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Ui, ui, hoje é o meu dia!

por Teresa Ribeiro, em 08.03.15

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Quando me perguntam se gosto de ser mulher, respondo que não. Lamento, mas neste aspecto não soube evoluir. Desde que percebi, ainda na primeira infância, que o mundo é dos homens, este sentimento ficou-me colado aos ossos e não há campanha publicitária de pensos higiénicos que me faça mudar de ideias.

Esta rejeição, que cresceu comigo, nada tem a ver com problemas de identidade sexual. Gosto de cor-de-rosa, de bebés e de sapatos, portanto não há qualquer dúvida, sou muito estereotipada, o que paradoxalmente só veio agravar a relação conflitual que tenho com o meu género desde que me conheço.

Gostava em menina de brincar com bonecas, mas não da terna displicência do meu avô, que só tinha conversas com o meu primo, mas não sabia do que falar comigo. Identificava-me com as princesas das histórias de encantar, mas detestava que me apontassem as regras de comportamento "próprias de uma menina" - sempre mais restritivas que as dos meninos - e ainda mais que fossem a minha mãe, as minhas tias e a minha avó a ditá-las. Gostei de crescer com estas mulheres, mas revoltou-me perceber que, por razões diferentes, todas abdicaram de uma maneira ou de outra do que podiam ter sido só pelo facto de terem nascido com um par de ovários.

Na vida adulta pus-me à prova. De um lado os meus ressentimentos e reivindicações feministas, do outro a realidade, esse tapete onde caí tantas vezes por KO. E tem sido esta a minha vida. Sempre a sopesar o que sou e o que somos. Eu e as mulheres. Eu e elas. Eu que sou elas.

Admiro as mulheres que dizem que se orgulham de ser mulheres, mas quando as oiço não consigo iludir a tristeza funda que me nasce da consciência de que o fazem pela necessidade de se afirmarem como iguais.

A misoginia, a doença infantil do homem das cavernas, continuará a discriminar, segregar, matar, estropiar e escravizar milhões de mulheres em todo o mundo. E é a consciência disto que me mata à nascença o prazer de pertencer à tribo e ainda mais de festejar esta data. Festejar o quê?

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8 comentários

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De Anónimo a 08.03.2015 às 17:14

Grande texto, Teresa!
Revejo-me muito nele.
:-) Antonieta
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De Teresa Ribeiro a 09.03.2015 às 00:03

Obrigada, Antonieta :)
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De Cristina Torrão a 08.03.2015 às 18:50

Eu também me revejo.
E acrescento mais duas situações (em criança):
- estar com o meu irmão, o meu primo e o meu pai, eles em conversa animada, eu a querer acrescentar algo, ou a dar a minha opinião, e ninguém me ligar, eles a continuarem a conversa, como se ninguém tivesse falado;
- estar aborrecida em casa, o meu irmão a brincar na rua, eu a dizer à minha mãe que ia ter com ele e ela a dizer não, que eu era menina e que as meninas não brincavam na rua.

Um dia, vi-me tão angustiada, que disse à minha mãe que queria ter nascido rapaz. E que respondeu ela? Que eu tinha de ter paciência, claro, que era por demais conhecido que as mulheres tinham de sofrer mais do que os homens...
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De Teresa Ribeiro a 09.03.2015 às 00:13

São me bem familiares essas duas situações, Cristina. Assim como o discurso sobre a paciência e abnegação, toda uma pedagogia que sempre me fez brotoeja :)
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De lucklucky a 08.03.2015 às 20:22

Bom texto apesar de não estar completo:

"discriminar, segregar, matar, estropiar e escravizar milhões de mulheres em todo o mundo."

Incluí as abortadas, ou essas não têm sexo?
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De Teresa Ribeiro a 09.03.2015 às 00:19

Se se refere às crianças mortas à nascença ou abortadas por serem do sexo feminino - acontece muito na China - claro que também faz sentido incluí-las nesta lista de atrocidades.
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De Susana A. a 09.03.2015 às 12:36

Este texto toca ao de leve numa questão que me parece de toda a importância: muitas vezes são as próprias mulheres que, conscientemente ou não, vão transmitindo e perpetuando a discriminação através dos filhos. Seja porque nunca questionaram os princípios que lhes foram incutidos, porque os acreditam verdades universais, ou por simples inércia.

Já ouvi da boca de mulheres que "elas" são piores condutoras. Já vi mulheres que ensinam as tarefas domésticas às filhas, mas permitem aos filhos uma distância inquietante às mesmas. Dois exemplos num mar de possibilidades quase intermináveis.

Dou aulas numa escola primária, e há poucas semanas, meninos do 1º ano (sim, 1º ano de escolaridade no ano de 2015), ficaram chocados quando, num tom informal e a propósito de um trabalho sobre peças de roupa, sugeri a possibilidade de lavarmos roupa na sala de aula. "- Nem pense, professora! Isso é trabalho de mulher! Não pense que vou fazer isso, elas que façam!", entre outras coisas verbalizadas com tal agressividade que me garantiram muitas horas a pensar no assunto.

O princípio fundamental da igualdade de género ainda não chegou a muitas mulheres. Quando isso finalmente acontecer, estaremos no bom caminho: a apenas 18 anos de distância de uma nova geração de adultos que sabem que o potencial de qualquer ser humano se mede pelas suas ambições, pelos seus valores e pela sua determinação, e não pelas suas características sexuais (ou cor, ou idade, ou classe social...)
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De Teresa Ribeiro a 10.03.2015 às 00:02

As mulheres, não tenhamos ilusões Susana, são co-responsáveis pela transmissão desta cultura sexista aos mais novos. Fazem-no acriticamente, por inércia, inconscientemente ou por convicção. Se porventura não são as de casa, são outras a passar estes valores às gerações mais novas. Cultura é isto. Entra-nos pelos olhos, pelos ouvidos, pelos poros e por isso é sempre tão difícil mudá-la.

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