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"Todos somos americanos"

por Pedro Correia, em 19.12.14

Obama%20Castro%203[1].jpg

Obama com Raúl Castro em Dezembro de 2013, durante o funeral de Mandela

 

Barack Obama deu o passo que se impunha ao anunciar o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba, congeladas desde 3 de Janeiro de 1961 pelo presidente Dwight Eisenhower, ainda o actual inquilino da Casa Branca não tinha nascido.

É um passo que deve saudar-se. O embargo económico decretado por Washington à vizinha república das Caraíbas serviu apenas para conferir à ditadura castrista uma aura de legitimidade em defesa da soberania nacional ameaçada por pressões externas. Enquanto a população sofria, o regime ditatorial implantado há 56 anos em Havana tornava-se cada vez mais duro e mais fechado.

2014-12-17 17.26.05.jpg

Cuba, governada pelo mesmo partido e pela mesma família desde Janeiro de 1959, subsiste como anacrónico resquício da Guerra Fria. Mais de dois milhões de cubanos abandonaram o país desde que o comunismo ali foi implantado sob a bênção da União Soviética, que transformou o país num protectorado, enquanto guarda avançada do imperialismo vermelho às portas dos Estados Unidos. Quando o comunismo europeu entrou em derrocada, Cuba sofreu anos de dolorosa penúria até Fidel Castro, forçado pelas circunstâncias, abir a economia cubana às divisas estrangeiras proporcionadas pelo turismo internacional.

Mas a abertura não teve repercussões no plano político: as liberdades essenciais continuam a ser espezinhadas, o monolitismo governativo mantém-se incólume e todas as esperanças de abertura foram abortadas por sucessivas purgas que transformaram cada tímido reformista em feroz inimigo da "revolução".

 

OB-BB024_castro_20080219033258[1].jpg

 Fidel Castro recebido em Washington pelo vice-presidente Richard Nixon (Abril de 1959)

 

Extinta a guerra fria, Cuba é hoje um tigre de papel que proclama slogans anti-imperialistas enquanto mendiga uns punhados de dólares para a subsistência elementar dos seus habitantes. Meio século de monocultura agrícola para abastecer de açúcar os camaradas soviéticos e de nacionalização total da propriedade de cultivo foram a receita certa para o fracasso actual: a ilha comunista importa 84% dos alimentos que consome e não faltam bolsas de carência alimentar no país, que dispõe de 6,6 milhões de hectares de solo fértil mas só cultiva pouco mais de três milhões.

O embargo - que atravessou dez administrações norte-americanas - lesou o povo cubano sem servir os interesses de Washington. Obama demonstra ousadia e coragem política ao enfrentar os poderosos lóbis anti-Castro - republicanos e democratas - com as medidas de abertura agora anunciadas.

É uma decisão que só peca por ser tardia. Afinal, os EUA normalizaram há duas décadas as relações com o Vietname - que continua a ser uma ditadura comunista - apesar da sangrenta guerra que ali travaram. E a diplomacia sino-americana vai de vento em popa apesar das divergências ideológicas entre Washington e Pequim.

 

«Todos somos americanos», declarou o Presidente dos EUA no seu discurso de quarta-feira em que anunciou o princípio do degelo com Cuba. Aquela frase de Obama foi pronunciada em espanhol para ampliar o potencial congregador da mensagem.

Condenar Cuba ao perpétuo isolamento dificultaria ainda mais uma transição que nunca será fácil do regime comunista para uma economia de mercado onde as liberdades sejam respeitadas e defendidas. O povo cubano só pode estar grato a Barack Obama.


32 comentários

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De Luís Lavoura a 19.12.2014 às 15:50

a ilha comunista importa 84% dos alimentos que consome e não faltam bolsas de carência alimentar no país, que dispõe de 6,6 milhões de hectares de solo fértil mas só cultiva pouco mais de três milhões

Poder-se-iam dizer coisas similares sobre Portugal: importa muitos dos alimentos que consome, tem bolsas de carência alimentar, e deixa ao abandono grande parte do seu solo fértil.

Não faz sentido produzir num país alimentos que é mais barato importar. Mesmo que um certo solo seja potencialmente fértil, não faz sentido cultivá-lo se houver no estrangeiro solos ainda mais férteis que forneçam o que é necessário.
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De Pedro Correia a 30.12.2014 às 17:22

Sim, Portugal e Cuba é tudo a mesma coisa. Sim, importar alimentos por parte de quem não tem dinheiro para os pagar é irrelevante.
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De Luís Lavoura a 19.12.2014 às 15:54

Meio século de monocultura agrícola para abastecer de açúcar

Há monoculturas similares em muitas áreas do Brasil. Tal como as há em diversos outros países.

