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Ursula K Le Guin (1).jpg

 Ursula K. Le Guin em 1985 (fotografia de Brian Drake para o The Times, via Los Angeles Times)

 

In reading a novel, any novel, we have to know perfectly well that the whole thing is nonsense, and then, while reading, believe every word of it. Finally, when we're done with it, we may find - if it's a good novel - that we're a bit different from what we were before we read it, that we have been changed a little, as if by having met a new face, crossed a street we never crossed before. But it's very hard to say just what we learned, how we were changed.

Ursula K. Le Guin, na introdução a The Left Hand of Darkness (1969)

 

Para a ficção científica literária, a morte de Ursula K. Le Guin representa o desaparecimento de toda uma época: Le Guin começou a publicar no início dos anos 60, já nos derradeiros anos da famosa "Golden Age" do género; atravessou a revolução da "New Wave" no final dessa década, e continuou pelas décadas de 70 e 80. Seria talvez a última autora clássica do género: no tributo que lhe presta nas páginas do Los Angeles Times, o escritor John Scalzi descreve Le Guin como "a supporting column of the genre, on equal footing and bearing equal weight to Verne or Wells or Heinlein or Bradbury." Mas talvez seja mais do que isso. Verne, Wells e Heinlein (e Clarke, e Asimov) são clássicos pela fundação e pelo desenvolvimento do género, mas Le Guin não seguiu as pisadas dos homens que a antecederam: a sua obra tornou-se clássica não pela continuidade que deu ao cânone da ficção científica, mas pela rejeição desse cânone, pelo expandir dos horizontes de todo o género, e pela forma exemplar como demonstrou que a Ideia, pedra angular da ficção científica, pode não lhe bastar. 

 

E demonstrou-o pela palavra, em contos e livros excepcionais. Diria ser impossível esquecer The Ones Who Walk Away From Omelas, uma parábola poderosíssima escrita em poucas páginas. Ou a ambiguidade de The Dispossessed, com a sua trama dividida entre a sociedade anarquista de Anarres e a sociedade capitalista de Urras, uma reflexão pertinente num terreno pantanoso onde autores menores se afundariam aos primeiros passos. Ou The Left Hand of Darkness, com a sua desconstrução da identidade de género e o seu estudo meticuloso sobre a importância, e a irrelevância, da diferença. Ou - provavelmente o meu preferido - The Lathe of Heaven, livro-tributo a Philip K. Dick, no qual Le Guin leva até às últimas consequências a ideia de que de boas intenções está o Inferno cheio. Sempre com uma prosa excepcional e uma humanidade ímpar, que contribuíram para a elevação e afirmação de um género literário sempre considerado marginal. Para todos os efeitos, a literatura de ficção científica teve em Le Guin mais do que uma das suas maiores vozes - teve nela também uma das suas mais ferozes defensoras. 

 

Mas não se ficou pela ficção científica: a série Earthsea figura entre a melhor fantasia literária já publicada, espantosa pela sua diversidade natural e pela subtileza das suas influências orientais, que representaram uma lufada de ar fresco para um género à época dominado pela sombra de Tolkien e pelo sem-número de imitadores que se lhe seguiram. A aventura de Ged ao longo da trilogia original, em A Wizard of EarthseaThe Tombs of Atuan, e The Farthest Shore, conta com quase cinqueta anos, e não perdeu nem um pouco da sua força. 

 

Cá em casa, na biblioteca que temos vindo a construir, nenhum autor surge tantas vezes. Se tivesse de nomear o meu livro preferido de ficção científica, provavelmente não escolheria um título de Le Guin; mas se tivesse de escolher um escritor ou escritora preferido, não hesitaria na resposta. Ocorrem-me vários livros que me mudaram de alguma forma, mas apenas Le Guin o conseguiu tornar a fazer a cada novo livro ou conto que li. Ainda tenho alguns por ler, tal como a poesia, os ensaios, as inúmeras crónicas - textos dispersos felizmente compilados e editados em anos recentes. Mais do que nunca, aguardo por essas leituras com muita expectativa.

