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Último reduto

por Cristina Torrão, em 26.04.20

Em mais um dos meus passeios solitários, dei com uma inscrição a giz, no passeio. Uma passagem da Bíblia, mais propriamente, do Evangelho segundo São Mateus.

2020-04-23 Bíblia no Passeio (1).JPG

Traduzido à letra: “Vinde a Mim, quando tudo se torna pesado (ou difícil) demais”.

Fui procurar a versão portuguesa, pois todos sabemos como são problemáticas as traduções da Bíblia. Tive inesperada dificuldade em encontrar a passagem, só com a ajuda da internet lá fui, devido a um pequeno erro na inscrição. Não se trata de Mt 11,18, mas de Mt 11,28. E, como tenho duas Bíblias portuguesas, deparei com duas versões diferentes (uma da Difusora Bíblica, na sua 15ª edição, de 1991; outra intitulada “a Bíblia para todos”, tradução interconfessional, publicada entre nós pela Sociedade Bíblica de Portugal, numa edição de 2009):

“Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei”.

“Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso”.

No fundo, estas diferenças não são relevantes. O importante é aquelas palavras me terem feito parar, olhar para elas durante momentos, fotografá-las. Quando me resolvi a continuar, não imaginava que depararia com mais duas citações bíblicas (a qualidade das fotografias não é boa, as condições sol/sombra não facilitaram). Desta vez, vou usar apenas a tradução da publicação mais recente. Da primeira Epístola de São Pedro:

2020-04-23 Bíblia no Passeio (3).JPG

“Confiem-Lhe todos os vossos problemas, porque Ele se preocupa convosco.”

1 Pe 5,7

E a passagem bem conhecida do Salmo 23 (que até estava ilustrada):

2020-04-23 Bíblia no Passeio (6).JPG

“O Senhor é meu pastor, nada me falta”.

Deus é o nosso último reduto. Perante situações que nos ultrapassam, é a Ele que apelamos. E a verdade é que regressei a casa mais calma, com menos receio de que não ultrapassássemos esta crise. Como se tivesse encontrado pelo caminho alguém que me garantisse que Deus está connosco.

Deus não é uma máquina de resolver problemas, nem é o génio saído da garrafa que nos satisfaz desejos. Ele apenas nos ampara, nos dá força. Em vez de pedirmos a Deus que nos tire os obstáculos da frente, devemos pedir-lhe força para lidar com eles. E, quando as adversidades nos ultrapassam, ajuda pensar que a solução talvez não esteja nas nossas mãos. "Eu dou o meu melhor, o resto é com Deus" - por vezes, basta este pensamento para nos sentirmos mais aliviados e corajosos.


34 comentários

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De Vorph "Girevoy" Valknut a 26.04.2020 às 12:09

