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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia.

por Luís Menezes Leitão, em 27.03.14

 

Ao contrário do que sustenta o Pedro Correia, parece-me evidente, como aqui escrevi, que o comportamento da União Europeia na crise ucraniana foi de uma gigantesca irresponsabilidade, especialmente devido à excessiva influência alemã na Europa. Como é óbvio, tal não implica considerar que a Rússia não tenha sido agressora neste âmbito, mas quem conhecesse um mínimo de lógica geopolítica sabia que isso iria acontecer e poderia e deveria tê-lo evitado. É isso o que se faz todos os dias na arena internacional onde, por muito que gostássemos, as coisas não são a preto e branco, e todos sabem que não se pode alterar o status quo sem haver consequências, podendo as coisas ficar muito piores.

 

Kissinger referiu que, durante a presidência de Nixon, os EUA foram avisados pela URSS de que poderia haver um litígio com a China. Em linguagem diplomática, isso significa que preparavam uma guerra, tendo tido a imediata resposta de que os EUA não ficariam indiferentes perante um ataque à China, o que levou a que a guerra não tivesse ocorrido. Em 1990 Saddam Hussein perguntou à embaixadora dos EUA o que pensava de um litígio entre o Iraque e o Kuwait tendo tido como resposta de que os EUA não tinham opinião sobre litígios entre países árabes. Naturalmente que o Kuwait foi invadido e os EUA viram-se obrigados a travar uma guerra com muitos mais custos neste âmbito.

 

Hoje sabe-se que os EUA, depois da crise e com a presidência Obama, deixaram de estar disponíveis para ser o polícia do mundo. Sabe-se também que a dissolução da URSS criou um seriíssimo problema de populações russas espalhadas pelas antigas repúblicas soviéticas, cuja protecção foi assumida por Moscovo, e que têm vivido de forma mais ou menos autónoma em relação ao país onde estão. Quando em 2008 a Geórgia decidiu ocupar pela força as suas regiões da Ossétia do Sul e da Abkházia, de maioria russa, teve imediatamente uma invasão da Rússia, tendo ficado bem claro para todos que a Rússia não deixaria de agir em defesa das suas populações, estivessem elas onde estivessem. E argumentar que a maioria era outra antes das deportações da época soviética, como sucedia com os tártaros na Crimeia, é anunciar que pode haver novas deportações, agora de russos. Só que não é possível fazê-lo sem entrar em guerra com a Rússia, como esta já deixou bem claro.

 

Todos sabiam isto quando começou a crise ucraniana. Ora, Ianukovich podia ser um bandido, mas fora eleito democraticamente, com os votos das populações russas, podendo ter sido substituído nas eleições subsequentes. Apenas porque ele tomou a decisão de não assinar o acordo com a União Europeia, foi deposto num putsch à antiga, e substituído por um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que declarou ilegal o uso da língua russa no país. Como é óbvio, esta atitude poderia atirar a Ucrânia para a guerra civil, pois é claramente uma declaração de guerra aos russófonos, dizendo-lhe que os seus votos já não contam pois o governo passa a ser eleito na praça. Alguém imagina que as populações russas não reagiriam e que a Rússia ficaria quieta? Imagine-se o que teria sido se em Portugal em 1975 dissessem ao resto do país que os governos iam passar a ser formados por uma manifestação de extremistas no Terreiro do Paço. O norte do país não aceitaria e o leste da Ucrânia também hoje não o admite, como se vê por esta manifestação em Donetsk.

 

O bom senso implicaria que a União Europeia tivesse imediatamente dito que o novo governo não era reconhecido e que só assinaria o acordo de associação com um governo democraticamente eleito por todo o país. Foram a correr reconhecer o novo Governo, prometeram mundos e fundos aos novos governantes, e já assinaram o acordo, só que já não sabem com que Ucrânia. É por isso evidente que a actuação europeia foi de uma enorme irresponsabilidade. Se isso não desculpa a invasão russa, também não deve levar a que não se apurem as responsabilidades europeias por este desastre. Desastre de que ainda só vimos o princípio, pois parece-me que a procissão ainda vai no adro. 


