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Trump 2.5 (anos)

por João André, em 25.07.19

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Ao fim de sensivelmente dois anos e meio de uma presidência Trump, estamos agora em plena viagem de pré(?)-campanha presidencial nos EUA. É de lamentar que nos ciclos noticiosos de hoje em dia mal haja tempo para uma administração americana começar a funcionar antes de começar a campanha seguinte.

Que dizer ao fim deste período de era Trump? Independenetemente de quaisquer juízos de valor, tem que se aceitar que Trump tem sido altamente eficaz na forma como tem cumprido as suas promessas de campanha. A sua mais emblemática, a do muro na fronteira com o México, não se concretizou. Aqui terá falhado de forma estranha, especialmente quando teve quase dois anos de maioria no Congresso e Senado, mas teve também uma oposição interna no Partido Republicano que terá complicado a implementação esta promessa. Hoje tem o Partido Republicano (quase) completamente controlado mas o Partido Democrata controla o Congresso, pelo que o muro, se vier a ser construído, terá que esperar pelas próximas eleições intercalares. Na ausência do Muro (não que faça muita diferença, existe muro em larga parte da fronteira, construído por presidentes republicanos e democratas no passado), Trump aumentou as medidas dissuasoras para imigrantes e pessoas em busca de asilo. O Muro não existe, mas dificilmente os apoiantes de Trump se podem queixar.

 

 

No resto Trump conseguiu cumprir as suas principais promessas.
1. Implementou uma reforma do IRS com grandes cortes de impostos em todos os escalões.
2. Retirou os EUA de vários acordos internacionais (Acordo de Paris, Acordo com o Irão,  tratados de controle de proliferação de armas nucleares, etc)
3. Nomeou dezenas de juízes conservadores para os tribunais americanos e nomeou dois sólidos conservadores para o Supremo Tribunal.
4. Eliminou várias medidas ambientais da era Obama e criou condições para exploração de várias zonas do país que estavam antes protegidas por legislação ambiental. Também eliminou diversos regulamentos relativos a emissões e descargas industriais.
5. Começou a redesenhar os mapas de alianças, reduzindo o compromisso com NATO e países europeus, dando mais importância a ligações bilaterais e pessoais.
6. Rasgou acordos de comércio internacional e colocou diversas tarifas a produtos com múltiplos países, especialmente China e União Europeia. Ao mesmo tempo conseguiu novos acordos comerciais, especialmente com o México.
7. Deu voz e sentido de poder a uma parte significativa da população americana que se sentia marginalizada.
8. Viu a economia dos EUA a crescer constantemente e as bolsas a apresentarem níveis recordes, ao mesmo tempo que o desemprego está num dos níveis mais baixos de sempre.
9. Iniciou um diálogo com a Coreia do Norte que talvez venha a dar frutos.
10. Não conseguiu acabar com o Obamacare, mas conseguiu implementar várias medidas que o dificultam, esvaziam e poderão permitir que morra uma morte lenta.

Sob qualquer prisma que se queira ler a presidência de Trump, esta tem sido um sucesso. Trump prometeu e cumpriu em larga medida. Há aspectos em que não o conseguiu a 100%, mas as promessas de campanha têm sido cumpridas.

Claro que quem me leia sabe que eu não estou a querer elogiar Trump. Reconheço que cumpriu estas medidas, só que não as vejo como positivas. Várias delas não eram particularmente difíceis de cumprir, uma vez que estão dentro do âmbito dos seus poderes presidenciais e ele pode executar tais decisões com uma assinatura. Outras terão sido mais difíceis de atingir, mas ele chegou lá. Só que as medidas que tomou e que apontei acima poderão ser, na sua larga maioria, más. Não só para o resto do mundo como para os EUA.

