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Toma lá, dá cá

por Pedro Correia, em 27.11.20

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1

Raras vezes uma barganha política ficou tão evidente na mercearia interpartidária: o PCP inaugura hoje o seu XXI Congresso, em Loures, após ter viabilizado ontem as contas públicas para 2021 propostas pelo Governo minoritário do PS naquele que foi o último suspiro da "geringonça", nascida em Novembro de 2015 e falecida neste ano da desgraça de 2020.

É algo que, ao nível da linguagem popular, se traduz na expressão "toma lá, dá cá". Neste caso - e na perspectiva do Governo - toma lá congresso, dá cá voto parlamentar. E nem foi necessário ser um voto favorável: para aprovar o Orçamento do Estado bastou a abstenção do partido vermelho e do seu vitalício apêndice verde.

Não custa vaticinar que foi a última vez que tal aconteceu. A tentação de romper já com o PS, a exemplo do que fez o Bloco de Esquerda, era grande entre os comunistas. Também não custa perceber que a aprovação da Direcção-Geral de Saúde ao conclave partidário num dos derradeiros bastiões autárquicos do PCP funcionou como moeda de troca. Apesar de Loures ser um concelho de alto risco sanitário e o congresso implicar a mobilização de centenas de militantes oriundos das mais diversas partes do País em pleno estado de emergência.

Tudo à semelhança do que já sucedera noutros actos litúrgicos a que o clero comunista atribui prioridade absoluta nos seus rituais de culto: o 1.º de Maio, este ano celebrado com a CGTP a violar a interdição governamental de circulação entre concelhos, e a Festa do Avante!, no primeiro fim de semana de Setembro, quando a segunda vaga da pandemia já galopava no Seixal, outro concelho de elevado risco. Dias depois, quando a progressão do vírus se tornara iniludível, o Governo declarou todo o território nacional continental em "situação de contingência".

 

2

Cumpre assinalar que nada de relevante será debatido neste congresso. No PCP, que tem metade do Comité Central composto por funcionários do próprio partido, sem efectiva ligação ao mundo do trabalho real, todo o processo de decisão ocorre à porta fechada, nas impenetráveis reuniões do Secretariado (oito homens, duas mulheres) e da Comissão Política (18 homens, três mulheres), nunca sujeitas ao menor escrutínio jornalístico.

O conclave será um mero desfile de monótonos discursos formalmente "anti-sistema", proferidos sempre no mesmo estilo, no mesmo tom e na mesma langue de bois repleta de chavões forjados num partido ainda "revolucionário" de fachada mas rendido ao reformismo burguês. E que usufrui hoje de chocantes privilégios negados ao cidadão comum: enquanto a população se vê forçada a encerrar-se em casa, no próprio concelho de Loures, os congressistas usufruem ali de livre-trânsito em aberto desafio ao recolher obrigatório.

Tudo isto para no domingo reconduzirem como figura máxima o mesmo secretário-geral que ocupa o cargo há 16 anos. Homem, claro: nunca o PCP foi liderado por uma mulher ou teve sequer uma mulher à frente da sua bancada parlamentar. E alguém que é funcionário do partido há largas décadas, como acontece com tantos outros dirigentes, intitulados "operários" sem o serem de facto.

 

3

Toma lá o último apoio parlamentar; dá cá congresso e três dias de tempo de antena, a meses das autárquicas, com chancela das autoridades sanitárias: eis o recado de Jerónimo de Sousa a António Costa. O primeiro-ministro, que se prepara para votar Marcelo Rebelo de Sousa na eleição presidencial de 24 de Janeiro, deixa de ter amparo à esquerda.

Longe vão os tempos das manchetes festivas, em que as trombetas da propaganda governamental enalteciam o ilusório "milagre sanitário" português. Mais longínquos ainda, os dias em que Costa fazia graçolas com uma frase que terá sido proferida por Passos Coelho ao advertir que "vinha aí o diabo".

Pois o diabo chegou, em forma de vírus. Já estilhaçou a "geringonça" e já retirou o PS do Governo dos Açores ao fim de 24 anos de poder absoluto. Na crescente solidão do seu gabinete, Costa estará hoje cem vezes arrependido das farpas que lançou a Passos. Enquanto ganha ânimo para anunciar aos portugueses que este ano não haverá Natal.


70 comentários

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De Anónimo a 27.11.2020 às 11:02

"nunca o PCP foi liderado por uma mulher ou teve sequer uma mulher à frente da sua bancada parlamentar."