30 comentários

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De xico a 27.03.2014 às 08:32

Excelentemente colocado.
De facto a Ucrânia foi agredida, por um grupo de irresponsáveis que se manifestaram numa praça, empurrados por outros irresponsáveis da UE.
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De Francisco Seixas da Costa a 27.03.2014 às 08:58

Concordo no essencial
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De Roger a 27.03.2014 às 09:12

Caro Luís Menezes Leitão.
Seu texto tem muitos equívocos (eu estou na Ucrânia e não opino à distância).
Ninguém proibiu a lingua russa. O que o governo fez foi voltar a situação anterior (alterada por Ianukovich) que definiu o ucraniano como lingua oficial (publicações governamentais). O governo interino foi formado na RADA (democraticamente eleita) e apenas legitimado na praça de independencia (ja que eles não aceitariam nenhum dos 100 maiores ricos, nem envolvidos com corrupção. Ter raízes russas é uma coisa. Ser russo é outra. Uma grande parcela de "ucranianos" do leste fala russo, mas são ucranianos. Não vejo nada de mais uma população ser bilingue (ou mais). O Mercosul faz isso com todas as crianças. Enquanto isso portugueses e espanhóis preferem falar em inglês (entre si) do que entender um a linguagem do outro (que não são tão diferentes asssim, da mesma forma que russo e ucraniano). O que nos une é muito mais próximo do que o que nos separa. A Ucrânia tem o direito de ser livre e manter tratados comerciais com todas as partes. A Rússia é o maior comprador de produtos ucranianos e maior fornecedor de energia (petróleo, gás e nuclear). Isso não vai (nem deve) mudar da noite para o dia. Mas a tomada da Criméia não pode ser aceita de forma alguma. É muito fácil encher a região de russos (depois de Estaline expulsar os tártaros ao final da segunda guerra) e deixar que "eles" decidam o destino. Foi o mesmo que aconteceu na parte oeste da Ucrânia que antes da 2 guerra era de Polónia, Hungria e Roménia. Criméia tem que voltar à Ucrânia. Malvinas tem que voltar à Argentina. E Olivença tem que voltar a Portugal. A regra tem que ser a mesma, senão não existe lógica nem moral...
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De Luís Menezes Leitão a 27.03.2014 às 10:16

A parte final do seu comentário parece esquecer que a recomposição territorial que defende normalmente significa guerra. Foi o que se passou nas Malvinas. E se começamos com essas pretensões, temos uma série de guerras na Europa, onde até a parte oeste da Ucrânia pode ser objecto de reivindicações dos Estados vizinhos. Por exemplo, em relação à Hungria vale a pena recordar que o seu território actual é hoje um terço do que já foi. Não podemos por isso entrar neste tipo de discussões, senão nunca mais acabamos.

Não vale a pena procurar ignorar a questão linguística, que é o maior elemento da identidade de um povo. Quem ao nascer aprende a língua russa, considera-se russo, mesmo que pertença a outro Estado. O facto de depois aprender outras línguas em nada altera a questão. As nacionalidades não se decretam: sentem-se.
Conheci uma vez um cidadão brasileiro no Rio Grande do Sul, que me disse que na aldeia dele nesse Estado só se falava alemão e que ele próprio até aos 8 anos nunca tinha falado outra língua. Depois o Brasil entrou em guerra com a Alemanha e o alemão foi proibido, o que levou a família apenas a falá-lo em casa, tendo ele ficado aterrorizadíssimo. Por aqui se pode ver como uma comunidade sente uma medida contra a língua que fala.
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De Anónimo Desconhecido a 27.03.2014 às 11:11