Faz todo o sentido ter uma monocultura se se é mais competitivo nessa cultura. É uma simples consequência da teoria da vantagem comparativa de David Ricardo.

O Cristiano Ronaldo também só sabe jogar futebol, não sabe fazer mais nada de útil. Uma pessoa ou um país deve especializar-se naquilo em que tem vantagem comparativa.
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De cristof a 19.12.2014 às 20:25

Uma viagem a Cuba para ver como estão as refinarias ajuda a aclarar ideias.
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De Costa a 19.12.2014 às 22:05

O que não fará sentido, será (foi) abandonar largamente a agricultura, e não só, nos moldes em que isso foi feito quando da nossa absolutamente submissa entrada no que é hoje a UE. A agricultura, a pecuária, as pescas, deveriam - sem prejuízo das regras de um mercado comunitário em cuja integração se concluiu haver vantagens que ultrapassavam as desvantagens - sempre ser tratadas como uma reserva estratégica, um verdadeiro elemento de "soberania residual" (residual porque potencialmente a derradeira). E isso não há-de ser fatalmente impossível de compatibilizar com regras comunitárias. Talvez o caso espanhol se possa apontar como exemplo.

Quanto a uma monocultura que de facto monopolize desproporcionadamente terra e outros recursos, não será a melhor opção. Mesmo que por um período encha rapidamente bolsos, públicos ou privados, ou satisfaça outras prioridades (como a uma empresa será sempre perigoso depender de um só cliente, por doces ilusões que no curto prazo lhe forneça). E abandonar substancialmente o sector primário, como o fizemos, dificilmente será coisa melhor. As belas teorias e suas demonstrações que podem - e desejavelmente devem - por exemplo interessar uma turma de Economia Política, num primeiro ano de Direito, têm em regra umas duas centenas de anos sobre elas, ou algo mais, ou pouco menos. Valem sempre, entenda-se, mas mais como princípios gerais do que como dogmas.

E compare-se o comparável: um país como o Brasil poderá ter gigantescas áreas de monocultura e continuar a dispor de outras gigantescas áreas para outras culturas. Mesmo sem devastar a Amazónia. Não me parece, podendo estar errado, que se possa dizer o mesmo de Portugal, ou - como aqui interessará mais - de Cuba.

A especialização, e deixemos de lado Ronaldo (porque em causa está a sorte de milhões e não a capacidade de enriquecer desmedidamente aos pontapés na bola; coisas - queira-se ou não - de diferente dignidade), é um mérito a explorar. Mas não a permitir que se torne incapacitante.

Costa
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De KapaGêBê a 19.12.2014 às 16:16

O povo cubano e o camarada de Pirescoxe.
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De Pedro Correia a 20.12.2014 às 00:02

Havana mas não cai.
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De cristof a 19.12.2014 às 20:32

Saudando o avanço para o povo cubano, é também util perceber que os EUA precisam de caldear os seus interesses no quintal. O Brasil tem vindo a "desafiar" a arrogância anglosaxonica(vários empreendimentos em Cuba estão a ser feitos pelos brasucas) e a China tem estendido as garras( Peru, novo canal...). Nada como não descurar as traseiras(como dizem os presos no banho)
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De Pedro Correia a 19.12.2014 às 23:46

É isso, Cristof. A geoeconomia comanda os destinos do mundo hoje em dia, muito mais do que a geopolítica.
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De Vento a 19.12.2014 às 20:50

Deve acrescentar neste seu texto a intermediação da Santa Sé, e em particular do Papa Francisco, no restabelecimento das relações entre Cuba e EUA.
Parabéns Papa Francisco.
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De Pedro Correia a 19.12.2014 às 22:41

Tem toda a razão, Vento. Era minha intenção inicial fazer essa referência, que acabou por ficar esquecida num texto mais longo do que eu esperava.
Mas é também para isto que estas caixas de comentários do DELITO são importantes.
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De Carlos a 19.12.2014 às 21:16