Curiosamente nunca tive necessidade de deus. Quer dizer, talvez a partir dos meus 13 anos deixei de a ter. Apenas por uma singela razão e não por causa de mortais e esquisitos pensamentos. E essa razão resumia-se ao seu Silêncio. Cruel, sacana.
A partir daí andei para a frente sem necessidade de um deus que me aparasse os golpes. A vida comecei a vê-la como ela é*(1). E as religiões como rebuçados que adoçam a vida amarga*(2). Umas inventadas, outras não, as vidas e as misérias. A maioria das religiões são semelhantes a contratos comerciais, em que o patrão promete ao empregado, sob coacção, que caso o trabalho seja bem feito terá um aumento, um benefício, no final do turno. Caso "não entregue" espera-o a tortura eterna.
Já li a Bíblia, a traduzida por Frederico Lourenço, e não as traduzidas por escolásticos ou outros sócios gerentes. É hedionda, cruel. deus Pai, manda matar crianças, mulheres inocentes, e por fim o seu filho (um Essénio alucinado). Manda arrasar comunidades inteiras, em seu nome e no nome do seu amor . São cometidos assassínios em massa sobre populações cujo único "pecado" era terem outros deuses, que não esse, de múltiplas personalidades, ora chamado Jave, El, Elohim, ou Jeová (estranho como numa religião monoteísta deus mude de nome tantas vezes. Quem sabe se com o propósito de esconder o que mandou fazer) E até chega a apostar com Satanás, por capricho, e nada mais, a vida de um fiel devoto, matando-lhe mulher e filhos. Porventura por causa disso, durante centenas de anos a Bíblia foi obra proibida. Não por causa de um conhecimento potente que permitisse ligação directa ao grande Arquitecto. Mas com a intenção de se esconderem todas as loucas maldades que por lá se lêem.
Não necessito de deus para encontrar o caminho ou levantar-me do chão. Basta-me uns poucos amigos, mortais e não imaginários, a minha família, um passeio pelas montanhas, uma contemplação do firmamento, uma música, um silêncio. Perante a Maldade, gratuita, do mundo, o sadismo, a saldo, do Homem, são-me esquisitas, deixam-me reticente os devotos de um deus que sendo omnisciente, omnipotente, omnipresente nunca se mostra, nunca se queixa, deixa andar. Deus morreu. Deus fede.

*(1)

https://youtu.be/vqTJMOqn5LU

*(2)

Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

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De Cristina Torrão a 26.04.2020 às 12:42

Tem razão em muito do que diz, caro Vorph.
Eu também não simpatizo com o Velho Testamento. E tenho sérios problemas em acreditar num Deus como o descrito na Bíblia. Mas acredito na força que guiou Jesus. Não sei de onde vem, mas acredito nela.

Também quero ler a Bíblia traduzida por Frederico Lourenço. Tinha planeado comprar o Novo Testamento agora em Abril, quando devia estar em Portugal...
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De Vorph "Girevoy" Valknut a 26.04.2020 às 13:33

"Não sei de onde vem, mas acredito nela."

E se vier de si? Do que viu, sentiu, ouviu, aprendeu, leu. Dos que amou, dos que a amaram, dos que não amou , dos que a a não amaram?

O problema é que não podemos apagar o Antigo Testamento. Ele existe, foi escrito, ditado por deus e é por isso que é lido na Missa (algumas partes, apenas, que escondam outras, essas, para serem usadas em ocasiões onde o ódio traz proveitos)
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De Cristina Torrão a 26.04.2020 às 18:35

«E se vier de si?»

Talvez...

É sempre interessante lê-lo, Vorph.

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De Anónimo a 26.04.2020 às 18:16

Sobre este tema, nunca mais esqueci o magnífico livro "O Mal no Pensamento Moderno" de Susan Neiman, que no seu capítulo "O grande Arquitecto" apresenta três proposições mutuamente incompatíveis:

1. O mal existe.
2. Deus é omnipotente.
3. Deus é benevolente.

Uma delas tem forçosamente que cair. Será a primeira? Não me parece.
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De Cristina Torrão a 26.04.2020 às 18:47

Penso que o mal, como entidade independente de nós, não existe. Existem acções más, pensamentos maus. Se não existirem pessoas, não existe mal.

Deus é benevolente, mas não sei se é omnipotente. Ele não impede que uma pessoa faça o mal, porque não está em condições de a impedir. Como também não pode impedir catástrofes naturais. Ele só pode agir através de uma pessoa que o sinta no seu interior.

É isto prova de que Deus não existe? Talvez. Não lhe sei dizer.
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De Joca a 26.04.2020 às 20:16

"Penso que o mal, como entidade independente de nós, não existe."
Que bom pensar (acreditar) assim!
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De sampy a 27.04.2020 às 11:32

Eis um pensamento terrível e extremamente perigoso. Considerar que o ser humano é a fonte do mal, que o mal é elemento constituinte e inseparável do ser humano, significa que a nossa redenção é uma impossibilidade.