É evidente que há opiniões que se escrevem de forma leviana, há quem ainda não tenha conseguido sair do PREC, adiante.
Claro que o argumento de que há um século a maioria da população era Tártara e agora teriam que agir como se ainda fosse, é meio tonta, se não iríamos ao limite de ter que declarar o Estado de Israel como ilegal ou até devolver os USA aos índios...as realidades vão se alterando, as fronteiras não são imutáveis. O exemplo que dá do Terreiro do Paço é excelente, gostaria de ver algumas reacções se a manifestação dos Indignados tivesse levado à tomada do poder e formado um governo, se seria considerada legítima por alguns escribas de serviço.

Cumprimentos
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De lucklucky a 27.03.2014 às 20:38

"...se não iríamos ao limite de ter que declarar o Estado de Israel como ilegal ou até devolver os USA aos índios..."

Interessante como um Português nunca fala do que lhe está próximo, só possível pela lavagem cerebral do 25 de Abril:

Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Timor independentes seriam ilegais não é?

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De Anónimo Desconhecido a 27.03.2014 às 23:15

Se lhe lavaram o cérebro, não sei, já reparei que escreve mais rápido do que pensa, por isso acredito que desconheça que Angola, Moçambique, Guiné e Timor já eram habitados antes de os europeus lá chegarem, daí não entender a sua lógica, supondo que tem uma. De qualquer modo pode usar os exemplos que entender quando escrever, assim como eu usarei os que entender, se não se importar, se se importar, paciência, não leia.

Cumprimentos
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De Roger a 27.03.2014 às 16:20

A situação nas Malvinas foi totalmente inversa. E, mesmo assim, a posição da UE é contraditória. Não podemos ter 2 pesos e duas medidas. O Brasil, tal como os Estados Unidos é formado por uma diversidade de povos que, naturalmente mantém suas linguas materna. Mas quem nasce no Brasil é brasileiro, independente de ser descentende de portugueses, espanhóis, alemães, italianos, russos, ucranianos, etc. (tem de tudo lá)...
Russos e Americanos (falo dos governos e não das pessoas) fazem besteiras todo o tempo. Quando querem não ouvem (ONU, Conselho de Segurança).
Ainda vamos ver um filme (de ficção) sobre as armas de destruição em massa do Sadam...
Só lembrando que foi o Bush que colocou o Durão na presidência da CE. Ele declarou "este é o nosso homem" depois de receber autorização para usar os Açores...
Não acredito em guerra (militar), mas em guerra econômica.
Fronteiras não podem (devem) mais ser alteradas à força. Deve ser um processo legal como a Escócia está fazendo (para finalmente se libertar dos ingleses).
Mas muitos conflitos ficam congelados. Ou são absuramente tratados como no caso de Israel criada "em cima" da Palestina (com gente vivendo lá).
Foi absurdo.
Resolver estas questões todas não é fácil. Mas dar o poder de escolha à populações que foram artificialmente colocadas no local não é o correto. As Malvinas são argentinas e Olivença é de Portugal. Isso vai ser corrigido? Pouco provável... A não ser que alguns "russos" locais peçam socorro ao Putim. Putim sabe muito bem que se ele fechar a torneira (gás, petróleo, nuclear), a Europa acorda no escuro. Mas se ele perder estes clientes, não recupera mais...
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De Luís Menezes Leitão a 27.03.2014 às 18:04

As Malvinas são argentinas e Olivença é de Portugal. Só é pena que o Reino Unido e a Espanha não concordem. E os habitantes das Malvinas e de Olivença também não. O que quer fazer então? Uma invasão, como no tempo do General Galtieri? Se bem me lembro, isso foi o seu fim.
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De Roger a 27.03.2014 às 18:37