1. A reforma aumentará o défice dos EUA em quase 1.9 biliões (trillion na versão inglesa) de dólares. Os cortes começarão a expirar em 2025, curiosamente quando um hipotético segundo mandato de Trump termine. A partir de 2027, os impostos para indivíduos voltarão a aumentar, mas para empresas os cortes serão permanentes. Os cortes também beneficiam comparativamente mais os ricos que aqueles com rendimentos mais baixos (embora os cortes sejam para todos).
2. A saída dos acordos internacionais tornará a cooperação de outros países com os EUA mais difícil e poderá levar a retaliações em pequenos, mas significantes, aspectos no futuro (por exemplo, imposição de impostos de carbono a empresas americanas a operar fora do país). Ao mesmo tempo, terminar acordos contra proliferação de armas nucleares poderá aumentar a instabilidade estratégica no mundo.
3. Trump nomeou dois juízes conservadores que poderão em breve reverter Roe vs Wade, que define os direitos das mulheres de abortar. As leis (actualmente) inconstitucionais que têm sido passadas no Alabama e outros locais conservadores no sul servem apenas para levar estas disputas ao Supremo Tribunal e tentar reverter a actual lei. Nos outros tibunais, diversos juízes escolhidos têm sido demonstrados como completamente incompetentes para os cargos. Além disso é notória a preferência por homens brancos para esses cargos. Um dos juízes nomeado para o Supremo Tribunal ocupou um lugar que deveria ter sido nomeado por Obama (mas Trump não é responsável por isso).
4. O ambiente nos EUA só irá piorar em todo o lado. As empresas estão livres para poluir como queiram. Trump encheu a sua administração de negacionistas das alterações climáticas (ou da sua causa antropogénica) que só querem fazer o jeitinho às indústrias poluentes. Ao mesmo tempo, a indústria renovável irá sofrer muito nos EUA, o que atrasará o país tecnologicamente.
5. Mesmo que as ligações pessoais funcionem, que farão os EUA quando Trump sair do cargo? Além disso, a visão do mundo de Trump demonstra que el não percebe - ou não liga - as vantagens que os EUA retiram destas alianças. Vai-lhe correr mal se os aliados decidirem que querem punir os EUA pela ousadia de elegerem Trump (seria contraproducente para os aliados, tal como para os EUA). Se os aliados decidirem que não podem mais contar com os EUA e optarem por avançar por si mesmos (improvável no médio prazo) os EUA poderão ver-se isolados a ponto de perderem acesso a informação e meios fora do seu território. Pelo meio destruiu o Departamento de Estado e acabou com quaisquer pretensões de soft power que os EUA tivessem. Pelo menos por uma década. Será difícil reparar o dano.
6. O acordo comercial com o México é essencialmente igual ao que existia no âmbito da NAFTA. Conseguiu que o México aceitasse bloquear a passagem de migrantes e refugiados, mas é um acordo válido enquanto os mexicanos quiserem, não terá qualquer força real. No resto as suas guerras de tarifas estão neste momento a prejudicar alguns dos seus eleitores fundamentais (os agricultores, por exemplo). Para o compensar, Trump teve de recorrer a subsídios. Quando as empresas decidirem que não vale a pena esperar que a situação se resolva, começarão a deslocar negócios dos EUA ou a deixar de vender para lá. Será bom para algumas empresas americanas, mas a globalização aconteceu porque era boa para todas as partes. Os EUA poderão cobrir quaisquer importações com produção local, mas esta depende também das cadeias de logísticas globais e, além disso, poderá ser mais cara que noutros locais. Os consumidores americanos pagarão o preço das tarifas.
7. Nada a apontar. As vidas destes americanos não mudaram, mas sentem-se com mais poder. A ponto de poderem sr agressivos com quem eles entendem.
8. Isto beneficiou em muito do crescimento que se seguiu à Grande Regressão. No entanto Trump libertou várias amarras aos negócios e cortou impostos. Isto no fundo é o mesmo que, tendo um paciente que está a recuperar excelentemente de um enfarte e já recomeçou a fazer exercício físico, o médico decide dar-lhe uma injecção de adrenalina. O paciente terá um desempenho físico subitamente mais notável, correrá mais, estará mais forte e sentir-se-à talvez melhor. Quando o efeito da injecção passar, o paciente estará sob risco de morte acrescido. O mesmo se passará (provavelmente) com a economia americana.
9. Até ao momento a única coisa que conseguiu foi legitimizar o regime norte-coreano, lavar-lhe a imagem (é o mais brutal à face da Terra) e, indirectamente, reconhecê-lo como uma potência nuclear. Em troco recebeu os restos mortais de americanos mortos na Guerra da Coreia. Mais show que substância.
10. Milhões de americanos ficarão sem seguro de saúde. Os custos em geral voltarão a ser o que eram antes: de longe os mais altos de todo o mundo desenvolvido. Mas terão escolha...

Tudo isto conseguindo demonstrar uma face completamente não-presidencial, sendo bruto, malcriado, sexista, racista, mentindo, ameaçando e, acima de tudo, vivendo obcecado com a sua própria imagem, a qual lhe é dada no espelho distorcido da caricatura de media que é a Fox News. Também falhou em parte na sua promessa de limpar o pântano. Em parte conseguiu porque muitos dos beneficiários anteriores perderam acesso aos políticos de Washington. Falhou porque encheu o pântano de novas criaturas, muitas delas chamadas Trump, e todas (ou quase) mais sinistras que as que lá viviam. Por fim, envenenou o diálogo político nos EUA. Se antes os democratas e republicanos já pouco dialogavam )os republicanos não perdoaram a eleição do primeiro presidente negro), com Trump passou.se de falta de diálogo a puro ódio (dos dois lados). Pelo meio conseguiu que os seus apoiantes perdessem qualquer noção de civilidade ou de sentido crítico. Os factos deixaram de ser importantes para os apoiantes de Trump (para Trump nunca o foram).

Os apoiantes de Trump poderão ficar satisfeitos. Se o país arder e a Fox News reportar Trump a jogar golfe e a lançar impropérios contra deputadas de cor, os apoiantes, os "deplorables" continuarão a gritar o seu apoio incondicional. É por isso que os democratas, pelo que vejo agora, irão perder as eleições do próximo ano. Porque não perceberam que necessitam de se unir e galvanizar a sua base. Porque ainda jogam com as regras da geração anterior, onde ganhar os moderados bastava. Não basta. Num mundo de polarização e combate, a turba vociferante é quem conta. E Trump é quem a tem na mão. Os debates democratas até agora (por acaso estava nos EUA e vi-os) demonstraram que os democratas não o perceberam bem. Trump neste momento esfrega as mãos de contentes. E escreve mais um twitter contra AOC.

 


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