Levado às suas últimas consequências, tal implica considerar que a erradicação do mal exige o extermínio do ser humano. Soa familiar?
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De Cristina Torrão a 27.04.2020 às 15:14

O mal é um conceito humano - é diferente de "o ser humano é a fonte do mal". Sendo um conceito, o mal não existe por si só, nós é que definimos certas acções como sendo más. Costuma dizer-se que a natureza é cruel, mas não é, porque a crueldade existe apenas na nossa cabeça. Criámos conceitos como "mal" e "crueldade", o que acho muito bem, porque atingimos um nível de pensamento sofisticado e tornou-se necessário regular o nosso comportamento.

Normalmente, os outros animais só exercem o "mal" e a "crueldade" por necessidade. A nossa sofisticação levou-nos a exercer o mal pelo mal, a crueldade pela crueldade. Mas não é preciso exterminar o ser humano para erradicar o mal. Nós somos maus por defeitos de educação (quer por imitação do mal que vemos os outros exercer, quer por situações e circunstâncias mal resolvidas - a agressividade recalcada, por exemplo; ou ter sido vítima de injustiças e violências). É verdade que a tendência para fazer o mal é inata, pois a nossa origem é igual à dos outros animais. Porém, é possível educar, orientando a mente da criança para praticar o bem. O problema é que pouca gente sabe como o fazer...
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De sampy a 27.04.2020 às 21:11

"O mal é um conceito humano".
Deus é um conceito humano. O amor é um conceito humano. As estrelas são um conceito humano. Está a querer dizer que nada disto existe por si só? Que não são realidades objectivas, existentes de forma externa ao ser humano?

Estamos de acordo que há uma dimensão subjectiva do tema. Mas reduzi-lo ao subjectivo (ou ao subjectivo humano) é um erro.

(Sabendo que há grandes diferenças na forma como as filosofias e as religiões abordam esta magna questão.)

Imaginemos um cão afectado por um cancro ósseo. Ou um gato que morre sufocado depois de se ter enfiado num buraco donde não consegue sair. É um mal?
Nenhuma das situações foi originada pelo ser humano. Não é então um mal?
O mal existe apenas na nossa cabeça, como conceito. Se ninguém tiver consciência da existência dos dois bichanos, nada de mal lhes aconteceu?
Fora do ser humano não há mal nem há bem. Se o cão sofre de cancro, pois que sofra. Se o gato morreu, morto está. É o acaso. É o destino. São as leis da natureza, é a ordem do universo. Acata, respeita. Sobretudo, não intervenhas.

Quanto à interpretação de que a prática do mal no ser humano é inata e de que a prática do bem é aprendizagem, vou passar à frente, que isso daria para um tratado.
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De Cristina Torrão a 29.04.2020 às 08:40

Caro sampy, tudo isto dava um tratado filosófico, e, em casos desses, é difícil chegar a um acordo. Mas vou explanar o meu ponto de vista, pois entendeu-me mal em alguns aspectos.

Deus, amor, estrelas - realidades objectivas

Deus e amor não são com certeza realidades objectivas. Deus não é uma realidade palpável, nem se pode provar que exista; já quanto ao amor, apesar de também não ser palpável, posso provar que amo alguém; as estrelas sim, são uma realidade objectiva, matéria e energia susceptíveis de serem descritas em fórmulas químicas. Por isso, é muito difícil de dizer se Deus e o amor existem só por si, de forma externa ao ser humano. Quanto às estrelas, sim, elas já existiam há biliões de anos, antes de surgirmos, mesmo antes de ter surgido o planeta Terra. E, depois da nossa extinção, elas existirão ainda durante biliões de anos.