A solução para Olivença e as Malvinas é bem fácil. Basta colocar meia dúzia de russos em cada uma. Depois eles mandam um e-mail para o Putin reclamando que estão sendo discriminados e ele faz o "trabalho sujo". Depois que os noruegueses explusaram os pescadores portugueses, a Rússia se tornou o principal fornecedor dos peixes com os quais se fazem bacalhau (lembrando sempre que "bacalhau" não é um peixe, mas charque de determinados peixes). A Rússia também é o maior cliente portugues de draw-back na área. Eles (russos) pescam os peixes, enviam para Portugal (tudo de bom a nossa tecnologia na área) e recebem o bacalhau de volta. Ajudar Portugal será fácil para Putin. Já os argentinos...
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De xico a 27.03.2014 às 14:10

Corrija-me se estiver errado. Têm mais a ver os povos da Ucrânia com os da Rússia do que os da Ucrânia com os Tártaros.
Porque tem então a Crimeia de voltar à Ucrânia? Não foi a entrega da Crimeia à Ucrânia na década de 50 do século passado, feita à revelia da vontade dos seus povos? Fazia parte integrante do território ucraniano?
Se quer comparações com Olivença então a Crimeia ter voltado para a Rússia foi aquilo que era justo, uma vez que nunca foi da Ucrânia.
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De Roger a 27.03.2014 às 18:28

Caro Xico.
Estaline expulsou todos os tártaros da Criméia em 1944. EKhrushchev, encheu de russos...
Khrushchev a Criméia para a Ucrânia em 1954. E não foi "feita à revelia da vontade dos seus povos". Os "povos da Criméia" foram deportados. E os Ucranianos da parte leste, mortos de fome (holomodor).
Matar os residentes e encher de russos não dá moral para reclamar algo.
O que foi realmente "feita à revelia da vontade dos seus povos" foi a criação de Israel em cima da Palestina...
A Criméia teve muitos donos diferentes em sua história: cimérios, búlgaros, gregos, citas, romanos, godos, hunos, bizantinos, venezianos, genoveses, kiptchaks, turcos, tártaros, russos, soviéticos, nazistas, ucranianos...
Logo a Criméia foi da Ucrânia e é isso que vale hoje em dia. Olhar para o passado não é solução.
Os indios americanos e brasileiros podem reclamar algo? Os Incas, Maias e Astecas?
Qual o limite moral para voltarmos ao passado e "corrigir" as coisas?
Dos descobrimentos portugueses apenas Açores, Madeira e Cabo Verde estavam "vazios"...
Quando falo de Olivença voltar a Portugal falo o que seria "legal"...
Nossos hermanos se esquecem de algumas coisas (só lembrar de reclamar Gibraltar).
A Espanha se apropriou de Olivença como a Russia se apropriou da Criméia (e o Reino Unido se apropriou das Malvinas). Não podemos ter 2 pesos e 2 medidas...
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De Costa a 27.03.2014 às 15:08

O caso das Malvinas, que invoca, oferece uma questão interessante e que talvez aí seja muito mais forte do que nos outros que refere: as Malvinas poderão estar a meio mundo de distância do Reino-Unido (melhor, das ilhas britânicas), mas a sua população nada tem de argentino: é britânica de hábitos, de tradições, de língua e, a acreditar nos dados existentes (que não parecem obtidos ou processados de má-fé), manifesta-se esmagadoramente pela sua pertença ao Reino-Unido .

Poderá dizer que há por trás disso questões muito mais poderosas: de bancos de pesca a reservas petrolíferas e a rotas marítimas. O que se quiser invocar e que esteja ligado ao dinheiro e a outros interesses sem "coração". Queira-se ou não, aliás, onde haja gente ou gente possa chegar há interesses desses. É da natureza das coisas.

Mas isso, que poderá manchar a pureza ética de um interesse de Londres no arquipélago, manchará de igual modo o interesse de Buenos Aires nesse mesmo arquipélago. Sendo que Londres parece de forma inegável ter o coração dos habitantes das Malvinas e que, historicamente, apesar da proximidade geográfica, não parece haver relevantes e duradouros registos de integração das Malvinas no estado e povo argentinos.

