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Há muitos anos, tive uma professora que dizia que gostava muito de andar nos transportes públicos, porque era uma interessantíssima experiência do quotidiano.
Na altura não entendia muito bem o que ela queria dizer, mas percebo-o agora perfeitamente. E lembro-me muitas vezes dessa frase.
Hoje, sou uma verdadeira especialista dos transportes públicos de Lisboa, que domino em pormenor. Sei as vantagens e desvantagens de cada um, conheço todos os percursos e ligações, qual a maneira mais rápida de chegar onde quer que seja e até alguns horários.
Raramente me ponho a ler ou a ouvir música. Distraio-me a observar as pessoas, o modo como se comportam, o que vestem, os gestos e os olhares, o que lêem, de que conversam. E às vezes ponho-me até a imaginar-lhes as histórias e as vidas. É uma interessante e muito diversificada amostra sociológica, de facto.
Vem tudo isto a propósito de um diploma recentemente publicado em Diário da República, que julgo ter entrado hoje em vigor e que prevê a aplicação de "coimas" entre 50 e 250 euros a "quem praticar atos ou proferir expressões que perturbem a boa ordem dos serviços ou incomodem os outros passageiros" nos autocarros.
Não conheço o diploma e apenas tomei conhecimento dele pela comunicação social. Ainda assim, ao que parece, "a coima também se aplica a quem entrar nos veículos quando a lotação estiver esgotada, entrar e sair do veículo quando este esteja em movimento, fora das paragens, ou depois do sinal sonoro que anuncia o fecho das portas, assim como ocupar lugar reservado a pessoas com mobilidade condicionada e grávidas e projetar objetos para o exterior do veículo."
Tudo isto me faz sorrir, no mínimo. Porque quem frequenta os transportes com regularidade e atenção, como eu, sabe que mais de metade dos seus utentes não cumpre o que há de mais básico, como por exemplo pagar bilhete. E mesmo em relação a isso a impunidade é quase total. A fiscalização existe, mas aparece um fiscal num autocarro (aliás meia dúzia, que eles andam agora em grupos de três, de quatro ou até cinco) cada dois ou três meses. E no resto do tempo toda a gente circula livremente, ou muito perto disso, o que me leva a crer que neste como noutros casos, se calhar, "o crime compensa".
E pergunto-me que sentido fará criar este tipo de diplomas com regras que apenas existem no papel e com umas "coimas" que depois nunca chegam a ser aplicadas na realidade.