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"Todos somos americanos"

por Pedro Correia, em 19.12.14

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Obama com Raúl Castro em Dezembro de 2013, durante o funeral de Mandela

 

Barack Obama deu o passo que se impunha ao anunciar o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba, congeladas desde 3 de Janeiro de 1961 pelo presidente Dwight Eisenhower, ainda o actual inquilino da Casa Branca não tinha nascido.

É um passo que deve saudar-se. O embargo económico decretado por Washington à vizinha república das Caraíbas serviu apenas para conferir à ditadura castrista uma aura de legitimidade em defesa da soberania nacional ameaçada por pressões externas. Enquanto a população sofria, o regime ditatorial implantado há 56 anos em Havana tornava-se cada vez mais duro e mais fechado.

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Cuba, governada pelo mesmo partido e pela mesma família desde Janeiro de 1959, subsiste como anacrónico resquício da Guerra Fria. Mais de dois milhões de cubanos abandonaram o país desde que o comunismo ali foi implantado sob a bênção da União Soviética, que transformou o país num protectorado, enquanto guarda avançada do imperialismo vermelho às portas dos Estados Unidos. Quando o comunismo europeu entrou em derrocada, Cuba sofreu anos de dolorosa penúria até Fidel Castro, forçado pelas circunstâncias, abir a economia cubana às divisas estrangeiras proporcionadas pelo turismo internacional.

Mas a abertura não teve repercussões no plano político: as liberdades essenciais continuam a ser espezinhadas, o monolitismo governativo mantém-se incólume e todas as esperanças de abertura foram abortadas por sucessivas purgas que transformaram cada tímido reformista em feroz inimigo da "revolução".

 

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 Fidel Castro recebido em Washington pelo vice-presidente Richard Nixon (Abril de 1959)

 

Extinta a guerra fria, Cuba é hoje um tigre de papel que proclama slogans anti-imperialistas enquanto mendiga uns punhados de dólares para a subsistência elementar dos seus habitantes. Meio século de monocultura agrícola para abastecer de açúcar os camaradas soviéticos e de nacionalização total da propriedade de cultivo foram a receita certa para o fracasso actual: a ilha comunista importa 84% dos alimentos que consome e não faltam bolsas de carência alimentar no país, que dispõe de 6,6 milhões de hectares de solo fértil mas só cultiva pouco mais de três milhões.

O embargo - que atravessou dez administrações norte-americanas - lesou o povo cubano sem servir os interesses de Washington. Obama demonstra ousadia e coragem política ao enfrentar os poderosos lóbis anti-Castro - republicanos e democratas - com as medidas de abertura agora anunciadas.

É uma decisão que só peca por ser tardia. Afinal, os EUA normalizaram há duas décadas as relações com o Vietname - que continua a ser uma ditadura comunista - apesar da sangrenta guerra que ali travaram. E a diplomacia sino-americana vai de vento em popa apesar das divergências ideológicas entre Washington e Pequim.

 

«Todos somos americanos», declarou o Presidente dos EUA no seu discurso de quarta-feira em que anunciou o princípio do degelo com Cuba. Aquela frase de Obama foi pronunciada em espanhol para ampliar o potencial congregador da mensagem.

Condenar Cuba ao perpétuo isolamento dificultaria ainda mais uma transição que nunca será fácil do regime comunista para uma economia de mercado onde as liberdades sejam respeitadas e defendidas. O povo cubano só pode estar grato a Barack Obama.


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