Ironia do destino, ou não, os americanos fizeram o embargo a Cuba e mesmo assim, nada os demoveu de acreditaram que eram mais felizes com pouco do que os outros com muito e nada os demoveu até hoje de mudarem de regime. Já era tempo de os EU, pararem com a estupidez do embargo, é que eles não são donos de nada, nem de ninguém e qualquer povo tem de ser livre de querer o regime que quiser. Até hoje, onde tentaram impor regras deu asneira e não há meio de aprenderem com os erros. Oxalá que Obama consiga mudar o que nunca deveria ter existido, mas, como sempre, quando quer mudar algo, os republicanos que de democratas nada têm, aparecem sempre em oposição......
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De Pedro Correia a 19.12.2014 às 23:46

O embargo norte-americano apenas contribuiu para endurecer o regime cubano. Esta é uma realidade objectiva, inquestionável.
Obama teve a coragem e a lucidez de enfrentar este tabu.
Quanto a republicanos e democratas, não simplifiquemos. Convém anotar que o embargo foi decretado por um presidente democrata, John Kennedy, e prosseguido pelo seu sucessor imediato, Lyndon Johnson - outro democrata. E a mais dura lei anti-Havana do último meio século nos EUA foi produzida em plena vigência da administração Clinton - outro presidente democrata. Refiro-me à Lei Helms-Burton, promulgada em 1996 por Bill Clinton.
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De Carlos a 20.12.2014 às 13:39


O problema, de muitos democratas nos EU, é não saberem o que é a democracia e de a usarem para fazer de conta.
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De Pedro Correia a 20.12.2014 às 22:53

Ou seja: têm uma concepção muito 'sui generis' de democracia. Fazendo lembrar aquela sumidade política portuguesa que dizia: "Para os amigos, tudo. Para os inimigos, nada. Para os restantes, aplica-se a lei."
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De Maria Dulce Fernandes a 19.12.2014 às 22:42

É como diz é muito bem, tardou em acontecer.
É menos um inimigo pelas costas e a grande oportunidade do regime Castrista poder mostrar ao mundo a abertura, a transparência e a democracia pelas quais se pautaram durante tantos anos. Do povo, pelo povo e para o povo...
"É preferível morrer pelo fogo, em combate, a morrer em casa, pela fome"... A história absovê-lo-à... E os Cubanos, também ??
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De Pedro Correia a 19.12.2014 às 23:41

Se o embargo, que vigora desde 1960, não produziu quaisquer resultados práticos o seu levantamento - permitindo visitas frequentes ao país natal de cubanos residentes nos EUA e remessas periódicas de dólares a Cuba - certamente produzirá.
O estadista pensa na geração seguinte, o político sem categoria só pensa na eleição seguinte. Obama pensou na geração seguinte. E nos interesses a longo prazo, tanto de norte-americanos como de cubanos.
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De lucklucky a 19.12.2014 às 22:47

Ficámos a saber que alguns Delitos protestariam contra um eventual embargo dos EUA ao Regime do Estado Salazarento do Estado Novo ou ao Regime do Apartheid Sul Africano.

E até estou a dar desconto que o Estado Novo não era Totalitário como o Regime Cubano.
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De Pedro Correia a 19.12.2014 às 23:38

O embargo norte-americano, que se prolonga há mais de meio século, serviu apenas para fortalecer e robustecer a ditadura, enquanto aumentava o sofrimento dos cidadãos de Cuba.
Ainda bem para Cuba (e para os EUA) que não é você a tomar decisões nessa matéria. Obama, com visão estratégica, decidiu pôr fim ao mais lamentável anacronismo da política externa norte-americana.
Como entender que Washington tenha reatado relações com a China há mais de 40 anos e com o Vietname há duas décadas, mantendo o bloqueio diplomático com Cuba, situada a 130km da sua costa?
Quanto à comparação entre ditaduras, lamento mas não uso ditadurómetro: para mim são todas péssimas, não ando a medi-las.
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De Octávio dos Santos a 20.12.2014 às 00:29

«Como entender que Washington tenha reatado relações com a China há mais de 40 anos e com o Vietname há duas décadas, mantendo o bloqueio diplomático com Cuba, situada a 130km da sua costa?»

A resposta, a explicação, caro Pedro, poderá ser esta: é que, apesar de dominadas por regimes repressores comunistas, hostis à democracia e aos direitos humanos, a China e o Vietname são nações que nunca apontaram (ou que não permitiram que nelas fossem instalados) mísseis nucleares aos EUA, apenas a 130 quilómetros de distância.

