu-se!
Leva-me a pensar que o povo agradece-lhe a luta mas desdenha-lhe o percurso. Afinal as pernas da apresentadora ou a parvoíce do apresentador fazem melhor companhia, evitam o frio, confusões e constipações.
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De Eu mesmo a 12.01.2017 às 19:54

Exactamente porque muitos dos que "são gente acima dos 50" constatam que muito do que MS (e seus pupilos) fez, a prazo só lhes complicou a vida actual. E apesar de tudo eles têm memória. Afinal o folclore era nada. Constataram que foram enganados.
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De Teresa Ribeiro a 13.01.2017 às 14:35

Chama folclore ao seu papel - decisivo - na transição da ditadura para a democracia? Ou à aposta que fez na integração europeia?
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De Miguel R a 12.01.2017 às 20:08

Percebeu que ele no fundo não passa de um corrupto e de um vazio no lugar da moral. Percebeu que no fundo isto não passa de uma plutocracia. Liberdade, por liberdade (e...), para ser continuamente explorado, para viver num país aonde, de forma geral, não se valoriza o trabalho e o trabalhador não vale a pena!! É preciso mais, o regime foi incapaz. Se realmente não muda, um dia cai.
Não tenho dúvidas de que Cunhal teria igual moldura. Cunhal foi mais coerente e não desiludiu a grande maioria dos que nele acreditaram.
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De Teresa Ribeiro a 13.01.2017 às 14:55

Cunhal não desiludiu o povo. Já os povos que viveram sob o regime que Cunhal desejava para Portugal, ficaram, mais que desiludidos, exauridos com a esfrega que levaram.
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De Miguel R a 13.01.2017 às 18:18

Exauridos? Não sei, o problema essencial de qualquer regime totalitário é a falta de liberdade e de democracia política, bem como os meios empregues para as cercear. Agora o regime em que vivemos também tem os seus. E é o que eu digo, basta os políticos representarem os seus eleitores, não grupos de interesse económico. Convença-se: vivemos numa plutocracia travestida de democracia. Celebrar o dito "pai" disto? Aquele que disse o que disse sobre Salgado? Defendendo-o? Não. Em meu nome não. O Presidente da República que tenha mais vergonha na cara, a opinião dele não é a de "todos, mas todos", nem da maioria, sequer.
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De lucklucky a 12.01.2017 às 20:49

"Mas Mário Soares foi uma figura de excepção. Um referência para milhões de portugueses."

Isso é sua opinião de pessoa do complexo político-jornalista.
Os sítios onde se movimenta não deixam ver o que se passa.

Mas devia mesmo assim ter chegado a quem faz parte da elite e não vê Trumps, não vê Brexits e não vê ruas vazias.
Por exemplo lembrar-se que Mário Soares perdeu o voto para Manuel Alegre...

Já há muito que as opiniões das pessoas sobre Mário Sores não é aquilo que o jornalismo do regime propaga(nda) que são. Pelos vistos essa propaganda engana alguns dos próprios.

Algum jornalismo do regime já o sabia, ao fechar as caixas de comentários. Uma demonstração do fechamento do regime.


"Um ciclo que - temo - já nada terá de inteiro e limpo..."

Limpo como intimidação para não reeditar o livro de Rui Mateus? Como os assassínios feitos pela Esquerda e depois amnistias para as FP-25?
E há muito mais sujidade.
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De Teresa Ribeiro a 13.01.2017 às 14:59

Já outros o disseram, por estes dias. Alguns nunca foram seus apoiantes, mas factos são factos: os erros que Mário Soares cometeu e foram muitos, não ensombram o que fez pela nossa democracia.

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