«São as leis da natureza, é a ordem do universo. Acata, respeita. Sobretudo, não intervenhas» - estou longe de pensar assim. Afinal, sou humana! E, sendo humana, possuo moral e ética. Como eu disse no meu comentário anterior, os humanos desenvolveram um pensamento sofisticado e devem actuar, sempre que se trate de minorar ou evitar o sofrimento. Sou incapaz de ver um animal a sofrer, não acho que eles sejam muito diferentes de nós humanos e, em tempos que já lá vão, até fui, neste blogue, como comentadora, apelidada de "imbecil infantilizada".

Não sei se viu um post que publiquei há tempos sobre a minha cadela Lucy. Ela morreu em Outubro passado, a duas semanas de completar o 16º aniversário. Durante um ano, esteve doente, com insuficiência cardíaca. Sofria desmaios e podia morrer em qualquer um desses desmaios (e acabou por morrer de um). Os medicamentos permitiram prolongar-lhe a vida e, sempre em contacto com a veterinária, considerámos que ela tinha qualidade de vida suficiente para continuar o tratamento. A Lucy vivia de maneira normal, adorava dar os seus passeios, interessava-se por tudo o que fazíamos em casa (ela sempre viveu em casa, como se fosse um membro da família), tinha alegria, comia bem. Nunca se pôs num canto, apática, sem interesse por aquilo que a rodeava, apesar de estar surda e quase cega. A veterinária e nós éramos de opinião que, enquanto assim fosse, não devíamos desistir dela.

Esta doença da Lucy condicionou muito a nossa vida. Estivemos um ano em casa, mesmo nas férias, recusámos todos os compromissos que implicassem estarmos mais de 4 ou 5 horas fora de casa e não fomos passar um único fim-de-semana fora. Qualquer canseira, ou stress, podia ser fatal para ela, ou seja, não podíamos viajar sem ela, nem com ela. Depois de ela morrer, em Outubro, apesar de muito tristes, ficámos naturalmente um pouco aliviados. Vivo na Alemanha, a última vez que estive em Portugal foi em Setembro de 2018. Comecei logo a fazer planos para finalmente ir aí, neste Abril. Mas veio a crise da Covid-19... Apesar da desilusão, não me arrependo de um único segundo que passei ao lado da Lucy. Eu sabia que ela morreria, se eu a deixasse com alguém, mesmo que fosse bem tratada. O stress de não nos ver, nem saber quando nos veria, matá-la-ia, tenho a certeza. E, num caso desses, eu viveria arrependida para o resto da minha vida. Assim, apesar de triste, enquanto não puder viajar, vivo de consciência tranquila, pois fiz aquilo que devia ser feito, aquilo que Deus (ou a minha consciência) me disse para fazer. E tudo isto, porque eu amava a Lucy. E amava-a, porque sou humana.

Como vê, quando eu digo que a natureza não é cruel, porque a crueldade é um conceito humano, não estou a dizer que devamos ficar indiferentes ao sofrimento animal. Sendo humanos, sabendo o que é sofrimento, mal e crueldade, possuindo moral e ética, não podemos ficar indiferentes e devemos actuar, sim, é obrigatório actuar, perante casos, como, por exemplo, o daquele toureiro Moura e dos seus galgos. Casos desses, aos olhos humanos, são crimes. E os criminosos devem ser castigados.
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De Cristina Torrão a 29.04.2020 às 08:41

Continuação (não coube no comentário anterior):

Quanto à prática do mal no ser humano ser inata e a prática do bem ser aprendizagem, é verdade que, das minhas palavras, se pode depreender isso. Mas não foi isso que quis dizer, admito que, neste caso, me expressei mal. Estávamos a falar do mal e referi apenas o aspecto de a tendência para fazer o mal ser inata. Na verdade, o que eu penso é que, tanto a tendência para fazer o bem, como para fazer o mal, são inatas. Fazemos o bem, ou o mal, ainda antes de conhecermos esses conceitos ou sabermos o seu significado. A arte de bem educar está em orientar para cada vez mais bem e cada vez menos mal. Mas isso torna-se quase impossível, se os próprios pais mentem, enganam, são invejosos, corruptos e resolvem conflitos através da violência. Mesmo que digam o contrário e, ainda pior, castiguem as crianças por actos que eles próprios se fartam de cometer, não se podem queixar, se os filhos lhes seguem os exemplos maus.
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De o cunhado do acutilante a 26.04.2020 às 12:21