O Pedro, tal como outras pessoas, neste assunto é bem-intencionado mas também ingénuo, e revela uma ignorância do que tem sido a presidência de Barack Obama e uma das suas mais perturbantes tendências: a de alienar aliados (já irritou, de diferentes modos, Reino Unido, Polónia, Israel, Austrália) e de apaziguar adversários, em que se incluem alguns dos maiores facínoras deste planeta: prometeu (e cumpriu) maior «flexibilidade» à Rússia, negoceia com o Irão, troca prisioneiros com os talibãs... que, quem diria, ainda há poucos dias mataram mais de 100 crianças no Paquistão.

Não é tanto o (r)estabelecer de relações com Cuba que tanto irrita os republicanos (que, ao contrário do que diz um anónimo fanfarrão ali em cima, são mesmo mais democratas do que os «democratas»): é que esta iniciativa não é acompanhada de uma efectiva democratização do regime de Havana, ou de garantias minimamente fiáveis de que tal irá acontecer num futuro próximo. «Qualquer povo tem de ser livre de querer o regime que quiser»? Sem dúvida. Porém, os irmãos Castro nunca deixaram os seus compatriotas escolherem, através de eleições livres, o regime que querem.
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De Pedro Correia a 20.12.2014 às 11:29

Caro Octávio:

Os argumentos que enuncia são característicos da Guerra Fria. Ora a Guerra Fria terminou há um quarto de século. A questão dos mísseis - que colocou o globo à beira de uma guerra "quente" - ocorreu em 1962, durante a administração Kennedy. Sucederam-se, nos últimos 52 anos, as presidências Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush (pai), Clinton, Bush (filho) e Obama. Não faz hoje o menor sentido reagir à questão cubana como se estivéssemos em Outubro de 1962. Cuba funcionava na altura como ponta de lança do imperialismo soviético, que a tratava como a mais preciosa jóia da coroa vermelha. Hoje é um país pobre, isolado diplomaticamente, que vive mais que nunca da caridade internacional (cem mil barris de petróleo diários recebidos a título gratuito da Venezuela, o que muito em breve deixará de acontecer devido ao iminente 'default' em Caracas).
Faz sentido agir hoje em função dos interesses estratégicos contemporâneos. Do ponto de vista estratégico, Washington necessita de reatar pontes com Havana. O inimigo principal deixou há muito de ser o comunismo, derrotado na Guerra Fria. O inimigo é hoje o terrorismo pseudo-islâmico, ameaça à escala global, e todos os potenciais aliados contam nesta luta. Não por acaso, a diplomacia do Vaticano teve um papel importante neste degelo cubano-americano. Do ponto de vista da geoeconomia, Cuba tem um potencial extraordinário para o investimento norte-americano. E, acima de tudo, o fim do embargo retira à decrépita ditadura cubana (que não sobreviverá à morte física dos irmãos Castro) o maior pretexto que usava perante a sua própria população para cerrar fileiras perante o exterior.

Quanto ao resto: não é ainda o momento, creio, para fazer um balanço da administração Obama. Que originaria sempre sentimentos de frustração - como aliás na altura escrevi - tantas eram as expectativas geradas à escala global no início do seu mandato. Um homem apenas não basta para alterar o poderoso sistema político norte-americano, que sempre funcionou em geometria variável, de acordo com os interesses de ocasião. Foi isso, de resto, que ditou o restabelecimento das relações diplomáticas entre os EUA e o Vietname em 1995 apesar de os dois países terem travado uma dura guerra entre 1963 e 1975. O acordo comercial bilateral de 2001 permitiu um enorme afluxo de investimento norte-americano no Vietname, hoje aliado de Washington no combate ao terrorismo:
http://www.state.gov/r/pa/ei/bgn/4130.htm
A aproximação ao Irão decorre apenas - e só - da necessidade imperiosa de conseguir aliados regionais no combate prioritário ao poderoso movimento terrorista designado de "estado islâmico". E parece-me injusta a acusação de fraqueza perante os russos. Logo numa semana em que Obama anunciou sanções ainda mais duras contra Moscovo. Não por acaso, a economia russa está a quebrar a ritmo acelerado:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/economia-russa-ruma-ao-abismo-6946833

A ditadura cubana tem os dias contados. Esta contagem decrescente acelera com medidas como as que Obama anunciou, não com a inflexibilidade revelada por todos os seus antecessores pós-Guerra Fria.
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De cristof a 20.12.2014 às 19:14