E ainda bem!
Pois, o lugar das mulheres é em casa.
A politica é para homens!!!!
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De brigada GAY a 27.11.2020 às 11:39

E para homens que gostem de homens!!!!!
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De V. a 27.11.2020 às 18:43

Disso tenho quase a certeza! Aqueles "Aqueles abraços" dos políticos que já vêm das repúblicas de Coimbra e dos grupinhos de interesses das faculdades... aquilo é tudo meio rabeta.
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De Anónimo a 27.11.2020 às 12:21

TEM RAZÃO!! E O ESTADO EM QUE "ISTO" está..prova isso mesmo !
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De Anónimo a 27.11.2020 às 16:14

Mulheres são para tachos e panelas!
Graça Freitas e Marta Temido, mas que anedotas!
São o maior exemplo da bandeira da incompetência feminina !

Jorge Costa
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De Anónimo a 27.11.2020 às 11:28

"Toma lá, dá cá..." -Vai-se ver.
-É que ontem pessoa muito da minha confiança me informou, a propósito de começarem a surgir casos de Covid19, aqui para a zona de Loures, logo que comece o "Festejo" do PC, vão exigir "contas aos Governantes! É que já houveram também casos logo que a outra Festa acabou... Não sabia disto.
O Povo da periferia não é balofo...pensa com a cabeça!
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De Zeca a 27.11.2020 às 18:37

"É que já houveram também casos"
Desculpe lá, mas não acha que antes de comentar nos blogues deveria aprender português? Estude os verbos.
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De Anónimo a 28.11.2020 às 02:39

Estudar os verbos não chega, tem que dizer palavra d'honra qu'é verdade.
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De V. a 28.11.2020 às 09:21

Os licenciados em comunicação social a tv dizem "houveram", contam "meios aéreos", vão "de encontro", "sobem rápido", falam à brazuca, etc, etc. Não admira que a ignorância seja a coisa mais abundante no universo.
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De Pedro Correia a 28.11.2020 às 09:39

Pois, o melhor é não ler jornais e correr para as cloacas sociais.
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De Anónimo a 28.11.2020 às 11:37

Jornais?
Ainda existem?
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De Pedro Correia a 28.11.2020 às 11:54

Existem, não te assustes.
O teu nome é que já se foi.
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De V. a 28.11.2020 às 11:53

Concordará comigo que já estiveram bem mais longe uns dos outros... E que os primeiros deliram e promovem os segundos? Por exemplo: quantas horas de noticiário nobre da SIC Notícias são ocupadas a pespegar de opiniões do Twitter e do Facebook nos ecrãs gigantes lá nos jornais das oito? Que relevância é que aquilo tem?
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De Marques Aarão a 27.11.2020 às 11:32

Qual lei qual carapuça.
Afigura-se segundo opiniões avalizadas, não ser taxativa nem para o sim nem para o sopas, havendo mesmo gente credível a afirmar não existir por aí argumento válido para não suspender o evento.
Contudo, só por um vergonhoso frete para satisfazer clientelas poderia acontecer uma alteração em cima de um caso concreto.
Diga-se ainda que a "lei é para aplicar de olhos abertos", que para cega já nos bastaria a justiça.
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De Anónimo a 27.11.2020 às 11:41

Os comunistas apenas querem fazer a sua festa de Natal antecipada.
Até vai haver troca de brindes e amigos secretos...
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De sampy a 27.11.2020 às 11:46

Vai ser lindo ver o desfile de taxis a levar comida dos take-away para os congressistas. Aposto que quase todos vão encomendar nos chineses. Espero é que haja a boa vontade de começar já a pagar a nova taxa sobre o vasilhame.
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De Anónimo a 27.11.2020 às 15:59

O PCP é um partido organizado. Certamente que encomendará a um restaurante local o fornecimento de comida em grandes quantidades. Virão carrinhas carregadas com panelas, não táxis.
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De sampy a 27.11.2020 às 19:59

Pois, as carrinhas da câmara.
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De Anónimo a 28.11.2020 às 02:42

Ou calhando vão a algum infantário, mas só ao pequeno almoço.
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De Robinson Kanes a 27.11.2020 às 12:02

Bem, tenho de ir a Loures amanhã, aproveito e digo que vou ao congresso...

Ainda bem que a minha comissão acaba em 2021 e já me posso pôr a andar, nunca tive capacidade para ser actor em filmes satíricos de leste datados dos anos 90.

O primeiro comentário é um verdadeiro hino à... É melhor nem dizer. Mas é um sério candidato a comentário da semana...

Bom fim-de-semana, Pedro,
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De Anónimo a 27.11.2020 às 12:21

Nunca a forma de fazer política desceu tão baixo e com isso degradou tanto a Democracia. Desde 2015 que está transformada na mercearia política que refere.
António Costa meteu-nos em atalhos e descaminhos com Marcelo Rebelo de Sousa de lanterna na mão, à frente, prestando-se a guiá-lo. Lamentável.