Sendo eu profundamente crente em Deus, ou no mistério denominado Deus, a palavra bíblica não me diz nada e nem uma vírgula me merece a menor das reflexões.
A Bíblia foi escrita pelos homens e desde que a palavra foi inventada sempre serviu para realizar uma vontade ou um desejo. Passada da oralidade à escrita, o propósito foi a maneira mais conveniente da propagação da vontade de uns sobre os outros.
Traduzindo melhor, quero dizer que cada um escreve aquilo que entende ser para si o mais conveniente.
De muito novo e numa situação deveras dramática, ouvi da minha mãe, isto:
- Meu filho; Deus disse, bota mão que eu te ajudarei.
Foi o que fiz. Com Deus na cabeça, botei mão, e fui.
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De Pedro Oliveira a 26.04.2020 às 15:18

Caro familiar do acutilante,
Os seus dois últimos parágrafos, sublinham, reforçam, validam aquilo que Cristina escreveu:
"Eu dou o meu melhor, o resto é com Deus".
Partilho aqui uma história com quase 50 anos, teria eu 4 ou 5 anos de idade.
Diz-me a minha tia Amélia: "até amanhã, se Deus quiser"
"E se Deus não quiser, tia?'"
"Deus quer sempre, filho, basta nós querermozio muito"
(escrevi a última frase com uma marca de oralidade, na aldeia onde cresci, era e é assim que falamos).
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De Anónimo a 27.04.2020 às 02:13

Até amanhã se Deus quiser.
Para quem é religioso esta frase não faz sentido: o que acontecer amanhã, bom ou mau, ou seja viver ou morrer, será sempre por que Deus assim quis.
Há quem diga que estes: até amanhã se Deus quiser, ou se Deus quiser isto ou aquilo, pouco ou muito, tudo ou nada, falhar ou concretizar, são resquícios do oxalá muçulmano.
Numa crónica de um viajante inglês de visita a Lisboa e arredores, em 1749, aparecem vários registos interessantes entre os quais são as ruas imundas, as mulheres de baixa estatura e raramente vistas fora de casa, em cada dez homens dois ou três são padres, as pessoas dizem se Deu quiser frequentemente e os homens bebem muita água.(parece o vinho era intragável)
Também se diz que o até amanhã se Deus quiser, o sinal da cruz quando o bebé abre a boca e o santinho quando se espirra foram modos que ficaram ao longo dos tempos quando se morria como tordos com as epidemias ao longo dos anos.

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De Luís Lavoura a 27.04.2020 às 15:52

A expressão "se Deus quiser" diz-se em português e não em inglês ou em alemão porque, muito simplesmente, é uma expressão herdada dos árabes. Eles estão sempre a dizer "inch'alá", que quer precisamente dizer "se Deus quiser". Nós herdámos a expressão dos árabes, que como se sabe ocuparam Portugal durante vários séculos
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De Cristina Torrão a 27.04.2020 às 18:20

Há uma expressão alemã equivalente: "so Gott will" - "assim Deus queira". Significa sensivelmente o mesmo. Talvez não se diga tão frequentemente como em Portugal, mas não tenho a certeza. A Baviera, por exemplo, é profundamente católica. Lá ainda se cumprimentam as pessoas com "Gruß Gott" - "Deus te saúde". Talvez ainda se use muito o "so Gott will", não sei. Vivo no Norte luterano.

Herdámos o "oxalá" dos mouros, sim. E também a saudade.
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De Anónimo a 28.04.2020 às 02:37

Não o 'inch'alá' mas sim 'ua xá illáh', que deu o castelhano ojalá e o nosso oxalá.
Oxalá significa: e queira Deus que algo aconteça.
Por isso dizemos frequentemente oxalá que Deus queira.