Dou-lhe uma coroa de anjo pela paciencia de tentar mudar os credos. Mas devo lembrar que as crenças não se mudam com a razão e lógica- convicção minha : as crenças não se discutem ponto.
Mas não desanime a coroa já é sua.
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De Pedro Correia a 20.12.2014 às 22:55

Cá continuarei, de qualquer modo, tentando levar a água ao meu moinho. Para isto também servem os blogues. Para pensamentos comprimidos em 140 caracteres, basta tuitar
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De lucklucky a 20.12.2014 às 19:19

Faltou claro palavra alguma sobre os refugiados Cubanos, os dissidentes Cubanos. Como esperado. Porque para a narrativa marxista o que conta é simplesmente as relações entre os EUA e Cuba. Tal como quando da crise Ucraniana a narrativa Marxista é tornar o caso em Rússia Vs Nato.

Framing the debate.

"A ditadura cubana tem os dias contados."

Conversa fiada, a ditadura salazarista cubana com o apoio dos jornalistas ocidentais tem um brilhante futuro à sua frente.
Basta apenas empregar as palavras que o marxismo considera correctas, manter a estrela vermelha, declarar-se comunista e romantico que tem todos aos pés.
O silêncio e a censura dos jornalistas sobre o que acontece em Cuba ainda mais reforçado ficará.
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De Pedro Correia a 20.12.2014 às 22:56

Uma medida política deve ser aferida, entre outros critérios, pelo seu grau de eficácia. O embargo a Cuba tem uma eficácia nula do ponto de vista norte-americano, é negativo para os interesses euro-atlânticos e catastrófico para a população cubana, até por servir de eterno alibi à profunda ineficiência do regime castrista até para alimentar decentemente o seu povo. Comparar 1962 - o ano da crise dos mísseis, o pior de sempre da Guerra Fria - a 2014 é comparar o incomparável.
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De Octávio dos Santos a 21.12.2014 às 19:39

«(Cuba) Hoje é um país pobre, isolado diplomaticamente, que vive mais que nunca da caridade internacional (cem mil barris de petróleo diários recebidos a título gratuito da Venezuela, o que muito em breve deixará de acontecer devido ao iminente 'default' em Caracas).»

Obrigado, Pedro, por, com este excerto, me dar razão (involuntariamente, claro...) na minha (e de muitas outras pessoas) oposição a esta «abertura» a Cuba e ao restabelecer de relações com Havana. É que, precisamente, com o cada vez maior enfraquecimento do apoio energético-financeiro de Caracas seria de supor (e valeria a pena esperar mais um pouco pel') a derrocada final do regime castrista. Porém, antes que isso acontecesse, Barack Obama resolve dar uma ajuda aos irmãos e aos seus capangas do Partido Comunista Cubano - que, pela voz de Raul, já avisaram que politicamente nada vai mudar. E economicamente também: os benefícios de eventuais fluxos turísticos e de investimento irão, principalmente, para a nomenclatura.

Esta situação tem pelo menos um antecedente, um caso (mais ou menos) similar: em 2009 enormes manifestações abalaram o Irão, e pensou-se que, dessa vez, os «ai-a-tolas» e os seus «guardas revolucionários» retrógrados e repressores teriam os dias contados. Esperou-se que Obama iria apoiar os manifestantes - se não abertamente, militar e materialmente, pelo menos moralmente (com declarações públicas, oficiais, de apoio) e, quem sabe, com alguma ajuda discreta de operacionais da inteligência. No entanto, tal não aconteceu: o actual presidente dos EUA nada disse e nada fez, e os que protestavam foram perseguidos, presos, silenciados; poucos anos depois, a Casa Branca resolveu encetar negociações com Teerão para tentar evitar que os iranianos construissem armamento nuclear, o que foi acompanhado pelo levantar de sanções e consequente reatar de relações económicas com o Ocidente. Resultado? Aquela ditadura muçulmana continua violenta, intolerante, desafiadora; continua a não dar liberdade aos seus cidadãos (alguns dos quais são detidos por gravarem e divulgarem vídeos em que estão a dançar) e a não dar garantias de que desistirá de obter a bomba atómica.

