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Tradições

por Teresa Ribeiro, em 09.11.18

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Na China havia, como é sabido, a tradição de enfaixar os pés das meninas desde a mais tenra idade para que não crescessem mais que uns ideais dez centímetros. O sofrimento atroz que resultava da compressão dos ossos e das unhas por forma a impedir o normal crescimento do pé era justificado por motivos estéticos: um pé minúsculo era considerado mais atraente e os passinhos doridos das donzelas, a sublinhar a sua fragilidade, algo de muito erótico. Na  Índia, o costume de queimar vivas as viúvas junto à pira funerária do seu falecido marido (o sati), embora proibido, parece que chegou ao século XXI (há registos de sacrifícios realizados em 2006) nalgumas comunidades hindus. A excisão genital feminina, outra prática bárbara que impende sobre as mulheres, essa está longe de ser erradicada. 

As "tradições" são assim: difíceis de combater. Nem todas refletem o lado mais pérfido dos seres humanos, mas as que o fazem felizmente têm sido pouco a pouco desacreditadas pela civilização, embora - e esse é um traço comum - sob os mais vivos protestos das camadas conservadoras.

Os elos mais fracos - mulheres, crianças, idosos, pessoas doentes - têm sido ao longo dos tempos as vítimas preferenciais de muitos rituais, que sob falsos pretextos mais não fazem do que dar largas à agressividade larvar que faz parte da natureza humana. Mas se no mundo civilizado a que pertencemos a censura social já está perfeitamente estabelecida relativamente a maus tratos infligidos a outros seres humanos, quando se fala de animais, o consenso desaparece. Defender seres que estão abaixo da condição humana é subir mais um patamar civilizacional e isso demora tempo. 

Pessoas e animais não estão no mesmo plano, nem têm os mesmos direitos, mas a discussão não é essa. O que está em causa quando se fala de maus tratos a animais mais do que o sofrimento da vítima é a atitude do flagelador e a complacência que deve ou não existir face à crueldade que manifesta. No fundo é a tolerância relativa ao prazer da carnificina, ao gozo de provocar sofrimento num ser capaz de sentir com todas as fibras do seu corpo a atrocidade a que está a ser sujeito, que se discute. E essa é a questão de fundo da tourada. Algo que os aficcionados pretendem iludir quando falam da "arte do toureio". Mas de eufemismo em eufemismo a que se referem eles, quando elogiam a "festa brava"? À estética. Às chiquelinas, aos pasos dobles, ao confronto estilizado entre homem e besta. A visão crua da realidade, a de que no fundo gozam com a tortura de um bicho, não lhes interessa.

Fossem os toiros robots, as praças ficariam vazias. Porque a festa brava precisa de sangue. Sem sofrimento, sem aquela luta desesperada e inglória do bicho pela sua vida, não seria a mesma coisa.

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32 comentários

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De Anónimo a 10.11.2018 às 16:34

Já agora leia isto:
http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/os-deputados-sao-desumanos-272520

Não sei é se consegue compreender, deve ser muito complicado para si!

Se conseguir compreender, espero que seja homem para dizer ao autor que ele está errado!

Cresça!
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De Costa a 10.11.2018 às 20:39

Quanto ao texto para que me encaminhou (suponho que o anónimo imediatamente acima respondia ao meu comentário), louvo-o, ao autor do texto, por escrever "com a antiga ortografia". Que não é a antiga, antes a actual e isto porque - antes mesmo de qualquer outra consideração de substância - é um facto inquestionável que o repugnante AO90 está pretensamente imposto de forma pura e simplesmente ilegal à luz do ordenamento jurídico português.

Quanto ao tema, já não posso louvar tão vivamente o autor. Protestando embora, ainda que de forma algo rebuscada e puramente pragmática, a sua adesão a um grau de respeito pelos animais (cito a fórmula empregue: "Devemos actuar com o respeito necessário a uma estabilidade duradoura com o reino animal e a Natureza? Obviamente que SIM, até porque a nossa sobrevivência depende disso"; donde, se não dependesse talvez o pudéssemos ler a defender a depredação mais desbragada), parece postular que quem defenda a protecção dos animais despreza necessariamente a protecção dos humanos, que um esforço pela protecção dos outros animais será sempre intolerável enquanto não for alcançada a integral e perfeita protecção dos humanos, que é perfeitamente aceitável a selvajaria que reconhece ocorrer na exploração animal (mais não seja porque na natureza há também selvajaria entre irracionais, esquecendo que nós, humanos, afirmamos sempre estar acima desse patamar; o que se nos oferece direitos deveria também impor deveres).

Parece enfim afirmar que se os homens não se entendem quanto à protecção dos mais frágeis da sua espécie - e não se entendem, é facto -, então nada se deve fazer (sob pena de inaceitável desvio de recursos e talento) pela protecção dos animais. Não partilho dessa visão. O respeito pelos restantes animais não implica o desprezo pela espécie humana e pretender que é assim é coisa de insuportável desonestidade intelectual. Como o é a aparente, pelo menos, pretensão do autor do texto - que imagino vivamente aplaudida e seguida pelo anónimo comentador - de reduzir todo e qualquer defensor do bem-estar dos animais, liminarmente e sem mais - a um fanático "vegan", a um militante do PAN ou ao seu deputado.

Não sei deva eu crescer! (assim mesmo, com a imperatividade e taxatividade com que o anónimo comentador, inapelável e liminarmente, me desqualificou), caro anónimo comentador. Acredito, todavia, que aprenderei até ao meu último segundo de vida. E nesse sentido, sim, sempre "crescerei". Você decerto precisa de um pouco mais de educação.

Se alguma vez crescerá, não sei...

Costa

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