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Transportes públicos

por Isabel Mouzinho, em 17.01.15

Há muitos anos, tive uma professora que dizia que gostava muito de andar nos transportes públicos, porque era uma interessantíssima experiência do quotidiano.

 Na altura não entendia muito bem o que ela queria dizer, mas percebo-o agora perfeitamente. E lembro-me muitas vezes dessa frase.

Hoje, sou uma verdadeira especialista dos transportes públicos de Lisboa, que domino em pormenor. Sei as vantagens e desvantagens de cada um, conheço todos os percursos e ligações, qual a maneira mais rápida de chegar onde quer que seja e até alguns horários.

Raramente me ponho a ler ou a ouvir música. Distraio-me a observar as pessoas, o modo como se comportam, o que vestem, os gestos e os olhares, o que lêem, de que conversam. E às vezes ponho-me até a imaginar-lhes as histórias e as vidas. É uma interessante e muito diversificada amostra sociológica, de facto.

Vem tudo isto a propósito de um diploma recentemente publicado em Diário da República, que julgo ter entrado hoje em vigor e que prevê a aplicação de "coimas" entre 50 e 250 euros a "quem praticar atos ou proferir expressões que perturbem a boa ordem dos serviços ou incomodem os outros passageiros" nos autocarros.

Não conheço o diploma e apenas tomei conhecimento dele pela comunicação social. Ainda assim, ao que parece,  "a coima também se aplica a quem entrar nos veículos quando a lotação estiver esgotada, entrar e sair do veículo quando este esteja em movimento, fora das paragens, ou depois do sinal sonoro que anuncia o fecho das portas, assim como ocupar lugar reservado a pessoas com mobilidade condicionada e grávidas e projetar objetos para o exterior do veículo."

Tudo isto me faz sorrir, no mínimo. Porque quem frequenta os transportes com regularidade e atenção, como eu, sabe que mais de metade dos seus utentes  não cumpre o que há de mais básico, como por exemplo pagar bilhete. E mesmo em relação a isso a impunidade é quase total. A fiscalização existe, mas aparece um fiscal num autocarro (aliás meia dúzia, que eles andam agora em grupos de três, de  quatro ou até cinco) cada dois ou três meses. E no resto do tempo toda a gente circula livremente, ou muito perto disso, o que me leva a crer que neste como noutros casos, se calhar, "o crime compensa".

E pergunto-me que sentido fará criar este tipo de diplomas com regras que apenas existem no papel e com umas "coimas" que depois nunca chegam a ser aplicadas na realidade.


9 comentários

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De O Principezinho a 17.01.2015 às 02:35

Concordo plenamente com todo o seu post, mas como também considero o diploma ridículo, nem vou comentar...

Eu, em tempos, também era especialista nos comboios da Linha de Cascais...e também adorava observar as pessoas...observar é também uma forma de comunicar...as pessoas comunicam umas com as outras...com a forma como estão sentadas, como olham...

E vê-se de tudo...as pessoas que desviam o olhar ou baixam a cabeça quando olhamos para elas...as pessoas que sorriem em sinal de cumprimento, quando olhamos para elas...as pessoas que estão a observar a paisagem, perdidas em pensamentos da vida...outros a lerem ou a fingirem que lêem...

Hoje em dia, de carro não tenho a oportunidade de comunicar desta forma...isso perdeu-se...só o faço quando estou parado no trânsito e costumo olhar para o(a) condutor(a) do carro que está parado ao meu lado...

:)
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De Eu Não Pago a 17.01.2015 às 10:10

Mais de metade parece-me pouco. Devem passar sem pagar para aí uns 95%.
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De I.C. a 17.01.2015 às 13:06

O diploma não tem nada de disparatado e espero mesmo que saia do papel. Estou saturada de anos e anos de cowboys a aterrorizar gente nos comboios, de kuduros e kizombas aos berros, das ameaças de pancada quando se pede para baixar o som. É triste ir numa carruagem de gente claramente incomodada e infeliz, mas em que todos olham para o chão e engolem o sapo, com medo de serem perseguidos ao sair do comboio, como já vi acontecer vezes sem conta.
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De Vento a 17.01.2015 às 13:10

O que estes diplomas me revelam é a estrutura mental, social e intelectual de alguns destes que dizem governar. Na realidade estes só demonstram através destes diplomas que a educação recebida está suportada na penalização e não na eficiência. Por isto mesmo é bastante difícil em Portugal empreender o que quer que seja.
E quando me dizem que a estas gerações lhes falta o sentido do equilíbrio eu respondo que são os frutos que confirmam a árvore.
Parece-me que para estes a penalização maior reside no pagamento de coimas.
Diz-me onde tens o coração e mostrar-te-ei o teu tesouro.



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De Anónimo a 17.01.2015 às 14:38

Há gente para tudo e de todos os gostos. Eu discordo da lei e gosto do barulho e de ouvir cantar. Deveriam mesmo tomar medidas para fomentar o canto. Multa para quem não cantasse talvez fosse demais mas um benefício sim, por exemplo um desconto no bilhete. Gosto da alegria. Com esta lei venceram os que gostam da tristeza. Pode ser que um diz mude e os derrotados de agora vençam. A arte de conciliar...
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De Apoiado a 17.01.2015 às 19:26

Eu o que mais aprecio é pés em cima dos bancos. Sobretudo se cheirarem a sulfato de peúga.
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De Anónimo a 17.01.2015 às 21:36

Lá dizia eu: há gente para tudo e de todos os gostos. Como os alcatruzes, ora ganham uns, ora ganham outros. Na natureza humana não há monotonia.
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De I.C. a 24.01.2015 às 13:01

Já cá faltava a brigada do politicamente correcto... Diga-me, se levar uma carga de porrada para me roubarem o telemovel - que ironicamente, é pior que o deles - a culpa também deve ser minha, falta-me abertura para uma feliz cultura de trocas de bens, não?
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De Cristina Torrão a 17.01.2015 às 18:17

Excelente tema, que devia ser discutido nos blogues mais vezes!

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