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De Marques Aarão a 27.11.2020 às 16:03

Costinventa na Marcelânia
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De Zeca a 27.11.2020 às 12:31

"Pois o diabo chegou, em forma de vírus"
Isso só prova que Passos Coelho tinha grandes qualidades como vidente. Como Primeiro Ministro é que era o problema (é que era o Diabo).
Terá recorrido ao Tarot? Não conseguiu topar que seria um vírus mas que vinha algo ruim, não há dúvida, adivinhou.
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De jpt a 27.11.2020 às 12:46

Toda esta abordagem do PCP à situação é um verdadeiro "estudo-de-caso" de clausura intelectual, de uma soberba desligada do real ... Quanto à reacção dos poderes, Belém e São Bento, é a demonstração da mera cabotagem em que seguem.
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De Fernando Antolin a 27.11.2020 às 13:19

Absolutamente de acordo.
E o que gosto de ouvir certos comentadeiros a enaltecerem o respeito pelas instituições, que o PCP supostamente tem ; o povo, aparentemente, é uma instituição menor, embora a palavra esteja lá sempre, na tal langue de bois da vetusta agremiação.
Abraço
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De Francisco Almeida a 27.11.2020 às 18:54

Cabotagem ou cabotinagem?
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De Peregrino a Meca a 27.11.2020 às 13:45

Dei com isto aqui (http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=1712&tabela=leis). Não sei se terá importância para este assunto:
Artigo 2.º
1 - A declaração do estado de sítio ou do estado de emergência em nenhum caso pode afetar os [...] à capacidade civil e à cidadania,
[...]
2 e) As reuniões dos órgãos estatutários dos partidos políticos, sindicatos e associações profissionais não serão em caso algum proibidas, dissolvidas ou submetidas a autorização prévia.

Pode que a lei esteja mal, mas "dura lex..."
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De Anónimo a 27.11.2020 às 16:48

O PCP tem 600 elementos como orgãos estatutários???
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De Pedro Correia a 27.11.2020 às 23:04

Não são elementos, são camaradas.
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De Anónimo a 28.11.2020 às 02:45

O Congresso é um Orgão Estatutário.
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De Pedro Correia a 28.11.2020 às 09:18

Invocar a lei de 1986, jamais concebida a pensar numa pandemia, para insistir na realização em 2020 dum congresso partidário em estado de emergência num concelho classificado de alto risco sanitário e em que a própria população local está submetida a recolher obrigatório, é mais do que cinismo ou sonsice: é pura estupidez, que só contribuirá para aumentar ainda mais os índices de rejeição do PCP junto dos portugueses.

Os comunistas, cada vez mais entrincheirados numa bolha endogamica e divorciados da população, invocam com sofisma essa lei, que em caso algum os impediria de adiar a reunião magna (como fizeram PS, BE e PSD-Madeira) ou realizá-la por via digital (como fez há duas semanas a Iniciativa Liberal).
Em qualquer dos casos, estaria respeitada não apenas a letra mas também o espírito do diploma de 1986.

O problema é que o PCP tenta moldar a realidade às suas teses em vez de proceder em sentido contrário, como seria sensato e curial. Tendo votado contra o estado de emergência, procede como se ele não existisse (privilégio negado ao cidadão comum). Insistindo em chamar "epidemia" à pandemia, como se o novo coronavirus fosse sarna ou sarampo, faz vibrar de júbilo algum negacionismo militante mas não consegue alterar os factos. Que são teimosos, como ensinava Lenine.

Pelos vistos a recente derrocada eleitoral nos Açores, onde o partido foi riscado da Assembleia Legislativa Regional, não ensinou nada aos comunistas. Acabarão por aprender de maneira ainda mais dolorosa, à sua custa, em todas as eleições que hão-de vir.
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De Anónimo a 28.11.2020 às 14:17

Afinal, quer dizer que até é bom que isto aconteça.
Os 600 é por já não haver mais, agora é que vão acabar. Uf!! 'té qu'enfim.
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De Peregrino a Meca a 30.11.2020 às 10:27

Estou de acordo. É irresponsável por dois sentidos, o sanitario e o político. O político o problema é deles (e do governo que apanha por tabela mas pouco pode fazer), o sanitário o problema é de todos (esperando que seja penalizado pelo político, mas tendo em conta a memória prodigiosa do português...)
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De Pedro Correia a 30.11.2020 às 22:07

Neste caso a memória não se apagará facilmente, tenho a certeza.

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