Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Três filmes de 2014 (3)

por José António Abreu, em 03.01.15

 

Tracks, de John Curran.

 

Se Só os Amantes Sobrevivem e Debaixo da Pele partem de olhares externos sobre a condição humana (usando um par de vampiros e uma alienígena, respectivamente), Tracks usa a receita mais habitual de seguir as acções de um humano que se sente insatisfeito e desenquadrado, que não sabe o que quer da vida mas sabe que quer algo de diferente. Um humano que resolve tentar encontrar-se através de um desafio aparentemente sem sentido, exigindo isolamento e tenacidade.

Robyn Davidson, a protagonista, é uma pessoa real. Australiana, tem hoje 64 anos. Nos primeiros anos da década de 70 levou uma vida boémia em Sydney. Na de 80 manteve durante alguns anos uma relação com o escritor Salman Rushdie, a quem foi apresentada por Bruce Chatwin. (Pode ser vista nesta featurette sobre o filme, transmitindo uma mensagem adequada a qualquer época e lugar.) Em 1975, farta do contacto humano (pelo menos na forma como o vinha experimentando), mudou-se com o seu cão para Alice Springs, no centro da Austrália, determinada a caminhar os cerca de três mil quilómetros que separam Alice Springs da Costa Oeste australiana. Trabalhou durante dois anos até conseguir arranjar quatro camelos* (três adultos, uma cria) que pudessem apoiá-la na viagem. Escreveu à National Geographic pedindo financiamento em troca de acesso exclusivo ao relato. O «sim» veio com uma condição desagradável: o fotógrafo Rick Smolan encontrar-se-ia com ela em vários pontos ao longo do percurso. Depois da viagem, escreveu um livro que John Curran (realizador de Desencontros, O Véu Pintado e Stone – Ninguém é Inocente) adaptou agora ao cinema.

Há uma diferença fundamental entre, por um lado, Jim Jarmusch e Jonathan Glazer e, por outro, John Curran: para o bem e para o mal, Curran não é um “autor”. Isso evita-lhe toques que poderiam ser acusados de pretensiosismo mas não lhe permite escapar a um ritmo que, embora lento, é bastante mais hollywoodesco do que o de Só os Amantes Sobrevivem ou Debaixo da Pele. Não lhe permite também escapar a vários clichés. E se, considerando o tema, a tendência para mostrar paisagens deslumbrantes (ainda que frequentemente agrestes) até se justifica, a abordagem da relação entre Davidson e Smolan nem por isso. Sendo certo que, em boa medida, é através dela que o processo de (re-)socialização progressiva de Robyn nos é mostrado, a relação “soa” a falso e a evolução de Smolan, de cretino bem-intencionado (ao ponto de ofender a comunidade aborígena, forçando Robyn a efectuar uma alteração ao trajecto previsto) para alguém mais maduro, respeitador de esferas e decisões alheias, é demasiado rápida e esquemática. Mais conseguidas são as cenas em que Robyn estabelece contacto com os membros da comunidade aborígene ou os encontros com turistas (Davidson tornou-se notícia, sendo conhecida como a Camel Lady) e com um motociclista tentando bater um recorde qualquer, que admite nem sequer ter tempo para ver a paisagem. Acima de todos elas, porém, encontram-se as que a mostram sozinha no deserto com o cão e os quatro camelos. (Tracks é um filme que poderá desagradar a quem se irrita com pessoas que parecem preferir animais a humanos.) É aí que os planos metafísico e (extremamente) físico da viagem se impõem. É também aí que o trabalho de Mia Wasikowska surge em todo o esplendor.

Wasikowska (também australiana) vem fazendo escolhas sui generis desde que chamou a atenção como Alice, no filme de Tim Burton. Em Tracks, é inteiramente credível, na forma como lida com os animais, com as consequências físicas da viagem, com os momentos de dúvida, exasperação, dor, apatia, medo e tristeza.

O filme evita alongar-se sobre possíveis motivações. Excepto por uma série de flashbacks que nos levam à infância de Robyn (a mãe suicidou-se quanto ela tinha 11 anos mas o filme não explora demasiado essa perda, parecendo até considerar outra, ocorrida por essa altura, como mais importante), não conhecemos Robyn antes de chegar a Alice Springs. A única alusão aos anos de vida boémia é a visita (insuportável para Robyn) de um grupo de amigos, logo no início do filme. Mesmo assim, talvez tivesse sido preferível nem sequer incluir esses momentos. Ainda que seja a primeira pergunta a sair dos lábios de quase toda a gente confrontada com decisões difíceis de entender, o «porquê» é frequentemente desnecessário. Num momento ou noutro, todos os seres humanos sentem vontade de se afastar de tudo – e em especial dos outros humanos. Interessante é perceber se a viagem funciona como meio de reaproximação.

Tracks é ligeiramente fragmentado e incoerente, por vezes banal. Um realizador mais destemido talvez pudesse ter extraído da história uma obra-prima. Ainda assim, inclui momentos sublimes e, ao contrário de tantos outros filmes, ficou-me na memória. Provavelmente por apelar à minha bem desenvolvida costela de eremita – uma vez que (e ainda que o filme me tenha levado a apreciá-los um pouco mais) fã de camelos não sou.

 

* Os camelos foram introduzidos na Austrália pelo homem. Com o desenvolvimento do automóvel, a sua utilidade desapareceu e muitos foram libertados, multiplicando-se em estado selvagem.



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D