Sabemos aliás, sejamos honestos, quanto do ressurgimento da vontade argentina de anexar as Malvinas, e a sua ainda recente e desastrosa tradução bélica, se deve ao caos interno desse país e à conveniência de criar algo que desviasse e unisse o fervor popular. Não será talvez por isso descabido, arriscaria, admitir que as Malvinas tenham sido e sejam, para o poder argentino, um instrumento e não um fim.

O princípio da auto-determinação dos povos, de invocação tão pressurosa quando nos convém - sendo que o desfecho na Crimeia não me parece sem mais e necessariamente uma sua manifestação, pois o medo das armas cala muitas vozes e nem todos têm ou têm que ter vocação para heróis ou mártires -, deveria, parece-me e face ao se sabe da vontade dos habitantes das Malvinas, levar-nos a chamar a essa ilhas as Ilhas Falkland.

Costa

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De jpt a 27.03.2014 às 10:11

excelente, o mais esclarecedor que já li sobre a questão
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De Luís Lavoura a 27.03.2014 às 10:39

Excelente post.
Falta talvez acrescentar que o novo governo ucraniano, não apenas retirou ao russo o estatuto de língua oficial do país, como também proibiu a emissão ou retransmissão das rádios russas na Ucrânia - uma medida ditatorial inqualificável.
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De cristof a 27.03.2014 às 11:44

Excelente informação eriquece o blog e os leitores.Falar de legalidade dum governo da p. maidan com a votação dos habitantes da Crimeia é moralmente pouco etico. Como se vê a UE anda a reboque dos EUA onde devia deixar de apoiar governos consequencia de trabalho da contrainformação Londres/Washington como se vê mais claramente na Libia. Iraque, Egipto, Venezuela. Ou gostamos da seriedade/transparencia na politica que dizem gostar ou ainda somos mais hipocritas que a China ou regimens identicos que dizem não gostar logo a partida.
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De Vento a 27.03.2014 às 12:23

Creio que devemos colocar o tema na correcta dimensão. A agressão russa foi legítima e foi uma resposta de defesa. Não era desejável para qualquer um de nós, mas era necessário que eles o fizessem.
Efectivamente a UE, na dimensão expansionista alemã que deseja marcar uma posição no mundo que somente ambicionou mas que sempre falhou, usou a ingenuidade revolucionária de uma parte da população ucraniana para demonstrar uma vitalidade que não possui.
Os alemães pensam que compram apoios e que o poder do dinheiro é capaz de angariar força. Mas a realidade mostra que se são bem sucedidos em termos de apoios e já lhes falta a força para concretizar planos.
Paralelamente tem feitos acordos de armazenamento e distribuição de gás (Grazpom versus BASF) que cai que nem ginjas uma vez que se situa em seu território e simultaneamente permite-lhe adquirir participações na exploração do gás em território russo.
De tal forma isto tem sido uma verdadeira alhada que são os tradicionais aliados europeus, os EUA, que ficam entalados nesta política de meninos.
Os russos são vivos, sempre o foram apesar de muitas barbaridades ocorridas ao longo da história. Mas eles sempre tiveram consciência de quais eram os seus verdadeiros interesses e quando deviam lutar por eles.

Na realidade, a Alemanha já tinha ensaiado uma escusada vaidade e pantominice no caso do Chipre. Mas como sempre convenceram-se que tinham ganho a batalha e lá continuaram com seus desafios face à Rússia. E o resultado aqui está.

