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Três filmes de 2014 (1)

por José António Abreu, em 01.01.15

Foram os três de que me lembrei mais rapidamente. Isso não faz deles os melhores do ano porque vi relativamente poucos filmes estreados em 2014 (por exemplo, ainda estou para ver Interstellar – referido duas vezes no Delito – e Ida). Nem sequer estou certo de que faça deles os melhores de entre esses poucos. Depois de os escolher, apercebi-me que partilham uma característica: são olhares alienígenas sobre a condição humana – mesmo no caso em que a protagonista pertence à espécie (e até se baseia numa pessoa real).

 

 

Só os Amantes Sobrevivem, de Jim Jarmusch.

 

Jarmusch é pessimista e, com frequência, pretensioso. Esta história de dois vampiros transbordantes de estilo e ennui tinha todos os ingredientes para exasperar. Adam e Eve (pun claramente intended) estão vivos e – não obstante viverem em cidades diferentes no início do filme – apaixonados um pelo outro há centenas de anos. Conheceram poetas, dramaturgos, filósofos. Adam é músico. Chegou a oferecer um adágio a Schubert (que o melhorou). Evitam o contacto com os humanos (a que se referem como zombies) e até com outros vampiros, menos intelectuais, mais impulsivos, simultaneamente mais perigosos (a discrição é fundamental, numa época em que andar por aí a beber sangue humano dá demasiado nas vistas) mas também mais integrados nos tempos actuais. Tempos incultos, de espectáculos básicos e reality shows, que Eve suporta à base de leitura, estoicismo e pragmatismo mas que deprimem Adam profundamente. De entre os poucos vampiros com que se dão, realça-se um idoso Kit Marlowe, o – como poderia ser de outra forma? – verdadeiro autor das peças atribuídas a Shakespeare.

Por atraente que a premissa seja, o filme tem problemas. Um deles está em raramente admitir que na actualidade ainda são produzidas obras culturais dignas de registo. Há uma cena na qual Eve mete livros numa mala e The Infinite Jest, de David Foster Wallace, é claramente visível. Há outra, em Tânger, perto do final, na qual Adam e Eve assistem mesmerizados a um espectáculo da libanesa Yasmin Hamdan. Pouco mais. Outro está na forma glorificada como o passado nos é apresentado. Se o Renascimento e o Iluminismo foram épocas de avanços nos campos político e cultural, não deixaram por isso de ser tempos em que, percentualmente, muito mais gente estava impedida de aceder à cultura (e mesmo à literacia) e vivia sob regimes autoritários altamente classistas. Jarmusch parece assim lamentar o processo de democratização da cultura, por – segundo ele – induzir um decréscimo de qualidade. Trata-se de uma tendência comum em que eu próprio já caí. Mas, ainda que possa ter uma componente de verdade, é simplista.

O que salva o filme? Acima de tudo, o romantismo. A relação intensa, paritária, separada do mundo, entre Adam e Eve. O estilo, também – é mais um Jarmusch nocturno, desolado mas belo, em que os bairros abandonados de Detroit surgem como paradigma da decadência humana e as ruas de Tânger como uma hipótese de comunidade. Os actores, excelentes, ainda que desempenhando papéis que se prestam a tal. Tilda Swinton, Tom Hiddleston, John Hurt e a ubíqua Mia Wasikowska (seis filmes nos últimos dois anos, sendo que abordarei outro no terceiro texto desta mini-série) agarram com unhas e dentes papéis que (nos casos de Swinton, Hiddleston e Hurt) lhes permitem exprimir de forma inteligente e plena de estilo (estes são vampiros tão cool que até dói) a propensão para o pessimismo – para o niilismo, mesmo – que afecta a parte bem pensante da sociedade actual.

Para o espectador (para mim, em todo o caso), Só os Amantes Sobrevivem é um mergulho culposo no prazer do pessimismo e da depressão, em nome da capacidade salvífica da cultura (como elemento verdadeiramente diferenciador do ser humano) e de um romance belíssimo, resistente à passagem dos séculos, que (e será esse o verdadeiro raio de luz do filme) permite acalentar esperanças na existência de uma versão à escala humana, com a duração de algumas décadas.



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