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De o cunhado do acutilante a 27.04.2020 às 17:10

Com certeza, Pedro Oliveira. Nem laivos de contestação me preencheram o pensamento.
Só pretendi dizer que a fé não é o remédio para a resolução da desventura. Se queremos mudar a situação desfavorável, temos de ser nós a trabalhar por ela.
Porque fé, o que é, afinal?
Nada mais é do que a esperança alicerçada numa hipotética probabilidade à concretização dos nossos desejos.

Sua tia, minha mãe, outras tias e outras mães. Gerações sábias. Já não se fazem iguais.
Cumprimentos e votos de excelente saúde.
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De Anónimo a 26.04.2020 às 15:33

Minha senhora,
um mínimo de documentação — tendo duas bíblias em casa — chega para se esclarecer.
Não ligue ao animal VV.
Que Deus a ensine e a proteja.
rs
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De Vorph "Girevoy" Valknut a 26.04.2020 às 19:01



Ora aqui está um bom discípulo
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De sampy a 26.04.2020 às 22:57

Estou condenado a espantar-me com isto: ver gente crescida e vacinada, que cumpriu a escolaridade obrigatória e até cursou sem andar a comprar pacotes de farinha Amparo, e que permanece prisioneira de uma visão infantilista acerca de uma obra que é património universal da Humanidade.
Pretendendo (pasmo duplamente), a partir dessa mesma posição, criticar eficazmente e desmontar as convicções infantis de um bom número de crentes (ou que se assume como tal).

É como observar duas crianças a discutirem sobre se existe ou não o coelho da Páscoa que põe ovos de chocolate. E no fim, vão ambas caçar pokémons.

Caramba, não estudaram História? Literatura? Filosofia? Psicologia? Antropologia?...
Como compreender metade da arte produzida nestes dois milénios sem ter uma Bíblia nas mãos?
Não leram os mitos? Referem Frederico Lourenço e a sua tradução da Bíblia. Não vos soa uma campaínha na cabeça? Sim, é também o tradutor da Odisseia. E da Ilídia. Apenas um acaso?

Um crente e um descrente sensatos estarão sempre de acordo: 99% da Bíblia é criação humana, é humanidade (e desumanidade também). Apenas divergem no 1%. Assim como um crente esclarecido tem plena consciência de dever ser muitas vezes um ateu, quando reconhece que a maioria das imagens de Deus veiculadas são apenas ídolos, fabricação humana, fantasmas ou projecções do seu inconsciente.

Seria pedir demais que experimentassem ler René Girard, Régis Debray, Geza Vermes, Thomas Römer?...
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De Luís Lavoura a 27.04.2020 às 15:57

uma obra que é património universal da Humanidade

Não é bem uma obra. São várias obras, com diversos autores e que expõem pontos de vista frequentemente distintos. O Antigo Testamento é extremamente diferente do Novo, e dentro de ambos há também grandes diferenças entre os diferentes livros.
Há ou houve, ademais, polémicas sobre quais as obras que devem fazer parte da "obra". Em particular, os quatro evangelhos canónicos foram uma escolha polémica. Alguns evangelhos foram excluídos, outros incluídos, na "obra".
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De sampy a 27.04.2020 às 19:43

Obrigado, Lavoura, por nos explicares que não sabes que a "obra" se pode usar como substantivo colectivo.
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De Anónimo a 26.04.2020 às 23:16

Os crentes devem imaginar que os ateus, os agnósticos, e, na generalidade, os panteístas descomprometidos, são menos sensíveis a causas humanistas ou incapazes de lidar com a adversidade.

A Humanidade continua centrada em si própria sem se dar sequer ao trabalho de olhar para as estrelas e para um futuro pós-humano.