Por último, era obrigação dos líderes ucranianos, conhecedores que são das diferentes sensibilidades em seu território e dos interesses realmente estratégicos da Rússia naquela parte do mundo, ter bom senso em suas actuações.
Não tiveram, levaram na corneta e agora a UE vai andar a fingir solidariedade até ver o que vai fazer em concreto.
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De Vento a 27.03.2014 às 13:51

Permita uma adenda a meu comentário. Somente para incluir uns links com um tema que sem dúvida o Luís poderá explicar bem a seus leitores:

http://economico.sapo.pt/noticias/antigos-chanceler-alemaes-saem-em-defesa-de-putin_189946.html

Mas mais este:

http://economico.sapo.pt/noticias/compra-da-gazprom-preocupa-alemanha_189871.htm
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De Pedro Correia a 28.03.2014 às 00:24

Permita-me, caro Vento, uma adenda à sua adenda:
Schröder, que assume ter Putin na sua lista de amigos próximos, é hoje o ‘chairman' do Nord Stream AG - um consórcio de cinco empresas que gere o gasoduto directo entre a Alemanha e a Rússia e do qual a estatal russa Gazprom detém 51%.
Só pode portanto ser "imparcial" sempre que o assunto seja a Rússia...
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De Vento a 28.03.2014 às 01:53

Pedro,

Vejo que também reparou nisso. E não reparou no negócio da BASF e nas contrapartidas? Eu chamei a atenção para aquilo que considero jogo duplo na questão ucraniana. Alguém acredita que a Rússia poderá vir a fechar a torneira por da lá aquela palha?
Será que somos incapazes de ver a política hipócrita que a UE e a Alemanha fazem em torno da Ucrânia? Não compreendemos que estamos perante propaganda para desviar as atenções do essencial?
O FMI já avançou com a massa (no papel) e impôs como uma das condições o aumento de 50% NA FACTURA DO GÁS. Será que não devemos começar a seguir o rasto e ver quais são as participadas no fornecimento de gás à Ucrânia?

Muito bem, meu caro Pedro, recupero uma notícia do ano 2005. Espero que veja bem a posição da UE em 2005:

http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EEFuyVAEFpRhaGUfsu

Continuemos em torno do negócio do gás e petróleo (notícia de 18-03-2014):
http://eventospetroleoegas.com.br/alema-rwe-vai-vender-negocio-de-petroleo-e-gas-a-grupo-russo/

Mas mais, penso que a iniciativa da UE no que respeita ao apoio da revolta na Ucrânia devia ter algum plano alemão para poder ter acesso à produção de petróleo e gás na Crimeia. Veja aqui:
http://eventospetroleoegas.com.br/autoridades-da-crimeia-convidam-empresas-russas-a-extrair-petroleo-e-gas/

Mas a coisa ainda está preta. Veja aqui:
http://eventospetroleoegas.com.br/nacionalizar-propriedades-da-gazprom-pode-gerar-reacao-russa/

Agora veja para onde vai o dinheiro do FMI:
http://eventospetroleoegas.com.br/divida-colossal-a-gazprom-aproxima-novo-governo-ucraniano-da-russia/
Veja o que não vai ser da vida daqueles desgraçados na Ucrânia. E tudo isto podia ter sido evitado se tivesse havido bom senso.

Mas veja esta ainda:
http://eventospetroleoegas.com.br/crimeia-pode-privatizar-empresa-de-energia-mira-possivel-venda-para-russia/

Mas veja também esta notícia de 2011:
http://www.diariodarussia.com.br/economia/noticias/2011/10/31/gazprom-faz-acordo-com-empresa-alema/
e mais esta bem fresquinha:
http://www.diariodarussia.com.br/economia/noticias/2014/03/27/gazprom-ajusta-programa-de-investimentos-para-a-crimeia/

e também esta sobre o fortalecimento do rublo:
http://www.diariodarussia.com.br/economia/noticias/2014/03/26/banco-central-russo-rublo-esta-protegido-das-sancoes-do-ocidente/

E esta notícia até que não está má sob o ponto de vista da continuação da queda das taxas de juro:
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/ue-discute-importacao-de-gas-com-eua-na-proxima-semana---durao-barroso