 

Ursula Kroeber Le Guin faleceu anteontem na sua casa de Portland, nos Estados Unidos. Tinha 88 anos, e escreveu livros extraordinários. 


13 comentários

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De Beatriz Santos a 24.01.2018 às 23:51

O que eu perco se não a ler...
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De Anónimo a 25.01.2018 às 12:07

Talvez aprenda a não deixar comentários parvos ....e "cresça" um pouco como pessoa.
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De Beatriz Santos a 25.01.2018 às 21:06

e para que responde aos meus comentários parvos senhor anónimo?! Não brincava ou escarnecia, tenho pena de ainda não ter lido a escritora. Talvez ainda consiga soletrar umas páginas, devagarinho. Isto se a parvoíce que me assola consentir. Acha que tenho chance?
Quanto a crescer como pessoa...tem razão, falta-me sempre muito, mas verifico pela sua resposta que não estou só. Além disso, dizia o Almada e tinha razão, que "há-de haver outra maneira de salvar uma pessoa" .
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De João Campos a 25.01.2018 às 12:43

Não estou certo do tom do comentário, mas diria que perde uma das grandes escritoras do nosso tempo, independentemente de géneros literários. Bem vistas as coisas, isso é algo que sempre acabamos por perder; para quem gosta de ler, a vida é demasiado curta para se ler todos os livros que despertam o nosso interesse.
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De Beatriz Santos a 25.01.2018 às 21:13

O tom é de alguma pena por não conhecer nada da escritora e me sentir uma ignorante no que lhe diz respeito. Mas ainda não estou morta. Portanto...
Tem razão, não se pode ler tudo. Nem talvez sequer o que e quanto se deseja. Entre outros motivos que não constam senão da subjectividade de cada um, porque também - felizmente - se desejam outras coisas.
Obrigada pela apresentação que nos deixou na sua morte.
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De João Campos a 25.01.2018 às 21:37

Se me permite a sugestão, leia o conto que mencionei: "The Ones Who Walk Away from Omelas". É uma meia-dúzia de páginas, facílimo de encontrar na internet. Não resume a obra de Le Guin, mas é uma apresentação marcante.
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De Beatriz Santos a 26.01.2018 às 20:26

Obrigada:)
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De Paulo a 25.01.2018 às 10:32

Le Guin foi uma das primeiras autoras do género que li, e um dos que me manteve fiel à ficção científica durante mais de vinte anos (nesta fase não lia mais nenhum género...), por isso fico satisfeito por todas as demonstrações de carinho com o desaparecimento físico desta grande autora..
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De João Campos a 25.01.2018 às 12:39

Se há alguém que merece, é ela. Felizmente a obra perdura, e podemos continuar a deliciar-nos com as palavras e com a imaginação dela.
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De Makiavel a 25.01.2018 às 11:33

Sendo fã de Heinlein, acho que vou comprar um livro desta escritora que não conhecia. Qual aconselha para debutar?
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De João Campos a 25.01.2018 às 12:34

Le Guin é muito diferente de Heinlein. Recomendaria talvez "The Lathe of Heaven" ou "The Word for World is Forest".
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De Fitz a 25.01.2018 às 16:04

Pode-se saber qual seria esse livro? (i.e. aquele que é referido nesta passagem: "Se tivesse de nomear o meu livro preferido de ficção científica, provavelmente não escolheria um título de Le Guin")
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De João Campos a 25.01.2018 às 18:26

Claro. Muito provavelmente seria "Stand on Zanzibar", de John Brunner. É um livro absolutamente extraordinário, que provavelmente nunca conhecerá uma tradução portuguesa.

Já se a pergunta fosse não de um livro preferido mas de uma lista de, vá, dez livros, é muito provável que lá tivessem lugar "The Lathe of Heaven" e "The Left Hand of Darkness". Diria que são dois textos fundamentais da ficção científica literária.

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