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Três filmes de 2014 (2)

por José António Abreu, em 02.01.15

 

Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer.

 

O livro de Michel Faber no qual o filme se baseia é excelente. Foi editado em Portugal pela Difel há cerca de uma dúzia de anos e fez-me ler quase tudo o resto escrito por Faber: as novelas The Courage Consort e The Hundred and Ninety-Nine Steps, a recolha de contos The Fahrenheit Twins e o gigantesco romance The Crimson Petal and the White, um Dickens pós-moderno com a linguagem e o sexo que os tempos de Dickens não autorizavam, convertido em honorável mas não excepcional mini-série pela BBC. (Faber publicou um novo romance, The Book of Strange New Things, há cerca de 3 meses mas ainda não o li.)

Se Debaixo da Pele e The Crimson Petal and the White revelavam uma fraqueza em Faber era a dificuldade em encontrar finais à altura do que os precedera. Debaixo da Pele, o filme, não sofre desse mal. Mas é bastante diferente do livro e, no início, isso constituiu um problema. Assistir a adaptações cinematográficas pouco fiéis de livros que se apreciaram é complicado. Glazer transferiu a maioria da acção das highlands escocesas para ruas citadinas. Eliminou as explicações (ainda que Faber também tenha deixado muito à imaginação). Eliminou grande parte de diálogo. Eliminou a terminologia, incluindo os nomes dos alienígenas (à la Anthony Burgess em A Laranja Mecânica, Faber inventou parte de uma linguagem, de que relembro – não tenho o livro comigo – vodsel para «humano», vodissin para «carne humana» e Isserly para o nome da protagonista). Debaixo da Pele, o filme, é abstracto e exigente. Acompanha os passos de uma alienígena (uso «ela» embora não faça muito sentido atribuir-lhe um género só porque assumiu a forma de Scarlett Johanssen) que, transmutada em fêmea humana (atraente mas com um corpo onde algo parece sempre ligeiramente deformado - o que, em tempos de operações plásticas e «correcções» digitais, só o torma mais real), percorre as ruas ao volante de uma carrinha em busca de homens cujo desaparecimento não suscite atenções. A finalidade permanece pouco clara (o livro é muito mais explícito) mas a forma como os domina é uma tremenda metáfora visual para o modo como os homens (os «machos» talvez fosse mais exacto) esquecem tudo o resto perante a promessa de sexo. Debaixo da Pele tem uma Johanssen que não era assim tão sublime desde Lost in Translation mas também tem poucas palavras, pouca acção, imagens estranhas (nas quais a música minimalista e inquietante criada por Mica Levi, dos Micachu & The Shapes, encaixa de forma brilhante), movimentos de câmara ponderados, sem um milímetro de exagero. Houve quem mencionasse Kubrick e existem de facto pontos em comum entre este universo e o de 2001 ou The Shining (também Laranja Mecânica, mas menos). A câmara, os silêncios, o uso da música, a recusa em dar explicações claras. A metafísica do que constitui um ser humano.

Vi Debaixo da Pele em casa mas trata-se de um filme a ver no cinema. Torna-se necessário manter disponibilidade total. Persistir. Entrar no ritmo. Aprender a perceber a alienígena à medida que ela, indiferente e maquinal no início, vai ficando intrigada pela espécie humana. Pela sua (nossa) fragilidade. Pelas suas (nossas) motivações e contradições. Pelos comportamentos e pelas injustiças que advêm das diferenças morfológicas (e, mais especificamente, da dicotomia beleza/fealdade), que se percebe no final não existirem no mundo dela. Pela capacidade para amar e odiar.

Os últimos vinte minutos, quase sem diálogo, são assombrosos. A alienígena corta com o seu mundo e tenta perceber o nosso. Está completamente impreparada para o conseguir e, no entanto, de certa forma vai consegui-lo. Vai perceber que uma das características humanas mais fortes é a aleatoriedade dos comportamentos, mesmo quando nascidos de impulsos similares (neste caso – como tantas vezes –, de índole sexual). Que um ser desamparado e estranho tanto pode encontrar a bondade (a qual, ainda assim, traz consequências) como a violência. Assistir a Debaixo da Pele é como ver um animal selvagem ganhar progressivamente consciência. E pagar o preço inevitável.

 

Nota: João Campos escreveu sobre o filme aqui no Delito em Maio passado.


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