Mas veja também esta notícia de 2012:
http://portuguese.ruvr.ru/2012_10_08/nord-stream-gasoduto/

Mas veja como Obama suporta aquilo que afirmei sobre toda esta farsa:
http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_03_27/sancoes-contra-russia-afetarao-interesses-do-ocidente-acha-obama-4794/

E veja também o que de imediato veio dizer Durão Barroso:
http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_03_27/para-barroso-ue-nao-pode-conceder-filiacao-a-ucrania-8032/

Entretanto a Ucrânia não deixa de dar um ar de sua graça:
http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_03_27/ucrania-ameaca-ue-com-suspensao-do-transito-de-gas-6878/

Pedro, eu afirmei em tempos que a Rússia entre a espada e a parede escolheria a espada e até lhe forneci vários mapas da bbc/Brasil para que compreendesse o interesse em causa. Mas parece-me que os líderes europeus não respeitam seus cidadãos. Eu compreendo-o em suas análises. E na substância eu apoio-o, mas este mundo não é feito só de bons rapazes.
Fui exaustivo na informação que lhe envio porque a UE parece que não divulga a seus cidadãos os factos reais, e Portugal necessita de se abrir mais à investigação jornalística.
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De Vento a 28.03.2014 às 13:01

Caro Pedro,

uma vez mais para lhe dar conta sobre o que afirmei das descidas nas taxas de juro:
http://economico.sapo.pt/noticias/juro-a-10-anos-abaixo-dos-4-pela-primeira-vez-em-quatro-anos_190038.html
http://economico.sapo.pt/noticias/alivio-nas-euribor-pela-terceira-sessao_190047.html

Ao enviar-lhe estes números eu não pretendo chamar a atenção sobre mim. Só pretendo revelar-lhe que essa treta sobre a descida dos juros devido ao bom comportamento dos meninos que nos desgovernam não passa disso mesmo: treta.

Nesta matéria contam bem mais outros vectores que a sanidade de uma economia. Mas vá-se lá fazer entender coisas muito sérias a meninos que são aliciados por palavrinhas doces e que se deixam deslumbrar por participar em certos eventos.
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De Pedro Correia a 27.03.2014 às 13:15

Caro Luís:

Discordo, naturalmente, de vários pontos. Não da inépcia europeia, nem do facto de a UE continuar a ser um anão político em nada correspondente à sua relevância económica.
Também não discordamos, como é óbvio, da necessidade de esvaziar por antecipação as grandes confrontações bélicas, transformando-as na pior das hipóteses em conflitos de baixa intensidade.
Um bom exemplo foi precisamente o conflito sino-soviético de 1969, no auge da fractura ideológica no mundo comunista, que ameaçou ser assim
http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/asia/china/7720461/USSR-planned-nuclear-attack-on-China-in-1969.html
e acabou por redundar nisto
http://en.wikipedia.org/wiki/Sino-Soviet_border_conflict
Há uma porção larga de fronteira entre russos e chineses que ainda não foi alvo de consenso oficial entre os dois países.

A maior parte dos conflitos, tal como os vulcões, permanece em pousio, num semi-adormecimento. Isto não significa que não possam ressurgir, exactamente à semelhança dos vulcões. Compete aos estadistas preveni-los a tempo. Mas se há falta de alguma coisa no mundo contemporâneo é de estadistas - e nisso também estamos de acordo.

Discordamos num ponto fundamental: na tua perspectiva, segundo creio, a anexação da Crimeia é um sinal de força da Rússia. Na minha óptica, pelo contrário, é um sinal de fraqueza.
Procurarei explicar este ponto de vista em futuros textos, em que tentarei justificar outro ponto importante do nosso desacordo: para mim não basta uma leitura geopolítica dos conflitos, tal como sucedia nos tempos da Guerra Fria. É fundamental uma leitura geoeconómica. E em matéria económica a Rússia vai perdendo guerras todos os dias.

