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"Tu tens cara de ser rico"

por Pedro Correia, em 04.12.18

Estou na paragem do autocarro, chega o pedinte e atira sem rodeios:

- Tu és rico, dá-me dinheiro.

- Não tenho dinheiro nem sou rico - respondo-lhe de imediato.

Mira-me de alto a baixo, com ar intrigado, antes de repetir a frase - desta vez em tom menos imperativo.

Chamo-lhe a atenção:

- Se fosse rico, andava de Mercedes. Não estava aqui à espera do autocarro.

Ele afasta-se. Mas, depois de dar uns passos, vira-se para trás e faz questão de encerrar assim o breve diálogo:

- Olha que tu tens cara de ser rico.

Trota passeio adiante sem aguardar mais réplica, cravando outra pessoa logo a seguir.

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32 comentários

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De redonda a 04.12.2018 às 12:08

Bem, podia ser que o Mercedes tivesse de ir à oficina, Ferrari tivesse de ir à Inspecção, e naquele dia foi preciso recorrer a autocarro...
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 15:19

Eheheh... E o "pedinte", afinal, era funcionário da Autoridade Tributária.

(Olá, Redonda, bem-vinda novamente por cá.)
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De Anónimo a 04.12.2018 às 12:24

Segue esse pedinte o método do fisco. Com algumas diferenças de eficácia: o fisco qualifica-nos como ricos por decreto (lei, portaria ou o que seja), decide ele quanto nos vai sacar, saca frequentemente por antecipação e consegue sempre o dinheiro que quer. E quanto a isso de se ser rico, borrifa-se para as demonstrações em contrário que procuremos fazer.

Isto de se ser dotado de poderes de autoridade é magnífico.

Costa

Ps: entenda-se acima que o fisco está a lidar com um comum cidadão de classe média (usualmente denominado de "contribuinte"); há outros universos, como bem se sabe.
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 15:41

Sim, o fisco é a única entidade pública que inverte o princípio da presunção da inocência, rasgando assim as garantias constitucionais.
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De CD a 04.12.2018 às 12:25

E vai na volta e o autocarro era Mercedes - não se lembrou ele disso :)
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 15:25

Um Mercedes XXXL, pois.

(Olá, Catarina )
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De Anónimo a 04.12.2018 às 15:02

Neste caso, Pedro, eu diria que mais vale sê-lo do que parecê-lo...
🍁
Maria
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 15:31

Ou, como diria o Lavoura, todos somos pedintes, sobretudo aqueles que fazemos questão em não o parecer.
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De Anónimo a 04.12.2018 às 16:57

Lavoura já está estabelecido......
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 21:19

Cabe-lhe a primazia no sector primário.
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De V. a 05.12.2018 às 08:32

Para o Lavoura somos todos pedintes — mas são sobretudo as mulheres que andam sempre a pedi-las.
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De Pedro Vorph a 04.12.2018 às 16:06

Pedro, ele olhava-o pelo que leva dentro….o Pedro tem uma rica cabeça, por exemplo
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De Anónimo a 04.12.2018 às 18:10

Por acaso estava a pensar nisso, o Pedro é rico de conhecimento, de sabedoria.
Pode parecer graxa, mas não é
Pedro, vá lá dar a moedinha ao rapaz.
Se correr ainda o apanha, ainda o apanha...
Maria



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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 21:26

Vejo este jovem pedinte muita vez, Maria. Só dou esmola aos velhotes, não aos franganotes. O "assistencialismo", comigo, tem perna curta.
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De Anónimo a 04.12.2018 às 22:31

Pedro, eu estava a tentar ironizar, com o Carlos Eduardo e o Ega a correrem para o americano...
Há dias respondi a um rapaz que me fez o mesmo pedido:
Se soubesses quanto recebo de reforma eras tu que me davas uma moedinha a mim.
E não estava a brincar, juro.
É que ele é que tinha mesmo ar de rico
Maria
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 23:34

Entendo bem isso, Maria. (E a propósito desse final d' Os Maias, de que tanto gosto, tenciono publicar este mês um texto sobre esse romance.)
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De Costa a 05.12.2018 às 13:20

Esse final, o capítulo XVIII, um sublime exemplo de elegíaca elegância, finamente depurada, sem uma palavra a mais ou em falta. Que se lê uma e outra vez. E sempre - como toda a obra - apetece reler.

Afasto-me radicalmente do tema. Nada acrescento à discussão com este comentário. Mas (e já neste blogue trocámos linhas sobre esse final), não poderia deixar de o fazer.

Costa
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 21:22

Visão biónica, como a do outro.
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De Anonimus a 04.12.2018 às 20:06

Em Portugal ganhar 1500€/mês é ser rico. Quase milionário.
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 21:20

Para o fisco, então, nem se fala. É tiro e queda.
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De Maria Dulce Fernandes a 04.12.2018 às 20:13

Mais importante do que ser é parecer ser?
Maquiavélico, o pedinte.
Não ser uma pessoa rica não quer dizer que nâo tenha uma riqueza infinitamente superior à do toque de Midas. O conhecimento, a educação e a saúde não têm cotação nos mercados, porque não se lhes pide atribuir um preço.

Como a dignidade. Faz hoje 38 anos que perdemos a inocência numa bola de fogo.
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 21:21

É verdade, Dulce. Que noite trágica. Lá estive, 48 horas depois, na emocionante cerimónia fúnebre nos Jerónimos.
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De jpt a 04.12.2018 às 23:12

Gosto mesmo deste bloguismo
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De Pedro Correia a 04.12.2018 às 23:36

Flagrantes da vida real, como na célebre secção das Selecções do Reader's Digest: li muitas em miúdo.
Hei-de trazer várias outras aqui. Da vida real de agora.
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De jpt a 04.12.2018 às 23:45

Eu lia a dos anos 40 e 50 em casa dos meus avós, acumuladas. E havia o "rir é o melhor remédio" ou imagino?
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De Pedro Correia a 05.12.2018 às 09:53

Também eu, igual. Leitura com sotaque brasileiro.
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De Pedro Correia a 05.12.2018 às 09:55

E havia as "piadas de caserna".
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De V. a 05.12.2018 às 08:30

Eis o ovo da serpente comunista
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De Pedro Correia a 05.12.2018 às 09:54

Quem vê caras não vê carteiras. Como diz o velho provérbio popular que acabo de inventar.
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De Anónimo a 05.12.2018 às 11:20

comunismo/socialismo , a pior praga que existe à superfície da Terra .

Luis Almeida
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De Manuel Sousa a 05.12.2018 às 10:41

Também uso transportes públicos. No porto utilizadores são tratados como reses. A quem pede limito-me a dizer que só trago cartões. Por vezes, acrescento que já fui assaltado e por isso os trago. Meu pai, costuma fazer um ar condoído, soltando expressão vetusta: "Não pode ser santinha, tenha paciência...". Esta não me atrevo. E às vezes até dou.

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