Continuam a preferir o aconchego da ilusão e a orientar as suas vidas por livros velhos e decrépitos que nem chegaram a ler e pouco mais são que ideias virais a prometer a salvação. Não conseguem sequer imaginar o mérito de viver uma vida que não tenha continuidade além da morte.

É triste.
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De Anónimo a 30.04.2020 às 17:27

É isso mesmo.
A religião cristã, como a conhecemos por cá, tem dias, como diria o outro.
Prefiro o que restou para a filosofia e tendo os 'pecados mortais' passado para as leis civis. 'A fé é que nos salva' é uma ideia para 'combater o inferno' se não nos portarmos bem, entenda-se tratar bem as pessoas (humanismo). Por isso a fé, para os crentes, é para o que se vai passar depois da morte.
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De Paulo Sousa a 26.04.2020 às 23:21

Essas frases de "faço o meu melhor e o resto é com Deus" ou "se as coisas correrem mal é porque o mereço" são quase suficientes para distinguir de que religião estamos a falar. No fundo cada uma propõe um abordadem diferente de relação do individuo com o divino, com o desconhecido, com a adversidade.
Estas duas frases acima quase que resumem a diferença entre o protestantismo e o catolicismo.
Podemos levar o assunto muito a sério, mas também nos podemos rir com isto.

Espero quer consigam ver esta imagem que aqui deixo o link. É quase um tratado de teologia.

https://www.myconfinedspace.com/wp-content/uploads/2007/10/religions.bmp
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De Luís Lavoura a 27.04.2020 às 09:26

No fundo, estas diferenças não são relevantes.

As diferenças entre as "traduções" portuguesas não são relevantes (em minha opinião), mas as diferenças entre as "traduções" portuguesas e a "tradução" alemã parecem-me muito relevantes. As portuguesas falam de cansaço e opressão, e prometem alívio. A alemã não fala de opressão, nem sequer de cansaço, e muito menos promete alívio.

Não sei qual das "traduções" é mais fiel, se é que alguma é minimamente fiel. Mas são substancialmente distintas.
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De sampy a 27.04.2020 às 11:56

É provável que as citações tenham sido bebidas de uma Bíblia luterana, ou evangélica. Os protestantes são um pouco mais liberais nas traduções do que os católicos.
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De Anónimo a 27.04.2020 às 14:50

O que dizer das traduções, das traduções via USA, adaptadas à 'riqueza material'
quando é 'adulterada' a passagem «é mais fácil um camelo passar por um buraco duma agulha que um rico entrar no reino dos céus».
Nalgumas traduções desapareceu este ensinamento, noutras desapareceu «um rico».
Mas, ao longo de centenas de anos foram sendo alterados, via tradução deficiente ou propositada, muitos versículos originais já, também, mal traduzidos (por ausência da palavra certa) do aramaico para o grego
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De Jorge a 28.04.2020 às 20:43

Na primeira frase em Alemão a tradução está mal feita. Wenn significa "se" e não "quando" que é wann.
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De Cristina Torrão a 29.04.2020 às 08:34

Não é bem assim, Jorge. "Wann" só é "quando" em perguntas, por exemplo, "quando vais às compras?"; "quando viste o jogo", etc.

Se fala de algo que se repete, utiliza "wenn", que pode significar "quando", no sentido de "sempre que", por exemplo: "quando vejo este filme, farto-me de chorar", ou o exemplo do post: "vem ter comigo, quando estás triste".

Mas é verdade que "wenn" pode ser uma tradução para "se", tanto nos exemplos anteriores, como no condicional: "se quiseres, eu vou ter contigo".

"Quando" pode ter ainda outra tradução, em alemão: "als" - para situações descritas no passado e que só aconteceram uma vez: "quando fui às compras, encontrei fulano".

"Wann" só mesmo como pronome interrogativo.

Especificidades da língua alemã
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De Jorge a 29.04.2020 às 16:48

Ok. Tens razão. Fica bem

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