Um abraço.
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De jojoratazana a 27.03.2014 às 17:53

"E em matéria económica a Rússia vai perdendo guerras todos os dias."
E os Chineses também.
Para sua informação a Rússia é auto-suficiente nos produtos essenciais.
Por esse lado pode esperar sentado.
Essa propaganda, não tem validade na realidade.
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De Pedro Correia a 28.03.2014 às 00:30

A Rússia é auto-suficiente em produtos essenciais, JojoRatazana? Anda muito mal informado.
«Moscovo importa cerca de 50% do que come.»
http://darussia.blogspot.pt/2014/03/para-que-servem-as-quase-sancoes.html

Se acha que um país importar metade dos bens alimentares para consumo próprio equivale a "auto-suficiência", um de nós terá de mudar de dicionário de sinónimos...
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De jojoratazana a 28.03.2014 às 02:45

Não vá por ai, o José Milhazes?
É pago, pela agência dos avençados.
No dia que a Rússia quiser, não precisa de comprar os bens alimentares, e se nesta altura o faz é apenas por acordo dos fornecimentos de energia, também tem de dar dinheiro aos outros, não são parvos.
Sabem que se não comprarem, os outros deixam de ter dinheiro para lhes comprar os combustíveis.
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De Luís Menezes Leitão a 27.03.2014 às 18:17

Caro Pedro:

Afinal concordamos em quase tudo. Onde ainda discordo é de que se menorize a força militar da Rússia em virtude da sua fraqueza económica. A economia só floresce em tempo de paz e, se houver uma guerra, tudo pode ficar em causa.

O problema é que a UE e os EUA não estão dispostos a pagar o preço da guerra. A Rússia está. É essa a sua verdadeira força. Por muito forte que seja a economia europeia, isso tem pouco valor, se o exército russo só precisa de 36 horas para ocupar toda a Europa. Na guerra fria isso só não aconteceu porque os soviéticos sabiam que bastava irem a Berlim Oeste para terem uma resposta nuclear do EUA.

Um bom termo de comparação foi o Iraque e o Kuwait. O Kuwait era muito mais rico que o Iraque, mas foi por este ocupado militarmente num dia. Se não tivesse havido a resposta dos EUA, ainda hoje Saddam Hussein lá estaria.

Parafraseando o Casablanca, eu diria a Merkel que não subestimasse os russos. Já ocuparam Berlim durante décadas e ainda hoje se pode ver o que escreveram no Reichstag, mesmo ao lado do seu gabinete. Está preservado para memória futura.

Um abraço,
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De William Wallace a 27.03.2014 às 13:40

Bom post , simples e incisivo.
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De am a 27.03.2014 às 15:37

"A questão da língua"...

Que me diz da Suíça ( 3 ) e da Bélgica (2)?

Pela lógica (sua) teríamos 3 suíças / 2 bélgicas...

E a qui ao lado 2 ou mais espanhas.



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De Luís Menezes Leitão a 27.03.2014 às 18:23

Não sei se já reparou mas a Bélgica não existe. É um estado artificial criado pelos ingleses que não queriam ter um grande estado europeu nas suas costas. Cedo ou tarde a Flandres e a Valónia vão se separar, como hoje já é visível.

A Suíça de facto existe, mas corresponde a um conjunto de povos unidos pela questão religiosa. Na altura das guerras religiosas, vários cantões protestantes uniram-se por não quererem ficar em regiões de maioria católica, formando assim uma confederação, que depois evoluiu para federação.

Quanto à Espanha, também parece que que a secessão da Catalunha é inevitável. Como se vê, a língua conta muito.
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De am a 27.03.2014 às 18:50

Pela sua logica e pensamento :

... Daqui a uns anos o Mundo terá, pelo menos, mais uns 30 países!

Até por cá, teremos a Republica do Mandrico!

Bom fim de semana.

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