Pedro, não é por nós, nas sociedades democráticas, pensarmos e dizermos que «a Guerra fria já acabou» que torna isso verdade... para determinados países, e regimes, e pessoas, que, na verdade, ainda vivem na Guerra Fria. Como Cuba. Como a Coreia do Norte. Até como a Rússia: Vladimir Putin, que já admitiu que o fim da União Soviética foi para ele a maior das tragédias, mandou que os seus submarinos e aviões percorressem os mares e os ares dos países da NATO - demonstração de força provocatória, e que o ex-operacional da KGB só se sentiu à vontade para fazer depois de ter a certeza de que o seu homólogo em Washington é fraco e um adepto da teoria do «blame America first»; aliás, o Sr. Hussein, em telefonema a Raul Castro aquando desta deplorável decisão de o reconhecer como interlocutor válido, começou por lhe pedir desculpa pelos anos de embargo. Simplesmente vergonhoso.
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De Pedro Correia a 22.12.2014 às 13:38

Caro Octávio:

A tese do 'wait and see' e de "esperar mais um pouco" conduziu os EUA à situação actual: impasse total em relação a Cuba, o que contamina de algum modo a estratégia política de Washington em relação a toda a América Latina.
Essa foi a tese que fracassou, como o Presidente Obama acaba de reconhecer.

Há que enfrentar os factos: o embargo, parcial (a partir de 1960) ou total (a partir de 1962), serviu apenas para robustecer o regime cubano, fechando-o na ilha-fortaleza, imune às pressões exteriores. Já após a queda da URSS, em 1996, a Lei Helms-Burton acabaria também por se revelar um fracasso.

À beira do fim do mandato, Obama confrontou-se com este dilema: ser o 11º presidente norte-americano a abandonar a Casa Branca deixando a questão cubana por resolver ou desatar este nó com medidas arrojadas.
Optou - e bem - pela segunda hipótese ao anunciar a reabertura da embaixada norte-americana em Havana. Porque, em boa verdade, a manutenção do embargo choca neste momento com os interesses estratégicos dos EUA.

A Guerra Fria terminou, com a vitória global norte-americana. Os interesses políticos na mundovisão contemporânea são muito diferentes, o terrorismo islâmico é o inimigo principal.
Churchill aliou-se a Estaline contra Hitler para ganhar a guerra e, quando o criticaram na Câmara dos Comuns por ter ido a Moscovo, afirmou sem rodeios que teria ido ao Inferno se fosse preciso para se aliar ao Diabo contra a Alemanha nazi.
Descontando as devidas proporções, a mesma lógica aplica-se agora às relações cubano-americanas. Obama lê os interesses de Washington com visão estratégica, não da forma estreita que uma parcela do lóbi cubano em Miami gostaria.

A progressiva liberdade de investimento, comércio, turismo e telecomunicações entre os EUA e Cuba beneficia a prazo a população cubana, não o decrépito regime do clã Castro, que conhecerá o destino das restantes ditaduras comunistas. Isola ainda mais a Coreia do Norte (que ficará como derradeiro resquício da Guerra Fria, embora útil como demonstração viva da falência daquele sistema) e introduz um poderoso factor de perturbação nos chamados regimes "bolivarianos" (Bolívia, Equador, Venezuela) que mantinham relações tensas com Washington à boleia de Havana.
Sem essa boleia essas capitais terão de reconverter as linhas mestras da sua política externa, o que constitui um trunfo adicional para Obama.
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De Octávio dos Santos a 22.12.2014 às 23:26

É precisamente por eu não (nunca) ter medo de enfrentar os factos - e as lições da História, mais antiga ou mais moderna - que desconfio, e discordo, da abertura «obamista» a Cuba e, mais concretamente, aos irmãos Castro.

Pergunto-lhe, Pedro, se a «progressiva liberdade de investimento, comércio, turismo e telecomunicações» entre os EUA (e outros países ocidentais) e a China tem beneficiado efectivamente, alargadamente, a (médio e longo) prazo a população chinesa. Talvez uma ligeira melhoria em média da qualidade de vida, maior nas cidades do que nos campos, à custa também de catástrofes ambientais e de uma cada maior assimetria de rendimentos entre uma classe de novos (e muito) ricos - todos, inevitavelmente, com obediência ao Partido Comunista Chinês - e o resto dos cidadãos. Isto economicamente, porque, politicamente, nada de substancial se alterou - ditadura de partido único. Viu-se recentemente, em Hong Kong (como se tal fosse necessário), qual é a disponibilidade de Pequim para algumas, tímidas, reformas democráticas, 25 anos depois de Tienanmen - nenhuma. E nem faltaram «ecos» da «gloriosa» revolução cultural, com artistas a serem recambiados das urbes para o interior do país para serem «reeducados» e assim verificarem os menores privilégios de que dispõem bastantes dos seus compatriotas.

