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Título curto

por José António Abreu, em 12.11.14

Não sejas assim. Quantas vezes já aconteceu? Uma. Outra. Depois outra. E outra. E ainda outra. E mais outra. Não aprendes. És incapaz de aprender. Estás fora do tempo. Olha o Twitter. 140 caracteres. Nem mais um. Olha as sms. Frases curtas. Palavras abreviadas. Toda a gente lê até ao fim. E percebe. Excepto os velhos do Restelo. A esses as abreviaturas confundem-nos. Resmungam. Protestam. Dizem que o mundo está perdido. k patético. Mas pronto. São poucos. Vão morrendo. Se queres relevância, usa frases curtas. Sem vírgulas. De preferência. Fundamental é que sejam curtas. Arranja poder de síntese. Ideias também curtas, se necessário. Não te será difícil. Já o fazes com regularidade. Através de frases compridas. Aprende. Tudo curto. Que seja o teu mantra. Tens coisas curtas. As erradas. As que deviam ser compridas. Enfim. Tudo trocado. Esquece os parêntesis. E os travessões. Sê sucinto. Melhor: sê breve. Tem menos letras. Um ponto final por cada conjunto de quarenta caracteres. No máximo. Sim, quebraste a regra ao defini-la. És incorrigível. Depois ninguém te lê. As pessoas não querem frases compridas. Não querem frases com montes de orações coordenadas. Mal coordenadas. As pessoas têm dificuldades de coordenação. Têm de coordenar a vida profissional com a familiar. O horário do emprego com o dos transportes. As despesas com o rendimento. Também não querem sequências de orações subordinadas. Andam subordinadas todos os dias. Estão fartas de subordinarices. Sujeito. Tu. Ele. Cães. Gatos. Nada de hipopótamos. Ou de ornitorrincos. Letras a mais. Fala do Passos e do Costa. Esquece o Tribunal Constitucional. Demasiado comprido. Difícil de pronunciar. Cheio de velhos do Restelo. Verbo. Ser. Estar. Fazer. Ir. Vir. Tens sorte. São quase todos curtos. Complemento. Curto. Como os de ordenado. Excepto em certas empresas. E em certos cargos. Esquece. Mas curto. Evita adjectivos. Já o devias fazer nas frases longas. Evita advérbios de modo. Obviamente. Evita termos pouco comuns. Ainda que sejam curtos. Sê breve. Não conciso. Odeia. Não execres. Torna as pessoas felizes. Facilita-lhes a vida. Ler é cada vez mais difícil. O tempo aperta. A concorrência é enorme. O Facebook. O Instagram. A Casa dos Segredos. As opiniões do professor Marcelo. Frases curtas. Fundamental. Desde que não pareçam poesia. Ninguém lê poesia. Mesmo que tenha frases curtas. O que é frequente. A poesia é como o sexo oral. Não. Não posso explicar. Exigia uma frase comprida. Pronto. Está bem. Eu explico. E mostro como se pode ser sintético. Raios. Breve. Breve é que é. Mas então. Gosta-se do conceito. Aborda-se com ligeiro temor. Parece um mundo à parte. Uma lógica estranha. Uma forma errada de usar as palavras. Uma forma blasfema. Aprende-se a gostar. Mas há quem não consiga. E quem nem queira experimentar. Basta de analogias. As analogias fazem pensar. Não faças pensar. Afirma. Nega. Sê claro. Sê breve. Não te armes em intelectual. Os intelectuais são um cancro. Não te armes em político. Os políticos são outro cancro. Maior. Uma ideia tem de passar em poucas palavras. Repara no teu texto de ontem. O do cão. Ridículo. Todo ele. Mas em especial o comprimento das frases. Complicadas. Com derivações. Comentários. Repetições. Exageros. Tentativas de humor. Esquece. Frases curtas. Ou então desiste. Não se perde muito.

Ah. Mais uma coisa. Não basta que as frases sejam curtas. É fundamental que todo o texto o seja.

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8 comentários

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De Ana Lima a 12.11.2014 às 17:31

Comentário curto: muito bom!
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De Maria Madeira a 12.11.2014 às 18:39

Palmas (aqui em baixo diz que faltam 4.221 caracteres, acho que me portei bem).
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De Ana a 13.11.2014 às 00:12

Gostava apenas de agradecer. Não sei se calcula o quão útil este seu texto pode ser. Fê-lo com toda a intenção, bem o sei, embora também houvesse legitimidade suficiente para que ele constasse como mero desabafo. Sei do que fala e, independentemente daquilo que o motivou, quero só dizer-lhe que para mim servir-me-á de alerta sempre que (por distracção ou influências) me desleixe. Ficará guardado na memória como alarme recriminatório na tentativa de esta "onda" - que tantos já tem arrastado - não me levar também.

Obrigada! :)
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De Miguel a 13.11.2014 às 00:13

Vais adorar o meu romance.
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De Anónimo a 13.11.2014 às 08:59

Brilhante!
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 13.11.2014 às 09:49

Um dos melhores. Textos. Que já li. Neste blogue. Entrada directa. Na antologia DELITO. Parabéns. Ao autor. Claro. Só podia. Ser ao autor. A quem mais. Havia de ser?
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De Helena Ferro de Gouveia a 13.11.2014 às 16:27

Calma JAA,

Respire fundo fundo e continue a exercitar a analogia.
Passada adolescência (bem há quem nunca passe dela) desapreceram enigmas como: "biglzuhau”(bin gleich zu Hause, estou a chegar a casa), “wobidu” (wo bist du?, onde estás) ou “yolo”(“you only live once).
Ah e mesmo quem escreve estas mensagens crípticas lê livros de centenas de páginas. Não desista ;)
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De Helena Sacadura Cabral a 13.11.2014 às 22:10

Belo texto!
Ainda me estou a rir.
Felizmente escrevo pouco. E curto. Safa!

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