O regime de Mao e de Deng também era, também foi, «decrépito», mas soube renovar-se porque as gerações mais jovens, previamente e fortemente (eficientemente) doutrinadas, souberam manter o poder apesar da «abertura» ao Ocidente. Pelo que o «destino da ditadura comunista»... chinesa até que (lhe) tem sido, infelizmente, favorável. Pelo que lhe pergunto, Pedro: porque é que o mesmo não poderá acontecer em Cuba?

É ingenuidade pensar que a transição da ditadura para a democracia (e para o respeito pelos direitos humanos e pela liberdade) é inevitável - com o tempo, com intercâmbios políticos e económicos, com a modernização tecnológica, com a boa vontade de alguns dirigentes. Se assim fosse, vários países muçulmanos há muito que teriam eliminado a misoginia, a intolerância religiosa e a discriminação que ainda os caracterizam. E não só o progresso (como nós, na Europa e nos EUA, o encaramos) não é inevitável como, por vezes, o retrocesso acontece: a Turquia, que durante décadas constituiu um (bom) exemplo de país islâmico «moderado», até «ocidentalizado», está a sofrer uma «recaída» de fundamentalismo induzida pelo actual presidente e por fortes sectores que o apoiam; e a Venezuela, que durante décadas beneficiou de um sistema (imperfeito, claro... as suspeitas de corrupção sempre circularam) de economia de mercado e de democracia representativa, está há mais de dez anos a construir - através do voto! - um regime comunista de um tipo que já se julgava extinto, enfim, irremediavelmente... decrépito.

O que na verdade os governos «bolivarianos» de Caracas, La Paz e Quito (e, se calhar, também os de Buenos Aires e de Brasília... ;-)) aprenderam com a decisão de Barack Obama é que vale a pena «aguentar», porfiar no comunismo e na luta de classes, fazer frente à «pátria do imperialismo», porque esta acabará por ceder... e por lhes reconhecer legitimidade. Obviamente, também ajuda que na Casa Branca esteja alguém que ideologicamente não está muito distante deles, porque cresceu rodeado - e fazendo-se rodear - de marxistas, uns mais extremistas do que outros.
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De lucklucky a 20.12.2014 às 18:54

Não serviu nada para robustecer a Ditadura a não ser na cabeça dos moralistas marxistas ocidentais, a grande maioiria dos jornalistas que devido à censura aberta que cometem não contam nada sobre Cuba.
Quantos artigos nos jornais sobre os milhares de mortos afogados a fugirem do Regime Comunista?

Isto só vai assegurar a continuação da Ditdura Comunista que será claro cada vez mais uma Ditadura de Tipo Salazarista.

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De Pedro Correia a 20.12.2014 às 22:58

O bloqueio a Cuba pelos EUA, durante 34 anos, reforçou e acentuou o bloqueio de Cuba pelo regime cubano. Não é matéria de opinião: é matéria de facto.
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De João Pedro a 22.12.2014 às 00:47

Uma ditadura decrépita e sem outros apoios não resistirá a uma abertura da sua sociedade e cairá em poucos anos. Coisa que o embargo não conseguiu em mais de meio século (apenas permitiu o aumento do mercado negro, e é por isso que tantos cubanos de Miami espumam). E ao contrário do que argumenta Octávio dos Santos, há quem hipocritamente esteja contra a decisão do reatamento das relações diplomáticas, sim, sem qualquer alusão à crise dos mísseis (que de resto mais facilmente se repetiriam numa Cuba isolada que numa Cuba com relações com os EUA), talvez esquecendo as que há contra essa piedosa guardiã de Meca que é a Arábia Saudita. Esta decisão só peca por tardia. Até pelos milhares de boat people que se aventuram mar adentro ela se justificava.
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De Pedro Correia a 22.12.2014 às 13:41

Sim, João Pedro.
Não por acaso, o Observatório de Direitos Humanos - uma das mais prestigiadas organizações não-governamentais que actua à escala global - veio saudar a decisão de Obama. Em termos inequívocos.
"É evidente que os EUA e a comunidade internacional necessitam de uma nova atitude que contribua para pôr fim a décadas de abuso do Estado na ilha de Cuba", salientou esta organização em comunicado.

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